quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

No meio



Hoje pela manhã, respondendo à um recado enviado à mim pelo orkut, percebi o quanto o mundo virtual se torna cada vez mais presente, mais real na vida das pessoas. A minha própria vida virtual é bem mais movimentada que a real. Então, me surgiu a seguinte questão na cabeça: Não seria a chave para o homem existir sem causar danos, a existência ativa apenas de sua consciência? Corpos ligados à computadores, mantidos vivos por eles, porém inertes, e a manutenção da consciência livre pela web e seus paraísos artificiais?

A cada dia tenho menos fé no homem, a condição em que ele se encontra é inerente à sua própria natureza destrutiva. Não creio que seja por culpa da matéria em si, pois antes do advento do homem a Terra era um ecossistema perfeito, com seus mini ciclos de destruição-renascimento perfeitamente equilibrados. Talvez, juntamente com o desenvolvimento de uma inteligência um pouco mais apurada que a dos animais, tenha se desenvolvido também um super-ego, e é isso o que faz dos homens seres tão corrosivos, visto que o ego é uma maquininha de desejos. Ele quer incessantemente, uma vontade não satisfeita sobrepõem a que já está saciada na velocidade de um instante. Tão maior a natureza egóica de algo, tão maior será seu poder de fogo. A queda do paraíso se deu frente à manifestação do primeiro desejo (Lupa, muito obrigada!).

Não que eu condene o ego por completo, sem ele não haveria movimento. A não-mente é a saciedade profunda, e neste estado, não há porque haver ação. Partindo do princípio de que creio que há um motivo específico, ainda que eu não o conheça, para minha consciência estar manifestada na carne, e que ela é a expressão da minha Essência em movimento, não creio que a busca pelo estado de não-mente constante, como a Iluminação de Buda, seja a finalidade da vida, pois isto tiraria o porquê da minha presença material aqui, tiraria o porquê do movimento. O Não-Manifesto representa não só o eterno, mas o infinito. E dentro destes parâmetros, qualquer ação passa a ter caráter vão.


O caminho é o do meio. Mas como controlar as massas? O planeta está condenado à degradação rápida, a não ser que haja um salto evolutivo que modifique algum padrão cerebral do Homo sapiens, fazendo com que ele consiga viver no equilíbrio entre estes dois mundos, mantendo em si desejos sim, mas desejos saudáveis, no sentido de que sua satisfação não prejudique à outrem, ainda que este outro seja o planeta em que vive, interagindo em paz com os outros e com o ambiente. Particularmente eu não acredito nisso. E as pessoas não pensam mais por si, talvez nunca tenham pensado, do contrário, não teríamos chegado à este nível de declínio de valores (e eu sou tudo, menos careta).

Talvez a vida em si seja já fruto de um prazer egóico. O Não-Manifesto não tem individualidade, e não sei se agrada à todos a idéia de ser apenas parte de uma 'massa' sem processamento individual. Seria a mesma coisa que sermos formigas operárias de um formigueiro cósmico gigante, no qual a parte não importa por não ter identidade, apenas a obra do todo, apenas o sistema. Talvez quebrar o Samsara seja parar de dizer não ao Todo, parar de lhe dizer que queremos ser outra coisa que não ele, dizer adeus à quem fomos pra sempre, pra lá da memória. Esse não seria o apego derradeiro? O amor a si mesmos? Por enquanto, vou dizendo não. Ainda gosto muito de quem eu sou, e, talvez, mesmo compreendendo por completo que a existência, quando observada de uma certa distância é vã, eu continue me amando e não querendo me separar de mim.

Embora minha existência me agrade bastante, minha experiência aqui não me tem agradado.E isso nos traz de volta ao problema da existência na Terra, visto que as condições de vida que o homem cria pra si mesmo tem se tornado cada vez mais miseráveis, não só do ponto de vista material, mas espiritual. A futilidade de espírito impulsiona a maquininha de desejos descontroladamente, pois quanto maior o vazio interior, quanto maior o distanciamento do Não-Manifesto, menor a saciedade existencial. E que dizer à essas pessoas, que nunca tiveram contato com Ele para fazê-las compreender?

Então, penso na possibilidade, ainda que a rejeite como modelo ideal, de manter as consciências ativas, porém com a privação de sua ação física. Não como Matrix, onde os homens perderam essa consciência, mas sim que eles ali estivessem vivendo sob vontade, em ciência do processo. Se o mundo conforme o conhecemos é subproduto da mente, é todo interpretação da mente, e se a verdade é subjetiva porque sua interpretação está sempre condicionada à padrões mentais que vão desde a recepção de sinais químicos até conceitos culturais, podemos dizer que cada ser vive num mundo à parte, recriado por si mesmo, em sua própria realidade paralela. Até as sensações físicas são interpretações da mente, e o exemplo maior disso são as doenças somáticas.Vendo sob este aspecto, não vejo nesta possibilidade ferimento nenhum à ética. E não haverá a matéria para acirrar as competições e quereres dos egos, que ainda existirão, mantendo sua individualidade mas agora com outros desejos, novos padrões de busca e beleza. Poder criativo ilimitado, música, imagens, arte, conexão telepática imediata, teletransporte...
Manter a mente aberta é sempre bom. Só quem nos aprisiona somos nós mesmos e a quebra de paradigmas é um passo no caminho da liberdade.
Daniel, obrigada por Asimov
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sábado, 23 de dezembro de 2006

A Vinda


Resolvi postar a poesia de um amigo meu, que reflete, assim como o viço da sua juventude, o Momento e o Anseio.


A vinda

O caos ficou
Mais claro
Vi o fim
Muito de perto

E não exito
Em fugir
Para um lugar seguro
E deixar tudo e todos

Movam-se
Não deixem acabar
Nossa mãe é muito maior
Do que podemos imaginar

Parem as vozes
Gritem as dores
Criem valores
Novos amores

Nuvens
Descem a terra
Chovem a dor
Em nossas mãos

Meus olhos
Ja choram antes
Mas meus braços não param
De escrever para vos acordar

Na fronteira de um universo derrotado
Nos pensamentos de um louco no hospício
Que prevê o fim
E a vinda de uma fera

Que varrerá
Todo o mal
Todo o ódio
Todos homen-animais

Pode ser que não me compreendam
Se eu disser que não estou louco
E eu caia na rua dos enganos
E eu seja esmagado por seus galhos

Descruzem os braços
Olhem para o futuro que esta aqui
O passado ainda não aconteceu
Veremos realmente o sol derreter

E o meu sonho não vai acabar
Pelo menos hoje
Momentos de horror
Me fortalece para não parar

(David Dantas)
Em
http://entheogenesys.blogspot.com/

Mutantes, Uni-vos!


Eu apóio o Magneto. O Professor Xavier vai acabar morrendo como o John Lennon

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Natal ou Bacanal?


Mais um Natal está chegando.
Cada vez menos comemorado.
Há alguns anos atrás, lembro que por essa época, a cidade estava toda iluminada.
As pessoas estavam excitadas, felizes, se desejavam Boas Festas com um sorriso.
Outro dia olhei pela janela de um amigo.
E encontrei tudo escuro.
Aqui e lá, só escuto comentários do tipo: "Que saco, tenho que dar presentes pra todo mundo, enfrentar shopping cheio, aguentar minha família..."
O Natal virou festa só pro comércio.
Assim como tudo na Babilônia, filha do capitalismo, até isso se perverteu.
Ninguém mais liga pro sentido desta data, ninguém mais quer comemorar o nascimento do Mestre.
Querem é ganhar coisas que lhes tragam um milésimo de segundo de satisfação em suas vidas vazias, comer feito porcos, se embebedar como gambás.
Enfim, o Natal virou praticamente uma festa de Baco!
Fim dos tempos, fim dos tempos...

Hienas do Século XXI


Se Huxley escrevesse hoje seu "Admirável Mundo Novo", com certeza o soma se chamaria Prozac... Ser idiota não importa, contanto que se possa ser um idiota feliz.

domingo, 17 de dezembro de 2006

Arena Moderna


E como num eterno ciclo, que leva nada à lugar nenhum, cá estamos nós, como os romanos de outrora. Os mesmos temores, as mesmas lutas, a mesma sede por sangue.
Vampiros, zumbis à quem o caos compraz mais até que um orgasmo.
Os romanos ao menos não eram hipócritas. Nós, ao olharmos para o passado, os julgamos como bárbaros sanguinários. Do alto de nossa elegância, polidez e pensamentos politicamente corretos, não vamos às arenas.


E quem precisa delas?


A arena é nossa sala de estar.
Sangue e morte nos noticiários, e quase apenas isso. A cada gota de sangue, mais dez pontos na audiência.
É isso que o povo gosta, é isso que o povo quer.
Os jornais populares, esses de 50 centavos, são especialistas.
Fotos, fatos, sobre a desgraça, a mentira, a vilania, a corrupção. E sexo, muito sexo.
Desgraças e bundas, homicídios e peitos, latrocínios e bocas carnudas.
O sangue leva a multidão ao êxtase, basta ver como um acidente, uma briga, qualquer desastre ou tragédia é capaz de fazer os olhos dos abutres se voltarem.

Quanto magnetismo há no sangue! Como ele é fascinante!
Por isso as guerras não acabam! Na paz não há sangue, e os animais querem sangue.
A excitação do sangue se mistura à excitação sexual, então, porque não unir as duas coisas?

Acabou-se a era do pão e circo.
Agora a turba urge por sangue e xota.
E a massa segue fascinada com seus novos-velhos veículos de cegueira.


""É sangue mesmo, não é mertiolate"
E todos querem ver
E comentar a novidade.
"É tão emocionante um acidente de verdade"
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:
Vai passar na televisão"
Metrópole - Legião Urbana

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006


O homem, ao figurar no topo da cadeia alimentar, se espalhou pelo mundo. Sua capacidade adaptativa extraordinária o habilitou à vida mesmo em lugares inóspitos, de natureza rude, muito frios ou muito quentes, com excesso ou escassez de chuva. Tal adaptabilidade só é comparável à das... Baratas!
Sim, o homem e as baratas podem ser encontrados em qualquer parte do mundo colonizado... Tal como pragas.

Até a Revolução Industrial, havia grande necessidade de material humano na Terra. Todo o trabalho era realizado de forma artesanal, mas quando sobreveio a Revolução, boa parte das profissões tornou-se obsoleta, e os trabalhadores que estavam nelas engajados, perderam seu posto. O mesmo continua a ocorrer, ainda hoje. Máquinas substituem a mão humana, com cada vez maior precisão e queda nos custos.

Seria razoável imaginar que este movimento tivesse por conseqüência um decréscimo na população, pela razão óbvia de que não há como manter populações imensas sem emprego.

Fora este fator, os avanços na medicina, com a erradicação de doenças e a manutenção de condições saudáveis mesmo em indivíduos de idade avançada, contribuiram também para que a necessidade de novos indivíduos a serem concebidos para integrar o sistema (seja qual for adotado) diminuísse ainda mais. Essa consciência é observada na Europa, com suas populações cada vez menores, tendendo até mesmo a um índice demográfico de proporções negativas, após ter passado por fase estacionária.

O que se dá no Terceiro Mundo é exatamente o inverso.

Aqui, continuamos a nos multiplicar, indefinidamente, como se a Terra fosse uma fonte infinita de recursos, fonte infinita de água, alimento, energia... Mas o que impulsiona tal movimento, visto que as condições de vida no Terceiro Mundo são as piores possíveis?

Não sei se há aqui um vírus de inconsciência, ou se a debilidade em aperceber-se de tal coisa é comum àqueles que não tem instrução. Há também a possibilidade de que não haja um interesse global no decréscimo populacional dos países pobres. Ora, sempre haverá a necessidade de profissões, digamos, menos qualificadas, eu diria até mesmo menos respeitadas, como faxineiros, lixeiros, operadores de fábrica. Nada pessoal contra este tipo de trabalho, ou contra os trabalhadores que o realizam, mas falando francamente, não conheço nenhuma criança que tenha a pretensão de se tornar faxineiro quando crescer.


Mantendo uma população grande de ignorantes no Terceiro Mundo, estar-se-ia mantendo um celeiro de indivíduos que futuramente podem ser "exportados" para os países ricos, que por sua vez mantêm sua população de indivíduos especializados, diplomados, com seus pós-ultramega-doutorados, pelos quais tem o direito de receber também pós-ultramega salários, a serem gozados frente à base da pirâmide, constituída pelos "gentios" ignorantes.
Será que estou sofrendo de mania de perseguição? Ou seria fixação por teorias da conspiração?



"De fato, a média de 6,2 filhos por mulher brasileira existente em 1950 caiu para 4,4 filhos em 1980 e para 2,3 no ano 2000.Quando a análise se baseia no poder aquisitivo das famílias que dão origem à maioria das crianças, no entanto, essa impressão tranqüilizadora desaparece imediatamente. Por exemplo, em 1980, na faixa etária dos 15 aos 19 anos, em que se concentra grande parte das mães de baixa renda, para cada 100 mulheres, nasciam 8 filhos; hoje nascem 9,1." VARELLA, DRAUZIO. Extraído de http://drauziovarella.ig.com.br/artigos/edemografica.asp.





Era pra ser Misantropia Complacente. Mas depois lembrei que complacente é cu de bêbado. Aliás, talvez a coisa toda tenha perdido o controle por um excesso de complacência. Tiramos do indivíduo a responsabilidade por quem ele é, a partir do momento que passamos a atribuir sua identidade ao ambiente em que vive.
Não sou insensível o suficiente para afirmar que o ambiente de nada conta, é verdade que ele possui grande influência na construção do indivíduo, mas, em última instância, nós é que somos responsáveis por quem somos. Se assim não fosse, não haveria livre-arbítrio... Desta forma, abandonei a "complacência". O não-tolerar se tornou um exercício diário. Não-tolerar coisas pequenas ou grandes, não importa. Daí nasceu Misantropia Reativa.
Não adianta lamentar o mundo da poltrona da minha sala de estar.
Misantropia Reativa é um grito guardado no fundo da minha garganta, é desespero e revolta, mas também esperança, pois é uma semente.
Reagir, esse é o momento.
Misantropia reativa.
Re-ativa.

"Quando querem transformar

Dignidade em doença

Inteligência em traição

Estupidez em recompensa

Esperança em maldição:

É o bem contra o mal

E você de que lado está?"

Duas Tribos - Legião Urbana




quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Homo sapiensXSuper sapiens


Misantropo é aquele que despreza a companhia humana. Corrijo à minha maneira o têrmo. Misantropo é aquele que tolera apenas a presença Humana. Explico-me: nem todos os "homens" são Humanos...
Como chamar de Humano esse ser que se comporta, que tem necessidades, desejos, instintos, tudo o mais enfim, semelhante aos animais (e apenas isto)? Sim, por definição de classe, pertenço ao reino animal, sou eucarionte e mamífera. Mas não apenas isso.
O que difere o homem do animal é apenas sua capacidade de comunicação. O homem criou um sistema intrincado e muito mais eficiente de linguagem que os grunhidos animais que haviam até então. Dessa forma, ficou bem mais fácil passar o conhecimento adiante, não precisando se valer apenas da inteligência instintiva animal, mas sim do aprendizado, que de início era passado de boca em boca, para depois ser impresso em rochas, papiros, papéis, etc, etc, etc.
Da linguagem, provêm o sucesso do homem, enquanto espécie e quanto ao seu posicionamento na cadeia alimentar...
Mas o que estaria de errado então?
Bem, todos nascemos homens... Tornar-se ou não Humano, é escolha de cada um , não é um processo natural e demanda esforço, pois o que difere o homem do Humano é a Consciência.