sábado, 8 de dezembro de 2007

Vingança

Ele passou a vida inteira sendo alvo de brincadeiras e humilhações quanto a sua opção de vida, a ponto de desenvolver complexo de perseguição, quiçá de inferioridade. Mas agora ele se vinga, tentando fazer todo mundo passar pela mesma situação que o fez vítima da maledicência pública - ainda que a ocorrência de tal situação na vida deste tenha sido procurada por gosto. Obrigando todo mundo a dar o cuzinho, ainda mata dois coelhos com uma cajadada só, pois além da vingança, ainda pode curtir um aumento de popularidade, já que pela análise dos comentários, estão batendo palma...

http://colunas.g1.com.br/redacao/2007/12/04/projeto-de-clodovil-torna-obrigatorio-exame-de-prostata-apos-os-40-anos/


E ainda pode gravar o nome da dedada pra sempre na História, como Projeto Clodovil.


domingo, 11 de novembro de 2007

Retorno à Cultura Arcaica

Entrevista concedida por Terence McKenna à Will Noffke, para a revista Mondo 2000, em 1984.


WN: Fale-nos da experiência que moldou sua vida e sua obra - a viagem à Amazônia.


TM: Na verdade, participei de várias viagens à Amazônia, a primeira em 1971, a mais recente em 1981. Em 1981, uma expedição etnobotânica conjunta, composta de membros das universidades de Harvard e Colúmbia Britânica, viajou até Iquitos, no extremo leste do Peru. O meu irmão, que trabalha como etnoquímico na Universidade da Colúmbia Britânica, também fazia parte desta expedição. Estávamos estudando a ayahuasca, bebida alucinógena empregada em uma área muito extensa das selvas litorâneas do Equador, da Colômbia e do Peru, e também um alucinógeno pouco conhecido, chamado oo-koo-hey ou kuri-coo, que é usado pelos índios uitotos, boros e muinanes, tanto um quanto o outro tendo como base o DMT ou o DMT combinado com algum outro produto químico que propicia a experiência alucinógena. Trata-se provavelmente dos alucinógenos menos pesquisados de todos, embora o ayahuasca constitua importante religião popular em uma área bastante extensa. É utilizado em curas xamanistas e é bem conhecido pelas classes pobres das planícies litorâneas do Peru e da população de mestiços. Quanto ao kuri-coo, é substância bem menos conhecida. Estávamos estudando-o porque as teorias farmacológicas ortodoxas dizem que ele não deve ser oralmente ativo, mas é. Portanto havia um problema científico a resolver.


WN: Algo como descobrir uma nova realidade para a ciência?


TM: Bom, é preciso que haja um problema científico pra justificar essas expedições. No fim o que se estuda é a fenomenologia da droga, a droga tal como ela é experimentada - o que é bem diferente das questões farmacológicas que hoje estão sendo examinadas em laboratório. Mas a experiência de tomar essas drogas na Amazônia, subindo pequenos tributários do rio principal, entre pessoas pré-letradas, que definitivamente não pertenciam à classe média, e no ambiente da selva equatorial do continente, foi muito interessante, muito instrutiva.


WN: Como você reagiu à ela? Suponho que, pouco antes de fazer essa viagem, já havia experimentado outros alucinógenos e, de fato, estava querendo conhecer o efeito, a reação psicofísica em seu próprio organismo. No entanto, parece que encontrou algo totalmente inesperado.


TM: Exato. Desde meados da década de 60, estávamos interessados na dimetiltriptamina, ou DMT, tanto em virtude da experiência que ela proporciona como da rapidez de sua ação. Quando se fuma essa droga, o efeito se faz sentir em cerca de quinze a trinta segundos. O conteúdo da experiência parecia ir além da noção ortodoxa do que deve ser a experiência psicodélica. Em outras palavras, a experiência psicodélica tem sido discutida em termos de expansão da consciência, ou da exploração do conteúdo do inconsciente pessoal ou coletivo, ou ainda de grande empatia com obras de arte, etc. O que verificamos com o uso das triptaminas é que parece haver uma dimensão imprevista, envolvendo contato com uma inteligência alienígena. Uso essa expressão por não dispor de outra melhor. Enteléquias organizadas apresentavam-se na experiência psicodélica com informações que pareciam não provir da história pessoal do indivíduo e nem mesmo da experiência humana coletiva. Mais tarde, viemos a perceber que esse efeito era peculiar aos alucinógenos à base de triptamina. Em outras palavras, não só ao DMT, ao ayahuasca e às substâncias mais exóticas da Amazônia, mas também à psilocibina, que é provavelmente a mais empregada destas drogas. Para mim, era espantoso que uma voz pudesse se dirigir a uma pessoa naquele estado, e transmitir informações durante um diálogo. Gordon Wasson, que descobriu o cogumelo portador de psilocibina e o apresentou à ciência ocidental, também escreveu sobre esse fenômeno. O mesmo fez Platão, ao discutir a importância do Logos para a religião helênica.

Essa experiência, de uma voz interior que nos guia, dotada de um nível superior de conhecimento, não é estranha à história do Ocidente, mas a aventura intelectual dos últimos mil anos fez com que tal idéia parecesse absurda, senão psicopatológica. Assim, na qualidade de farmacólogos modernos dedicados ao estudo de alucinógenos, o meu irmão e eu nos deparamos com esse fenômeno. Nos anos seguintes, tratamos de estudá-lo e dirigir para ele a atenção de outras pessoas; diria que até hoje há um consenso de que a experiência é real. Não existe, porém, um consenso a respeito do que ela é exatamente. Estaremos lidando com um aspecto - uma entidade psíquica autônoma, como diriam os adeptos de Jung -, um assunto que escapa ao controle do ego? Ou com algo semelhante a uma Supermente da espécie - um tipo de enteléquia coletiva? Ou, de fato, estaremos lidando com uma inteligência alienígena e com tudo que isso implica? São perguntas difíceis de responder. Até mesmo abordar o assunto é difícil, pois o fenômeno só se manifesta quando se tomam doses heróicas.


WN: Existem paralelos bastante óbvios. Um dos que me ocorrem é Santa Joana d'Arc ouvindo vozes e recebendo orientação. Acontece que ela era uma moça do campo, e talvez tivesse uma horta onde cultivasse cogumelos. A História está cheia de vozes que são ouvidas no contexto da experiência religiosa, vozes que são sempre atribuídas à um "deus", qualquer que seja a imagem que esse conceito evoque na pessoa que as escuta. Essa experiência não resulta - pelo menos não necessariamente - da ingestão de drogas. Pode ocorrer através de alguma outra alteração da consciência humana.

TM: Certo. Sempre ocorre através de uma alteração da química do corpo e do cérebro. Mas essa alteração pode ser induzida por plantas ou por situações de estresse; ou uma pessoa ou linha hereditária pode ser simplesmente predisposta a esse tipo de coisa. Você tem toda razão: a religião, como concebida em termos pré-modernos, é essencialmente a resposta humana ao problema do estímulo interno, embora muita gente afirme que se trata de um fenômeno que molda a cultura, ou mesmo dirige a cultura.

Infelizmente, nos últimos 500 anos a religião passou a ser uma pirâmide hierárquica em cujo topo os dogmas são interpretados por teólogos. As interpretações são transmitidas aos fiéis através de uma hierarquia. Acho que a noção de revelação direta perturba muito as hierarquias religiosas. Não obstante, a revelação direta é certamente bastante comum nas culturas pré-letradas de todo o mundo. Em tais casos, verificamos que os xamãs eram os únicos com os quais podíamos falar sobre o assunto ou que pareciam familiarizados com o fenômeno.

E o que eles nos dizem é: "Claro. Naturalmente. É assim que se obtêm informações: de espíritos que habitam aquela dimensão, espíritos que nos ajudam e espíritos que nos atrapalham." A idéia de inteligências alienígenas autônomas na dimensão mental é, para eles, lugar comum. E creio que provavelmente é mesmo. Acho que a cultura ocidental fez um longo desvio idiossincrático para afastar-se do espírito, e só agora estamos começando a perceber que talvez nos falte alguma coisa. Na verdade, não representamos o máximo de conhecimento da natureza da realidade. Possuímos mapas muito interessantes, digamos, do interior do átomo ou de regiões longínquas do Universo; mas, nas áreas que nos são mais próximas - nossa própria mente, a maneira como vemos a nós mesmos e aos nossos semelhantes -, acredito que essas culturas primitivas, por serem fenomenológicas, isentas do estorvo da técnica e de teorias abstratas de tudo o que acontece, aproximam-se mais da realidade. Em outras palavras, os xamãs são psiquiatras populares, psicanalistas populares, muito mais avançados que nós.

Os antropólogos já observaram a ausência de distúrbios mentais graves em muitas culturas pré-letradas. Acredito que a mediação do xamã e, através dele, o contato com o Logos centralizante, fonte de informação ou gnose, é provavelmente a causa dessa capacidade de curar ou minimizar distúrbios psicológicos.

WN: Você mencionou algo em relação à cultura organizada. Acho que o cristianismo ocidental foi muito bem sucedido, na tarefa de garantir seu território, infundindo medo, dúvida e desconfiança em relação a tudo que provém de forças internas. Estabeleceu um critério que diz: "se não está nas escrituras, deve ser ignorado ou podemos suspeitar de que provém de alguma força malsã." Há aí uma clara negativa da validade da experiência pessoal. Acho que, para muitas pessoas, a experiência psicodélica é altamente suspeita, perigosa e incontrolável. como você acha que as pessoas a encaram?


TM: É incontrolável na medida em que não é compreendida. Essas culturas pré-letradas possuem uma tradição ininterrupta de conhecimentos e etnomedicina xamanistas, tão ou mais antigos que os tempos paleolíticos. Quanto a nós, não dispomos de nada parecido. Assim, em nossa cultura, a quem recorrem as pessoas que tem problemas com essas plantas? No Peru, vimos pessoas que eram inteiramente despreparadas em relação ao ayahuasca. Pessoas vindas de Lima para fazer a experiência chegaram ao ponto em que estavam definitivamente tendo uma bad trip. Mas o xamã pode vir à elas, soprar-lhes fumaça de tabaco e cantar - coisas que podem nos parecer simbólicas mas que, ainda assim, funcionam com a mesma eficácia de uma injeção de Demerol. Portanto, o simbolismo de uma pessoa é a tecnologia de outra. Devemos ter isso em mente ao lidarmos com essas culturas. A aparência que as coisas têm para nós não é a mesma que têm para os que estão intimamente envolvidos com elas. A não ser que você se desfaça de sua linguagem e mergulhe inteiramente nessas culturas, o seu ponto de vista será sempre o ponto de vista de um estranho, de um forasteiro.


WN: Mesmo naquele setor da sociedade que poderia ser classificado de Nova Era, por falta de um termo melhor, onde há um afastamento em relação à educação dogmática e um movimento no sentido da experimentação direta, a experiência psicodélica é vista com suspeita. Coisas como a kundalini, a hipnose, os mantras, as atividades psíquicas - manipulações psicofísicas da consciência - são consideradas seguras e aceitáveis como áreas de investigação. Mas há esse incrível preconceito contra o uso de meios químicos, até mesmo dos meios orgânicos a que você se refere.


TM: Parece haver um preconceito muito forte contra tudo o que é gratuito. As pessoas repelem a idéia de que seja possível adquirir clarividência espiritual sem sofrimento, sem auto-análise, sem flagelação, pois acreditam que a visão destas dimensões superiores deveria ser concedida somente aos bons, e provavelmente somente a eles depois que morrem. Acham alarmante pensar que se possa ingerir uma substância como a psilocibina ou o DMT e ter esse tipo de experiência. No entanto, trata-se de uma realidade que agora começamos a aceitar. Não creio que essas coisas sejam um substituto da prática espiritual. Por outro lado, não acho que a prática espiritual possa jamais substituir essas experiências. Percorri a Índia, a Indonésia e muitos outros lugares, e encontrei as tradições que você menciona, inclusive o tantra da kundalini, a dança em transe de Bali, controlada por sacerdotes e fundamentada em tradições cuja mentalidade você precisa aceitar para ter a experiência. São coisas extremamente impalpáveis. Já a experiência provocada pelas drogas é muito real. É irresistível. Certamente nada há de impalpável nas triptaminas. A triptamina é o grande fator convincente. É preciso incorporar essas coisas à nossa cultura, e sem sentimento de culpa, com a certeza de que apontam um caminho que leva a algum lugar. Creio que foi Aldous Huxley que as chamou de "graças gratuitas", explicando que elas não são necessárias nem suficientes para a salvação, mas ainda assim constituem um milagre.


WN: Você atribui grande importância aos fatores de estado de espírito e ambiente como parte da experiência, ao dizer que as drogas não devem ser usadas levianamente nem como recreação, e sim encaradas com respeito. E que é preferível ter alguém por perto para servir de guia. Pretendo ter uma entrevista também com Timothy Leary. Não sei bem qual a atitude dele, se procura diversão e prazer a qualquer preço ou se é mesmo sério.


TM: Acho que ele é um homem que provavelmente teve ampla oportunidade de mudar de opinião. A euforia dos anos 60, a suposição dos intelectuais que rodeavam Huxley e Humphrey Osmond - de que bastava apresentar essas coisas às pessoas para que a humanidade se transformasse - era terrivelmente ingênua. No entanto, as pessoas jamais tinham se deparado com uma encruzilhada cultural como essa. Ouço dizer que talvez venha a ocorrer um retorno da experiência psicodélica como fenômeno social. se ocorrer, espero que os que viveram os anos 60 tenham processado a experiência e aprendido suas lições. Não acho que essas coisas devam ser feitas em grupos muito grandes.

A maneira mais útil de se abordar a experiência psicodélica é em um ambiente de virtual - embora não formal - privação dos sentidos. Você deve deitar-se em completa escuridão e silêncio, e fixar o olhar na superfície interna de suas pálpebras. É espantoso como esse conselho parece exótico a certas pessoas. Trata-se apenas de bom senso. Afinal, você está procurando observar um fenômeno mental. Para ver o fenômeno mental sem a contaminação de fontes externas de informação, você deve colocar-se em uma situação na qual ele possa manifestar-se em sua totalidade. Se ingerir as doses eficazes dessas substâncias, posso garantir que a experiência não será monótona. Talvez um número muito grande de pessoas já tenha feito meditação e imagine que a experiência psicodélica seja como a meditação. Mas é a antítese exata da meditação. Trata-se, de fato, de sair do corpo e viajar no espaço mental - que é uma área pelo menos tão grande quanto o espaço sideral. A diferença entre os dois pode ser apenas convenção cultural. Você viaja em um extenso campo de informação que parece medir anos-luz de comprimento. Isso só se torna possível quando os insumos externos são reduzidos ao mínimo. nessas condições, você vê o que Blake viu, o que Meister Eckhart viu, o que São João da Cruz viu. Talvez não aprenda com essas coisas tanto quanto eles aprenderam, mas, por outro lado, ninguém pode medir o oceano, nem Meister Eckhart nem ninguém. Não é fácil medir o oceano, mas podemos ser medidos por ele, confrontá-lo e estar dentro dele.

Acho que essas substâncias exerceram, exercem e continuarão a exercer grande impacto na história humana. Talvez elas sejam, de fato, a causa da história humana. Estamos tão habituados com a doutrina da evolução - a idéia de que descendemos dos macacos - que tendemos a esquecer o fato de que o Homem é, realmente, uma criatura estranha, muito estranha. Considerando que, em um milhões de anos, fomos desde a pedra lascada até o ônibus espacial e colocação de instrumentos fora do sistema solar, parece absurdo afirmar que as forças e fatos da natureza, tal como os conhecemos, nos permitiriam chegar a este ponto. Prefiro optar por uma noção muito pré-moderna: estamos mancomunados com o demiurgo. Somos filhos de uma força que mal podemos imaginar, uma força que nos chega das árvores e através das planícies da História, e que nos chama para ela. Esse processo está levando dez, vinte, cem mil anos - não mais que um instante. Os indivíduos vêm e vão, mas a natureza atua do ponto de vista da espécie, e, nessa escala, mal se passou um instante desde que só existiam neste planeta a pedra lascada e a farmacologia. A farmacologia precedeu a agricultura, uma vez que as propriedades das plantas vieram a ser conhecidas muito antes de seu cultivo. As visões transmitidas pela psilocibina - visões de enormes máquinas em órbita, de planetas distantes, de criaturas estranhas e vastas paisagens biomecânicas - mal podem ser processadas. A pessoa não sabe se está caminhando no interior de um enorme instrumento ou organismo. Mal podemos assimilar tais coisas. No entanto, essas visões constituem a imagem que nos guia no momento, a imagem que está sendo projetada no tempo histórico - da mesma forma como projetou o cálculo diferencial há cerca de duzentos anos, como projetou os grandes progressos da história humana. A história dos avanços científicos ou técnicos tem o caráter de revelação. Os homens aos quais esses avanços ocorrem costumam dizer: "Foi uma coisa que me veio, que me foi dada de repente." Leibniz inventou o cálculo diferencial quando estava estendido na cama, certa manhã. Newton fazia o mesmo a algumas centenas de quilômetros de distância, e os dois nem se conheciam. ao longo dos milênios, tem havido um diálogo entre o eu individual e o Desconhecido, entre o eu coletivo e o Desconhecido. Demos a isso o nome de Deus. Os sacerdotes passaram a controlar esse diálogo e sobrecarregaram-no com todo tipo de "faça isso" e "não faça aquilo", coisas sem qualquer relação com a verdadeira experiência religiosa. Esta tem a ver com o diálogo com o Logos e aonde ele pode nos levar e o que pode nos mostrar. Hoje, portanto, quando nós, como espécie, estamos a ponto de abandonar ou destruir o planeta, o Logos ressurge com grande intensidade. Não sairemos deste planeta sem que a nossa mente seja transformada. O que está acontecendo é uma transformação global da humanidade em um tipo de criatura completamente diferente. Estamos saindo do invólucro do macaco. E essa coisa feita de linguagem, de imagem e de imaginação, que residiu nos macacos durante tanto tempo, está agora superando a evolução biológica e, através da cultura, assumindo as rédeas de sua própria forma e destino. O caos da nossa era, que tanto perturba a todos nós, não é absolutamente incomum. É o que normalmente acontece quando uma espécie se prepara para deixar o planeta. É o caos do fim da História.

Não resta a menor dúvida. Há sinais disso por toda parte. E os sinais que nem todos percebem, que somente os aficcionados das substâncias psicodélicas conhecem, são as transformações da consciência, simultaneamente com a transformação da cultura técnica. Essas duas transformações são, de fato, expressões uma da outra. Os tempos atuais são as dores do parto de uma nova humanidade.


Extraído de "O Retorno à Cultura Arcaica", de Terence McKenna, 1991.

domingo, 4 de novembro de 2007

Holanda? Brasil!


Tenho três conhecidos visitando a Holanda neste momento, e, conseqüentemente, gastando dinheiro lá. Eles não foram até lá para ir aos museus, nem para visitar os canais, andar de bicicleta, ver a casa de Anne Frank ou muito menos conferir o badalado centro de prostituição holandês. Foram para lá pelos Coffe Shops.


Assim como eles, um monte de turistas de outras nacionalidades se encaminha rumo à este país com a mesma finalidade turística: fumar um skank da melhor qualidade em paz, comprar cogumelos cultivados (existem até bombons deles), adquirir sementes e outros produtos para cultivo caseiro, que viajam escondidos na bagagem ou que chegam em seus países de origem via correio, e são recebidos por amigos ou por eles mesmos.


Convenhamos: a Holanda é um país pobre turisticamente. Não dá para comparar Fernando de Noronha com um rolé de bike nas ruas de Amsterdã. Não dá para comparar a Chapada Diamantina com um museu. Não dá para comparar a Amazônia com um centro de prostituição. Não dá para comparar o Pantanal com uma visita mórbida à casa de Anne Frank. Isso é até motivo de riso.


O turismo holandês, que movimenta milhões, é impulsionado pelos Coffe Shops.


Então, se pensarmos nisso e imaginarmos a possibilidade da legalização em nosso país, logo se abre um enorme leque de possibilidades com base no turismo psicodélico. De lucro e de criação de novos empregos para nós brasileiros, empregos esses que seriam gerados em diversos setores, não só o turístico. Empregos na produção da matéria prima, no comércio, e, através do aproveitamento de subprodutos da Cannabis, na área têxtil e até mesmo na produção de papel, com o uso de sua fibra, o que ainda diminuiria o impacto ambiental que é gerado para a obtenção deste produto através de outras fibras vegetais.


Quantos gringos não estariam dispostos, ao invés de passar suas férias gastando dinheiro na entediante Holanda, a vir para o Brasil, aproveitar a exuberância de nossas belezas naturais, enquanto curtem um bom fumo?


Porém, essa palhaçada atômica que impera no nosso país nos impede de receber as benesses que poderíamos angariar caso a Cannabis, os cogumelos, etc., fossem liberados. Digo palhaçada pois é uma hipocrisia sem tamanho: Por mais careta que você, caro leitor, seja, com certeza conhece uma penca de usuários, e pelo menos boa parte deles não é nenhum diabo feito carne, como é colocado no filminho institucional-com-maquiagem-de-rebelde mais badalado de todos os tempos, o "Tropa de Elite". Ali, fica parecendo que o usuário de Cannabis é o responsável por tudo de ruim que acontece aqui na Babilônia-021. Ora, todo mundo sabe que é o pó que movimenta o tráfico. O lucro obtido com a venda de Cannabis não chega nem perto daquele obtido com a cocaína... Se dependesse do lucro proveniente da maconha, os traficantes ainda estariam usando três-oitão velho, e não armas de guerra.


Creio que o governo Lula já tem a legalização em mente. Nosso ministro da cultura é usuário confesso, e a nova lei que descriminalizou o usuário são prova disso. Porém, nossa sociedade católico-cristã, que preza pela moral e bons costumes, não dará a reeleição à um presidente que libere o uso de "drogas"... Entretanto, a exemplo do que ocorreu durante a Lei Seca que vigorou nos EUA durante a década de 20 do século passado, é a proibição que cria os gangsters, porque, verdade seja dita: podem proibir o que for, que sempre haverá mercado para o que for proibido, e onde há mercado, há quem esteja disposto a lucrar com isso...



"Em vez de surtir os efeitos previstos, acabou (a Lei Seca) por tornar-se um desastre. Com a fabricação clandestina, sem nenhuma fiscalização, a qualidade da bebida caiu e, em vários casos acabou por prejudicar as pessoas que ingeriam misturas tóxicas como óleo de cozinha com água de colônia, de fluido de isqueiro a sucos e xaropes rusticamente fermentados. Com a ilegalidade aumentou a proliferação de gangsters e a corrupção policial." Texto extraído de Wikipédia, enciclopédia livre da Internet.


Então, quando o "herói" Nascimento, durante uma cena em que o BOPE entra na favela e mata alguns traficantes e após isso, no decorrer de uma sessão de tortura do "vapor", pergunta à ele quem foi que matou aquelas pessoas, todo aquele que é contra a legalização deveria dizer em voz alta: FUI EU!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Virtude e o Vício


Qual seria o grande defeito do Homem? Essa questão me atormenta há muito. O que difere o Homem dos outros animais, o que o torna uma máquina tão destrutiva? Um dia acreditei que o problema estava no sistema, porém é o próprio Homem seu criador... E até o momento presente, nenhum dos sistemas aplicados às sociedades o impediu de entrar em conflito, seja ele uma guerra de grandes proporções, ou aqueles pequenos, vividos em menor escala, dentro de nossas casas, entre família e amigos.


Sabemos que os animais também brigam entre si, mas sendo o Homem muito mais que um simples animal, seria de esperar que a tomada de consciência, o desenvolvimento superior da faculdade de reflexão e da inteligência, fossem capazes de minimizar os conflitos. Mas não foi isso que ocorreu. Destruímos não só a nós mesmos com voracidade, mas também o meio ambiente que nos cerca.

Somos 6 bilhões de bombas de destruição em massa ambulantes.

O Homem é um animal muito delicado. A mãe precisa amamentar o filhote até os nove meses, sendo que ele é totalmente incapaz até, no mínimo, sete anos de idade. Não temos pêlos, nem unhas, nem caninos proeminentes, nem cascos. Não temos chifre, nem couro, nem rabo. Então, justamente por ter tomado consciência de sua fragilidade, é justo dizer que o Homem é um animal que sente mais medo que os outros? E boa parte das nossas reações de raiva são detonadas, em verdade, pelo medo.

Criamos uma selva de pedra inspirados em nossa visão do paraíso. E nos agregamos como uma medida primitiva de segurança. Era mais seguro andar em bando numa selva pré-histórica. Assim nos protegíamos dos animais selvagens.

Mas qual a ironia disso tudo! Agora a Natureza foi dominada por nós, não tememos mais as feras selvagens, os monstros, os Deuses, as chuvas ou o fogo. Tememos uns aos outros.

Nunca deveríamos ter deixado de ser nômades.

Talvez o medo incutido em nossas mentes, enraizado em nosso DNA, expresso em neurotransmissores ainda existentes em nossos cérebros, que detonam mecanismos de luta e fuga já desnecessários para quem vive em segurança seja o responsável por essa repulsa que o Homem sente por seu semelhante. O medo ainda existe dentro de nós, ainda que os motivos que o geram tenham deixado de existir.

Como somos animais pretensamente racionais, e este medo é de fundo irracional, criamos razões para ter raiva das pessoas. Precisamos dar vazão à nossa parcela animal de forma que não pareça sem razão. Sentimos o medo, ele detona a raiva ou a fuga, e esse sentimento vem ANTES do motivo "real"; partindo da premissa de que obedecemos à um modelo em que essa sensação de raiva possa fluir sem culpas.

O ambiente não é mais o inimigo. Os outros é que são.

E de fato, hoje realmente temos motivos para temer. Hoje a minha vida não vale nada para aqueles que não me conhecem. Somos tantos! Um a menos não faz a menor diferença.

Porém, toda essa explicação sobre medo e etc, também deixou de ser, à meu ver, completa. Embora eu acredite que isso também faça parte do 'bolo doido', não explica muita coisa...


Todas as espécies possuem mecanismos instintivos que aos olhos dos românticos podem parecer altruísmo. O fato é que o sucesso de uma espécie depende de atitudes 'altruístas' de seus membros, isso é estratégico. Por exemplo, o pássaro que dá o sinal aos outros de que há um predador por perto, não está sendo "bonzinho". Ele está garantindo o sucesso da espécie e se protegendo ao mesmo tempo, pois as chances dele ser abatido quando em bando são menores que quando voando só.

A ciência comprova que atitudes altruístas geram prazer nos indivíduos que a praticam. O altruísmo nada mais seria então que um egoísmo às avessas, pois o que conta no fim é a satisfação do indivíduo, nada tendo a ver com bondade ou desprendimento. Entretanto, assim como evolutivamente tendemos a evitar uma gama de sabores, pois esta nos remete à lembrança do sabor de venenos gravada na memória da espécie pelo erro milenar cometido e repetido pelos nossos antepassados pré-históricos ao provarem tais substâncias tóxicas por engano, tendemos a procurar pelo prazer pois a "inteligência das espécies" entende que precisa dar ao indivíduo uma recompensa pelo 'caminho certo' que está sendo seguido. Todas as atividades inerentes à manutenção da espécie dão prazer. O que ameaça a espécie é interpretado instintivamente com repulsa pelos indivíduos que fazem parte da mesma.

Então, penso que o altruísmo, por ser refletido em prazer, é um mecanismo NECESSÁRIO, e portanto é tão bem visto na sociedade.

Porém, como o Homem é uma criatura que se percebe como um Universo à parte, como tem sua individualidade muito marcada por essa ilusão de separação com o Todo, apartada do meio ambiente e da própria comunidade, em algum momento de sua existência ele julgou ser a sua satisfação pessoal mais importante que o bem coletivo. Isso é até normal, nem sempre nossas necessidades vão de encontro ao senso de bem-comum. Entretanto, quando isso se tornou um vício, é que nasceu a ilusão de satisfação criada pelo egoísmo. Os Homens simplesmente esqueceram que ser altruístas também dá prazer, com menor esforço inclusive, pois ninguém se recusa a receber prazer, e se o altruísta se compraz com o prazer alheio, isso é portanto sinônimo de sucesso na busca por satisfação, porque os feitos do altruísta são sempre bem recebidos.


O egoísmo é o caminho da guerra. A felicidade do egoísta é bem difícil de ser alcançada, visto que ele se preocupa apenas consigo, desconsiderando o fato de que as vezes, para obter satisfação, vai causar perdas para alguém. Ora, é óbvio que este tipo de indivíduo encontrará no seu caminho muitos sabotadores para seus planos, coisa que jamais ocorre ao altruísta.

Devemos ter metas individuais apartadas das coletivas, porém a realização de nossas metas individuais jamais deve desrespeitar outro indivíduo. Aquele que quer tudo para si, acaba por se tornar um solitário, porque ninguém consegue conviver com alguém que simplesmente julga serem as suas necessidades mais urgentes que a consideração pelo bem-estar do outro. E um Homem solitário nem sequer é Homem, pois precisamos do outro para nos conhecermos, já que o autoconhecimento, a consciência de si, de quem somos, como somos, é toda feita a partir de bases comparativas. O solitário enlouquece, por perder gradativamente seus parâmetros de mundo, à medida que se distancia do outro.

A chave que nos leva de volta ao caminho do altruísmo, perdido numa sociedade onde a satisfação instantânea e a competição são estimuladas, é se colocar no lugar do outro, em todas as nossas atitudes e decisões que não estejam ligadas apenas ao nosso destino, mas que também envolvam outros indivíduos.

Não conheço nenhum egoísta feliz. Se todos os egoístas resolverem levar à cabo seus impulsos, a Terra se transformará numa batalha de Highlanders, onde só poderá haver um no final, o dono de tudo, o dono do mundo. Isso pode ter graça durante um tempo, tempo muito curto, porque se não há ninguém para partilhar a bonança, ela rapidamente se transforma em miséria.

"Disciplina é Liberdade
Compaixão é Fortaleza
Ter Bondade é ter Coragem".

sábado, 25 de agosto de 2007

Perfeição

Ah... Uma de nossas grandes perdas... Alguém que se perdeu no meio do turbilhão da vida, Renato Russo, que tantas vezes cantou o grito preso na minha garganta... A impressão que tenho as vezes é que ele leu meus pensamentos...

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escolas
Crianças mortas
Celebrar nossa desunião

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer da nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção

Venha, meu coração esta com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a Verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça:
Venha que o que vem é Perfeição...

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Tome Partido

Esse não é meu. Pertence à Felipe Malta e consta, entre outras pérolas, do blog dele, o Em 76 , o qual vale a pena dar uma boa olhada.

Tome Partido

O mundo é injusto
Nosso país é injusto
A cidade nossa também
Seu bairro provavelmente
Sua residência talvez
Mudanças podem,
E devem ser começadas
Pequenas,
Mas primeiras.
Mudanças,
Que ninguém pode fazer por ti,
Pois são internas,
São em nossa postura
No modo de encarar a vida
Primeiro descubra,
O que de fato
Importante é para ti
Depois para tua residência,
Em seguida teu bairro,
Tua cidade,
Teu país,
Teu planeta.
Tome partido!
Neutralidade ajuda o opressor,
Nunca a vítima
Silêncio encoraja o torturador,
Nunca o torturado
Não reclame,
Se organize
E Aja!
A força para mudanças
Está bem ai
Dentro de ti.

Liberdade? Até onde?

Estive lendo por estes dias um livro muito bom do Huxley, chamado "A Situação Humana". Vivo querendo achar uma saída, um meio de fazer com que o mundo se torne um lugar agradável de viver, onde os seres humanos se relacionem em paz entre si e com o meio ambiente. O querido e saudoso Aldous tem me sido de grande valia nas minhas divagações utópicas sobre essa questão.
Bem, primeiramente, acredito que para que a mudança ocorra, tem de haver uma grande quebra de conceitos e do sistema. Conceitos fortemente arraigados, aqueles que temos em nosso interior, fundidos à nossa personalidade de forma tão intensa que nem os percebemos, são bem difíceis de serem quebrados. Creio que há duas formas de fazê-lo:

- Contando com fatores externos tais como guerras e cataclismas;
- Com drogas.

Guerras, peste e desastres naturais são capazes de levar os seres humanos à situações de crise. A crise geralmente age como uma 'picareta mental'. Nestes momentos (de crise) é que paramos para refletir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre o mundo em que vivemos, as pessoas que nos rodeiam, nossos interesses e a validade deles. Geralmente os seres humanos só param para refletir nestes momentos. Quando tudo está bem, não há porque levantar certos questionamentos.

Já pelo caminho das drogas, o que ocorre é que através do mecanismo de perda do ego, passamos por momentos de ausência total de conceitos pré-estabelecidos. Zeramos o contador, é como se estivéssemos enxergando o mundo pela primeira vez novamente, como bebês.
Gostaria de deixar claro que quando digo 'drogas', não estou me referindo à todas as classes das mesmas, mas sim às alucinógenas, ou, segundo o neologismo mais apropriado: enteógenos. Drogas como cocaína e álcool só fazem reforçar o ego, e deixam o indivíduo cada vez mais cego.

Uma coisa que me intriga bastante é o fato dos alucinógenos constarem na portaria 344. Escrevi sobre isso na conclusão da minha monografia:

"...Pioneiramente, o consumo desta substância foi proibido pelos Estados Unidos, e a psilocibina consta na lista de substâncias controladas deste país, fazendo parte da Convenção de Substâncias Psicotrópicas, mais especificamente de sua “Lista I” (a mais restritiva das listas) ou “Schedule I”, como é denominada nos EUA, sob a justificativa de se tratar de uma droga de abuso em potencial. A exemplo dos americanos, a psilocibina também consta da legislação brasileira sob as mesmas condições, listada na Portaria 344 de 12 de maio de 1998, fazendo parte da “Lista F2 – Substâncias Psicotrópicas”. Segundo a Portaria 344 a definição de psicotrópico seria: “Substância que pode provocar dependência física ou psíquica e relacionada” (DOU–19/05/1998). Entretanto, segundo a legislação nacional, apenas o porte desta substância isolada é proscrito, pois nenhum dos cogumelos pertencentes aos gêneros que contêm psilocibina, são mencionados na lista de plantas entorpecentes ou psicotrópicas, constante na mesma portaria.

Todavia, uma característica intrínseca não só à psilocibina, como a todos os alucinógenos, é o fato de não produzirem dependência ou compulsão. Muito embora o uso da psilocibina gere tolerância rapidamente, esta tolerância não possui o perfil de reforço, pois independente da quantidade administrada, após a diminuição da expressão de receptores frente à excessiva exposição à esta substância, esta não é mais capaz de produzir seus efeitos até que a expressão dos receptores seja restabelecida (NICHOLS, 2004). Este dado, aliado ao fato de que o consumo de psilocibina não gera dependência, em conjunto formam evidências que provam que esta substância não se enquadra no perfil de “droga de abuso”. Embora muitos usuários utilizem os cogumelos que contêm esta substância como droga recreativa, este fenômeno não é motivação para sua proibição, pois alguns indivíduos utilizam o álcool para o mesmo fim, e o uso deste último não é proscrito. Contudo, o controle sobre o uso desta substância é praticamente impossível de ser feito, pois os fungos que a detém podem ser livremente encontrados na Natureza, então, esta proibição só traz prejuízos à área de estudos e pesquisas clínicas oficiais..."

Gostaria de enfatizar mais uma vez este ponto: Os alucinógenos (cogumelos, LSD, DMT, LSA) não são capazes de gerar dependência. Qualquer artigo científico de internet confirma isso, nem é necessário procurar muito. Então, fico me perguntando, qual seria a motivação por trás desta proibição? Com certeza não é preocupação com a saúde dos usuários. Se assim fosse, teriam que proibir o açúcar, as comidas gordurosas, o cigarro e o álcool. Fora isso, ainda que haja a preocupação genuína com a saúde de alguém, como fica a questão da liberdade pessoal de cada um? Ora, a única coisa que realmente possuo nesta vida... É minha própria vida! Com
o alguém pode achar tem o poder de decidir o que faço ou não com o meu corpo e com a minha mente? Isso é democracia? Somos livres?

Vou deixar aqui uma hipótese para tal proibição. Pode ser que a verdade não seja esta, porém, enquanto ninguém vem à público para se explicar usando de uma lógica que não ofenda minha inteligência, é nela que acredito: Se todos começarem a usar alucinógenos, o sistema vai ruir. Não porque os usuários destas substâncias se transformem em vagabundos absolutos, mas
porque passam a ter outras prioridades que não carro do ano, roupinha de marca, jóias, um salário astronômico ou qualquer outro tipo de ostentação material. A tendência de quem 'acorda' com os enteógenos, é parar de consumir besteiras, e são besteiras sem importância que o sistema tenta nos empurrar goela abaixo a todo instante, através da mídia que tenta nos fazer crer que só seremos felizes e aceitos se tivermos isto ou aquilo. Outro dia vi uma propaganda de liquidificador em que o anunciante prometia, através da aquisição do mesmo, uma 'mudança de vida'. Nossa... Vamos dar liquidificadores para todos os infelizes do mundo! Foi descoberta a cura da depressão!

Se o consumismo impulsiona o sistema, logicamente, quem lucra com isso (e com certeza quem lucra com isso não é o povo) não tem o menor interesse em quem não consome. Na verdade, morre de medo de quem não consome. Eles sabem que ignorantes são mais fáceis de manejar e manipular que quem já despertou pra inutilidade da maior parte das coisas que hoje faz parte dos sonhos de muita gente.

Outro aspecto relevante que diferencia os consumidores de enteógenos: Psiconautas se preocupam (e bastante) com o meio ambiente. Se preocupam com o lixo, com a emissão de gases, com os ecossistemas, com as florestas, com os mares. Porque, um dos poderes dos enteógenos é nos conectar com o ambiente em que vivemos. Nos faz perceber o quão pobres de vida e deprimentes são as cidades. Nos faz querer voltar aos ambientes naturais e ter uma vida auto sustentável, procurando economizar água e, de modo geral, todos os recursos naturais. Auto sustentabilidade significa diminuição de consumo. Se você obtém água através da chuva, planta legumes, verduras e frutas no quintal de casa e usa energia solar ou eólica para a manutenção de sua casa, você está deixando de dar lucro para alguém. E se ao invés de mil pessoas fazendo isso formos um milhão, tem gente que já começa a se incomodar com isso...

Ainda que você não seja usuário de enteógenos, nem tenha interesse em estados alterados de consciência, acredito que a questão da liberdade pessoal é interesse de todos. Você acha que é livre? Tem certeza? O momento é de questionar... Inclusive as supostas 'boas intenções' de quem faz o sistema rodar.


"If you are the big tree,
We are the small axe.
Sharpened to cut you down,
Ready to cut you down."

terça-feira, 6 de março de 2007

Baile Funk

Em época de boa safra, os insights chovem. Vindos de sei lá onde. Da Terra de Alice talvez.

Eu odeio funk. Odeio tudo que o funk representa, mais que o ritmo em si. O "movimento" é que considero idiota e, pior de tudo, idiotizante. Porém, não sou contra os bailes funk.
Qualquer um que ouça este tipo de música, desprovido de preconceitos, ou seja, apenas sentindo o efeito do ritmo sobre si, concorda que a batida primal instiga instintos igualmente primais, tais como agressividade e excitação sexual, intimamente ligados por serem fatores chave para o sucesso de qualquer espécie. Jung os considerava componentes de uma parte da psiquê chamada Sombra, onde reside todo nosso lixo moral, escondido do consciente, e também estes instintos mais básicos. Nesse raciocínio há toda uma lógica: Se satisfize
rmos certos instintos, estaremos vez por outra ferindo a moral que admitimos para nós.

Nos primórdios dos bailes funk do Rio, há cerca de 10 - 15 anos atrás, o que movia as pessoas à estas reuniões tribais era o desejo de liberar ali seus instintos agressivos. As letras das músicas falavam sobre brigas entre galeras, os 'irmão' e os 'alemão', armas e coisas do gênero.

Fui uma vez, quando tinha uns 17 anos, ao baile do Country Club da Praça. Este era considerado um dos mais perigosos, havia a certeza de presenciar uma 'porradaria'. Como sempre me senti estrangeira nessa terra (no próprio planeta), me interessei por experimentar a coisa in loco não pelo gosto pela violência, que a mim provoca reação semelhante à de Alex DeLarge depois do tratamento, mas pela curiosidade do 'gringo'. Frequentemente vejo turistas estrangeiros se encantando com coisas totalmente descabidas, e entendo que isso se dá justamente por eles não-pertencerem. Não pertencerem àquele ambiente, àquela cultura... Apenas experienciam, mas não tomam para si. Vivem mas não se envolvem.

Voltando ao assunto (e minhas digressões são deliciosamente irritantes para mim), neste baile se dava a seguinte cena: Os 'irmão' de um lado, os 'alemão' de outro. Bem no meio da quadra, algo semelhante à um corredor polonês. Homens se encarando. Tensão. O baile corre, o ritmo pesa, o álcool desce, mandíbulas trincam. Uma arena, um combate medieval. Os soldados esperam só um comando. De repente, um kamikaze se joga contra a parede humana inimiga, no melhor estilo jackass, desferindo golpes ale
atoriamente, e consequentemente é massacrado pelo lado oposto. É o sinal. Começa o show.
Nos arredores, tudo calmo. A confusão termina da mesma maneira que começou.

Após uma temporada, deu-se início um movimento de repressão à violência, movido pela sociedade, preocupada com a segurança de seus jovens... Bom, só esqueceram que eles estavam ali por vontade! Continuam animais, necessitam dar vazão à seus instintos. Arenas modernas, a sociedade precisa delas, são válvulas de escape pro impulso agressivo presente em maior ou menor grau nos indivíduos. Mas como os caga-regras ou são muito burros ou muito hipócritas (um misto dos dois?), a repressão à estes pobres primatas gladiadores, que afinal de contas estavam dispostos a bater somente em quem estava disposto a apanhar, ficou mais forte e fechou o cerco.


Os bailes começaram a ficar escassos, pois perderam a graça. Entretanto, há uns cinco anos, voltaram a se tornar populares. O ritmo é o mesmo, mas o tema...

Ritmo, batida, instinto, força, poder, raiva... não raiva não pode... instinto, instinto... o quê?...
Sexo!
A incitação à violência foi substituí
da por excitação sexual. As letras de outrora que eram tais como:
"
Vem um de AR15 e outro de 12 na mão
Vem mais um de pistola e outro com 2oitão
Um vai de URU na frente, escotando o camburão
Tem mais dois na retaguarda mas tão de "crock" na mão
Amigos que eu não esqueço, nem deixo pra depois
Lá vem dois irmãozinho, de 762
Dando tiro pro alto, só pra fazer teste
De ina-ingratek pistouse ou de ishert
É que eles são bandido ruim, e ninguém trabalha
De AK47 e na outra mão a metralha
Esse rap é maneiro, eu digo pra vocês
Quem é aqueles cara, de M16
A vizinhaça dessa massa, já diz que não agüenta
Nas entradas da favela,já tem ponto 50
E se tu toma um pá, será que você grita
Seja de ponto 50 ou então de ponto 30
Mas se for Alemão, eu não deixo pra amanhã
Acabo com o safado dou-lhe um tiro de pazã
Porque esses Alemão, são tudo safado
Vem carro chavelha dá 2 tiro e sai voado
E se não for de revolver, eu quebro na porrada
E finalizo o rap detonando de granada"


Foram substituídas por:
"No melô que tá na moda, com seu gato eu vou meter
Te boto de quatro, de lado, por trás, mete tudo eu vou gemer
O tempo já é moderno, e sexo tem que variar
Se eles quer que você mame, manda eles te chupar
Canguro Perneta, de quatro, de lado, linguinha na bu.....

As popozudas da 'De Deus' quando pega esquartela
Quando manda, dominado, demorou bota o restante
Quando manda uma caricia, ah se for uma delicia!
Sem neurose!
Goza na boca, goza na cara, goza onde quiser
Bota na boca, bota na cara, bota onde quiser

Então, discutir
Motel com hidromassagem
Tirar onda para elas é viver de sacanagem
O gatinho até gosta, mas tu sabe como é
Mas se ele paga o motel, ela faz o que eles quer
Então de quatro, de lado, na tcheca e na boquinha
Depois vem pra favela, toda fresquinha e assadinha

Abre as pernas, mete a língua
Já viu como é que faz
Tira a camisa, bota-tira, entra e sai

Uhh tá na moda, eu mandei mamar na horta
Eu mandei mamar na horta, você falou que não
Agora, sua safada, você vai mamar no chão"

Gostaria de dar minhas congratulações ao dono da estratégia. Um autêntico filho da puta!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007


Parem de colocar bonecos no mundo! Essa porra já está muito cheia, cambada de éguas parideiras! Daqui a dez, quinze anos, trabalharemos para pagar a água que consumirmos. É uma atitude definitivamente egoísta gerar uma criatura para viver num mundo como este.

Medo


As vezes penso no Homem como uma espécie intermediária. Certas características nossas eram importantes enquanto vivíamos nas selvas. O medo era importante, pois nos impelia à luta ou fuga contra predadores, por exemplo. Talvez o sucesso de nossa espécie se deva justamente ao excesso de medo. Ele nos fez nos organizarmos em grupo, pois assim era mais difícil sermos predados. Ele nos impeliu a criar ferramentas para nos defendermos. Ele nos impeliu a tentar controlar a Natureza de todas as formas possíveis, por necessidade de segurança, contra enchentes, ventos, frio. Ele nos levou à agricultura, para que pudéssemos ficar seguros quanto à obtenção de alimento. Ótimo. Mas, eis que eliminamos praticamente todos os problemas que nos levavam a ter medo. Apenas o medo da morte continua presente para alguns, pois ainda não a vencemos. Mas as feras, as intempéries climáticas, a fome e a maioria das pestes desapareceram. Porém, o medo continua dentro de nós. Temos medo das coisas mais idiotas, escuro, baratas, sociofobias, medo de espaços abertos, fechados, medo de altura, medo de trovoadas, medo de escada rolante, de elevador, de inveja... enfim... E o medo detona o mecanismo de luta e fuga, por liberar adrenalina, e somos impelidos quimicamente a fazer uma dessas duas coisas frente à essa reação. Alguns tem o impulso primevo de fugir. Porém, outros tem ganas de lutar. E essas descargas de adrenalina que sofremos quase todos os dias, vão se acumulando em forma de uma tensão raivosa que justamente por ser totalmente irracional, é inaceitável até para os indivíduos que as sentem. E sentimos medo o tempo todo, se pensamos em ficar pobres, se pensamos em alguma doença, se pensamos no oculto, se pensamos em perdas de entes queridos. O medo é uma emoção que conseguimos 'fabricar', mesmo que nunca se tenha passado pela experiência direta. Pensamos em algo que tememos e nossas mãos suam, os batimentos se aceleram... Reagimos fisicamente à uma fantasia! Quem dera fosse assim quando eu imaginasse orgasmos.

Mas o que fazemos então? Damos sentido pro subproduto do medo, a raiva. Fazendo guerra. Entramos em conflito, simplesmente pela necessidade de dar vazão à essa pulsão agressiva. Então, penso que, ainda não deu 'tempo' pra que a nossa inteligência evolutiva perceba que não precisa detonar certos mecanismos de sobrevivência a todo momento, pois não precisamos mais deles. Talvez um rebalanceamento na produção de alguns neurotransmissores, não uma mudança na estrutura em si, no hardware, mas no software (padrão cerebral) que opera a máquina (cérebro).

Perder essa tendência para o temor seria um passo na evolução do Homem, como espécie. O medo nos faz desperdiçar energias à toa, pois sabemos que a maior parte deles é irracional. E como o medo gera uma cascata de outras reações, acabamos por perder MUITO tempo com a irracionalidade, pois a sensação está lá, é real, ainda que o motivo não seja. Então, direcionamos esse fluxo de energia involuntária detonada pelo medo para qualquer criação mental que faça algum sentido, pelo menos naquele momento, para nós. Geralmente, após passar por uma situação de temor, sobrevém a raiva, faz parte do mecanismo, é natural (precisamos do reflexo da raiva para nos dar ânimo para a luta). O resultado é esse que vemos: estamos todos com raiva, o tempo todo. Qualquer coisa, qualquer pequeno evento detona o reflexo, porque também sentimos medo o tempo todo.

No fim, seguindo esse raciocínio, o motivo do nosso sucesso é o que vai nos levar à nossa queda final...

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Pioneiros do Underground Virtual

PIONEIROS DO UNDERGROUND VIRTUAL
Por Andrew Edmond

Desde os primeiros dias da internet, artistas, psiconautas, maconheiros, exploradores hiperespaciais, jardineiros etnobotânicos, químicos, místicos, ravers e ativistas têm estado trocando idéias e criando projetos que eles esperam que um dia mudem o mundo. Ao contrário do Mundo Real, onde aqueles que adotam a contracultura frequentemente têm de trabalhar duro para encontrar seu grupo, a internet é um lugar onde tribos podem ser formadas sem limites culturais ou geográficos. Aqueles que foram impelidos para o underground no mundo real estão agora descobrindo que a internet é uma incrível ferramenta para a expressão, para a troca de informação e conhecimento, e, mais importante, para encontrar e fazer amigos freaks de todo o mundo.

Uma das primeiras contraculturas virtuais formada na net foi uma lista de discussão chamada FutureCulture, criada por Andy Hawks ainda em 1992. FutureCulture atraiu cybercidadãos enamorados com a idéia de usar a telecomunicação global para lançar uma nova contracultura - uma que mixasse pessoas e idéias do mundo inteiro numa caótica sopa multicultural. Em 92 ainda, só havia cerca de três milhões de pessoas na internet, e o que Hawks consumou com FutureCulture foi um marco divisório. Ele criou uma "comunidade mundial" onde as pessoas de todo canto do mundo poderiam se encontrar diariamente no cyberespaço e fazer planos de mudar e sacudir o mundo como nunca antes. Antes da internet, comunidades criativas ficavam constrangidas pela localidade física. Na net, elas se auto-replicam como vírus - propagando e antecipando memes numa velocidade assombrosa.

Apesar da FutureCulture prosperar por quase dois anos com um diálogo rico e potente, Hawks eventualmente a deixou, e como resultado, muitas outras listas contraculturais começaram a crescer. Fringeware, levada por Paco Nathan, a lista de discussão Leri iniciada por Scotto More, MIndSpace, formada por Jack Burns e a Visionary Plants List moderada por mim, atraíram muitos dos mais novos e mais célebres visionários da contracultura. Como os governos do mundo ainda estavam bastante ingênuos quanto ao mundo virtual, surpreendentes eventos como "net-trips" (pessoas de todo o mundo conversando num chat sob a influência de psicodélicos) passavam totalmente despercebidos pelas autoridades constituídas.

Em 1993, estas primeiras e simples listas de discussão underground começaram a se espalhar pelos fóruns da internet. Boletins (BBS) virtuais se tornaram praças públicas onde as pessoas podiam enviar sua poesia e música favorita, fazer perguntas, compartilhar experiências pessoais, e discutir tópicos que em muitos países eram considerados ilegais. As listas de discussão iniciais como FutureCulture eram comunidades estreitamente ligadas de, no máximo, umas poucas centenas de pessoas - mas fóruns como alt.drugs e outros rapidamente cresceram para grupos de milhares de freaks vagamante associados dentro de um período de meses.

O boom dos fóruns em 1993 é frequentemente referido como a "Era Dourada" da internet. Depois de digerir uma vida inteira de mídia programada, este repentino "livre comércio" de informação tinha netcidadãos insaciavelmente curiosos e levados a quebrar todas as regras. Ativistas como Lamont Granquist começaram a publicar e arquivar informação de substâncias controladas e levaram avante discussões inteligentes e refletidas sobre psicoativos na net. Outras hierarquias de fóruns como rec.music uniu ravers de todo o globo numa aldeia de entusiastas. Mas os fóruns também tinham seus limites.

Quando a internet se tornou comercial, e mais pessoas de grandes servidores como America Online entravam para participar, os fóruns públicos rapidamente ficaram saturados com mais tagarelice desinformada (ruído) que informação realmente útil (sinal).

Felizmente, as coisas na net mudam rapidamente. Logo que os fóruns começaram a transbordar, a World Wide Web entrou em cena. Usuários não estavam mais limitados a rústicos textos ASCII e programa primitivo de chat. Na Web, artistas, ativistas, hippies podiam agora produzir galerias de arte virtuais e arquivos em hipertexto de informação underground. Com habilidade de transmitir conteúdo multimídia e criar links para qualquer documento na net, a Web tinha um vasto potencial como ferramenta de expressão comunitária.

O nascimento da Web teve um tremendo impacto no revival da contracultura virtual. As pessoas criavam sites na Web especificamente para promover o uso permitido de enteógenos, a cultura rave, a redução da violência, eventos pagãos, técnicas hiperespaciais, sociedades utópicas e todos os tipos de ideais de mudanças de paradigma. Eventualmente, estes sites cresceram até se tornarem bibliotecas virtuais de informação underground, e começaram a atrair milhares de acessos por dia.

Um dos primeiros sites de contracultura a marcar presença de verdade na web foi o Hyperreal, criado por Brian Behlendorf nos fins de 1993. Behlendorf tinha dirigido uma lista de discussão chamada SF-RAVES quando a internet deu luz à Web, e ele rapidamente montou um site num servidor que ele tinha acesso na Universidade de Stanford. Logo, Hyperreal estava hospedando uma massiva compilação de FAQ ( Perguntas Mais Frequentes) de substâncias controladas; promoções de raves e discussões; resenhas de techno, house e música ambient; revistas online; e mais. À medida que as pessoas afluíam à procura de informação acurada, uma comunidade começou a florescer.

A era que segue à criação da Web (esse piscar de olhos de 1994 a 1996) é frequentemente referido como a "explosão da Internet". Foi durante esta época que muitos outros sites igualmente criativos e informativos começaram a proliferar. Paranoia, dirigido por KevinTX, quebrou praticamente todas as regras ao publicar volumes de informação sobre sexo, psicoativos e religião que poderiam ter sido banidos apenas algumas décadas atrás. A informação "indecente" de KevinTX estava disponível para toda nação do mundo - de Israel à Nova Zelândia, e este surpreendente poder de transpor barreiras sociais motivou outros a levarem a coisa ainda mais longe. No período de dois anos, sites como Druglibrary disponibilizaram ampla quantidade de informação sobre substâncias controladas para o público geral. Estes sites, incluindo o meu, o Lycaeum, têm crescido até se tornarem algumas das maiores e mais versáteis bibliotecas enteogênicas no mundo.

Uma evolução particularmente interessante para a coesão das contraculturas virtuais veio na forma da Drug Reform Coordination Network (DRCNet), criada por David Borden e Adam Smith em 1993. A DRCNet pegou o entusiasmo da contracultura e combinou-o com a funcionalidade da Web para coordenar o ativismo na luta contra o establishment anti-drogas.

Enquanto na DRCNet, não só você pode encontrar informação útil sobre cânhamo e maconha medicinal, embaraçosas estatísticas de quantos dólares de imposto estão sendo utilizados na "Guerra às Drogas", e artigos que expõem a corrupção dentro das agências que tiram proveito do reforço destas leis, você também pode mandar cartas em e-mail sobre temas de proibição específica para os representantes no congresso americano.

Organizações como o Island Group, o Council on Spiritual Practices, revista Wired e uma miríade de outras empresas zippies, hippies, ravers, ativistas e pagãs evoluíram na Web e viram a participação de membros crescer numa maré de entusiasmo. Você pode agora encontrar praticamente toda comunidade contracultural, organização e publicação representada na Web, e muitas estão igualmente conduzindo listas e fóruns de discussão para reforçar as comunidades e encorajar novas idéias. E você sabe de uma coisa? Isso está fazendo muita diferença.

O impacto da internet no crescimento da contracultura não pode ser subestimado. Nos anos 90, nós temos visto um aumento na exploração psicodélica, expressão artística, música transcedente, ritos e rituais pagãos e uma multidão de outras práticas espirituais de poder. A internet tem sido uma catalizadora para estas explosões na cultura porque ela permite a você localizar pessoas, informação e recursos que seriam de outra forma indisponíveis.

Pela primeira vez na história, milhões de pessoas de todo o mundo tem acesso a informação inesgotável e troca de novos conhecimentos em tempo real. Membros da contracultura estão usando este poder para fazer nada menos que tentar mudar o mundo como eles conhecem. E de onde estou sentado, parece que eles podem finalmente estar vencendo.

Fique ligado.

Andrew Edmond é um programador de computador por profissão, e formado como botânico. Ele é o Diretor do Lycaeum, a Maior Comunidade e Biblioteca Enteogênica Online do Mundo. Você pode mandar um e-mail para ele no edmond@lycaeum.org.

Tradução de Ricardo Rosas

Texto traduzido do sítio da revista The Ressonance Project -
(www.resproject.com).

Links para pioneiros do underground virtual

The Island Group - www.island.org

The Lycaeum - www.lycaeum.org

Hyperreal - www.hyperreal.org

FutureCulture - www.eerie.fr/~alquier/Cyber/culture.html

Fringeware - www.fringeware.com

DRCNet - www.drcnet.org

Druglibrary - www.druglibrary.org

Paranoia - www.paranoia.lycaeum.org

Council on Spiritual Practices - www.csp.org

Wired - www.wired.com/

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Extraído de http://www.plantasenteogenas.org/forum/showthread.php?t=367&

Sociedade Psicodélica


Sociedade Psicodélica

Terence McKenna


Baseado em uma fala dada em um encontro da ARUPA
no Instituto Esalen em junho de 1984.



Eu quero falar esta noite a respeito da noção de uma sociedade psicodélica. Quando eu falei em Santa Bárbara em uma conferência sobre psicodélicos em maio de 1983 minhas lentes de contato falharam em um ponto crítico na minha leitura e eu simplesmente tive que improvisar. Mais tarde quando eu ouvi a fita da gravação eu ouvi a frase “sociedade psicodélica.” Eu nunca usei este termo conscientemente em uma conversa. Mas porque eu havia dito, e porque havia acontecido uma ressonância através das pessoas que estavam lá, eu comecei a pensar sobre isso e esta noite irei especular sobre o que isto pode significar para nós.

Quando eu penso em sociedade psicodélica, esta noção implica em criar uma sociedade que vive à luz do Mistério da Existência. Em outras palavras, problemas e soluções deveríam ser retiradas de seu papel central nas organizações sociais, e Mistérios – Mistérios Irredutíveis – deveriam estar em seu lugar. Nos anos 20 o entomologista britânico J.B.S. Haldane disse em um ensaio, “O universo pode não ser apenas mais estranho como supomos; ele pode ser mais estranho do que nós podemos supor.”

Eu sugiro que assim como nós olhamos para trás em cada ápice da civilização na história humana - seja ela Maia, ou Greco-Romana, ou a Dinastia Sung – temos acreditado que isso aconteceu graças à posse de uma descrição apurada do cosmos e da relação do homem com ele. Isto parece ir junto com o completo florescimento de uma civilização. Mas, a partir deste ponto de vista da nossa presente civilização, nós consideramos todas estas concepções como se fossem piores, de segunda mão. Nós nos orgulhamos que nossa civilização tem a última e real descrição sobre o que está acontecendo.

Eu considero isto um erro, e que atualmente nos cega, ou torna nosso progresso histórico muito difícil, é nossa falta de atenção que nossas crenças se tornaram obsoletas e deveríam ser colocadas de lado. Uma sociedade psicodélica abandonaria os sistemas de crenças pela experiência direta. É o que eu penso a respeito a do problema do dilema moderno: a experiência direta foi descontada, e no seu lugar todos os tipos de sistemas de crença foram criados.

Eu preferiria um tipo de anarquia intelectual onde não importa o quê fosse pragmaticamente aplicável e fosse trazido de qualquer situação; onde crença fosse entendida como uma função auto-limitante. Porque, veja, se você acredita em alguma coisa você é automaticamente impedido a acreditar em seu oposto; que significa que um grau da liberdade humana foi coisificada no ato de se submeter à esta crença.

Eu insisto que é supérfluo ter crenças, porque o universo é realmente mais estranho do que nós supomos, precisamos retornar para o que no século XVI era chamado de método Baconiano; que não significa a elaboração fantástica de construções de pensamentos que explicam a natureza, mas somente uma catalogação dos fenômenos que nós experimentamos. Redes de computadores e drogas psicodélicas e a crescente disponibilidade de informação no mundo têm tornado possível a evolução de novos estados de informação que nunca existiram anteriormente. Estamos processando estas novas oportunidades em uma razão muito lenta, porque estamos sendo impedidos pela ideologia.

Os modelos Freudianos e Junguianos enxergam a experiência psicodélica como um desmantelamento da resistência em revelar emoções, motivos e sistemas de crenças escondidas e complexas. Esta noção, há cinco ou dez anos, foi substituída pelo modelo de experiência alucinógena xamânica. Este modelo sustenta que pessoas arcaicas têm delegado membros especiais de uma sociedade para provar informações de domínio secreto usando drogas psicodélicas. A informação extraída destes domínios são então usadas para guiar e direcionar a sociedade.

Eu estou interessado neste segundo modelo. Tenho gastado algum tempo na Amazônia e estou familiarizado com os mecanismos operacionais do xamanismo e personalidades xamânicas. Acredito que a experiência psicodélica vai além da instituição do xamanismo. Estamos diante de uma oportunidade única de arremessar de lado a crise da cultura mundial.

Nossa habilidade de destruir a nós mesmos é a imagem espelhada da capacidade de nos salvarmos. O que está faltando é uma visão clara do quê deveria ser feito. O que deveria ser feito certamente não é a acumulação cada vez maior de arsenal termonuclear ou a promoção de todo o tipo espetáculos de primatas – que Tim Leary tem muito bem denunciado. O que precisa ser feito é que nossas concepções ontológicas fundamentais de realidade precisam ser refeitas. Precisamos de uma nova linguagem, de modo que para ter uma nova linguagem precisamos de uma nova realidade. É um tipo de equação urobórica, ou uma situação de desvencilhamento. Uma nova realidade gerará uma nova linguagem. Uma nova linguagem fará uma nova realidade se legitimar e ser uma parte desta realidade.

As substâncias psicodélicas podem ser imaginadas como pontos de uma grade de informações. Elas provêm novas perspectivas na realidade, e quando você reconecta todos os pontos de vista que você coletou considerando realidade, então um modelo aplicável de realidade e que faça sentido começa a surgir.

Eu penso que esta realidade aplicável e que faça sentido – o que Wittgenstein nomeou algo como “suficientemente verdadeiro” - é o que estamos procurando. O “suficientemente verdadeiro” mapeando por cima da teoria é o que estanos procurando, mas a experiência deve ser feita primeiro. A linguagem do Eu deve ser feita primeiro.

O que eu estou defendendo é que cada um de nós tome responsabilidade pela transformação cultural, que não é algo que seria disseminado de cima para baixo. É algo com o qual cada um de nós podemos contribuir nos esforçando a viver tão para dentro do futuro quanto possível. Devemos nos livrar das concepções de anos 40, 50, 60, 70, 80, 90. Devemos transcender o momento histórico e tornarmos exemplares de humanidade no Fim do Tempo.

Alguns de vocês que acompanham minha leitura esta tarde se preocupam em saber que eu acredito na liberação – ou vamos dizer “decência” - como uma qualidade humana e antecipação deste estado perfeito da humanidade futura. Podemos ter vontade de aperfeiçoar o futuro nos tornando um microcosmo do futuro perfeito, não mais distribuir culpa para instituições ou hierarquias de responsabilidade ou controle, mas dar-nos conta que a oportunidade está aqui, a responsabilidade está aqui, e os dois nunca se tornem incongruentes de novo. A salvação para o nosso espírito imortal depende do quê você faz com as oportunidades que a vida lhe dá.

Então, o que faremos com a oportunidade? O quê significa dizer, em termos operacionais, “Viva tão longe ao futuro quanto puder?” Significa tomar uma posição vís à vis da emergente realidade hiper-dimensional. Isto não significa necessariamente tornar-se um usuário de drogas psicodélicas; mas significa admitir esta possibilidade. Se você sente um potencial heróico dentro de você para ser um dos experimentadores – um dos pioneiros – então você sabe o que fazer. Se por outro lado você se sente perdido no abismo – se você se sente como William Blake chamou de “caindo para a eterna morte,” caindo do espiral da existência que conecta uma encarnação à outra – então oriente-se para a experiência psicodélica como uma fonte de informação.

Uma imagem espelhada da experiência psicodélica emergiu com o hardware e software integrados às redes de computadores. A internet e a www são paradoxalmente suficientes, uma profunda influência feminilizante na sociedade. Isto está no desenvolvimento de hardware/software que inconscientemente está se tornando consciente. Esse é um pensamento que tomamos do bon mot platônico - “Se Deus não existisse, o homem deveria inventá-lo” - e disse, “se a inconsciência não existe, a humanidade a inventará na forma de vastas redes que serão capazes de transferir e transformar informação.”

Isto é, de fato, onde estamos presos: a transformação de informação. Nós não mudamos fisicamente nos últimos quarenta mil anos. O tipo humano está bem estabilizado desde antes do fim da última glaciação. Mudanças que foram feitas antigamente no âmbito biológico estão acontecendo agora no âmbito cultural. Estamos abrigando presunções culturais e nos preocupando com nossa visão do mistério unitário em uma razão cada vez mais rápida, enquanto tentamos nos acomodar ao desdobrameno daquele mistério que se deita diante de nós no tempo. Este é o processo que está fundindo a vasta sombra de destruição por cima de toda a experiência da história humana.

Anterior à nossa própria era, a única palavra que poderia ser aplicada para esta força que faz as pessoas se unirem, causando nascimento e morte, levantando e derrubando civilizações, era Deus; e isso era imaginado como uma forna auto-consciente que estava aprendendo a respeito do mundo como um gato aprende a respeito do aquário, e fazendo as coisas acontecerem. Agora temos uma noção diferente – a noção de um sistema vetor que força uma grande área que está sendo empurrada para um espaço muito pequeno, e este pequeno micro-setor de tempo/espaço é a história. É um ímpeto que os budistas chamam de “o reino densamente empacotado,” um reino onde os opostos estão unificados.

A história é este reino onde o corpo é finalmente interiorizado e a mente exteriorizada. Penso a mente como um órgão da quarta dimensão no nosso corpo. Você não pode vê-lo porque ele está na quarta dimensão, mas você experimenta uma baixa dimensão seccionando-a no fenômeno da consciência. Mas isto é somente uma secção parcial, assim como uma elipse é um desenho parcial de um cone.

O crescimento dos sistemas de informação é somente um reflexo do hardware masculino, do que já existe na natureza como um fato. Agora nos resta afiar nossas intuições e nos tornarmos atentos a este sistema preexistente e ligá-lo para que possamos estar um passo a frente dos dualismos que nos separam dos outros e do mundo. Precisamos nos dar conta que há um enxame de genes – e não um grupo de espécies – no planeta; que metade do tempo você está pensando no que está escutando; que idéias são criaturas notavelmente escorregadias que são difíceis de traçar sua origem; e que estamos realmente no mano-a-mano e todos juntos em uma dimensão que não é tão acessível e sólida como você desejaria que fosse (como Joyce comenta em Finnegan's Wake).

Os psicodélicos são o red-hot, a edição social/ética porque eles são agentes descondicionadores. Eles levantarão dúvidas se você é um rabino ortodoxo, um antropólogo marxista, ou um homem de altar porque o seu negócio é dissolver sistemas de crenças. Eles fazem isso muito bem, e depois eles deixam você com uma ferida na experiência, o que William James chamou – tomando uma experiência infantil – “uma confusão florida, barulhenta.”

Fora isso você reconstrói o mundo e precisa entender que esta reconstrução é um diálogo onde suas decisões – a projeção de sua gramática no espaço intelectual em sua frente – irá formar um gel sobre o ser. Nós todos criamos nosso próprio universo porque estamos todos operando com a nossa própria linguagem privada que são somente traduzíveis através da linguagem de outra pessoa. Há ainda um análogo físico a isto que irá promover um reforço desta noção de separação e nossa singularidade.

A imagem do mundo que se forma em seus olhos é feita de fótons. Fótons são minúsculos pacotes de luz tão próximas que podem ser pensadas como partículas. Isto significa que cada fóton que toca o fundo dos seus olhos é diferente dos fótons que tocam o fundo dos olhos de qualquer outra pessoa. Isto significa que eu me baseio em uma seção do mundo 100% diferente da imagem que qualquer um de vocês estão se baseando. E ainda estamos sentados aqui com uma suposição ingênua de que nossas imagens do mundo diferem somente pela nossa perspectiva dentro do espaço desta sala.

Temos inúmeras suposições ingênuas como esta construção do nosso pensamento. Nosso mecanismo explanatório mais venerado – tal como “ciência” - surge também como nosso mecanismo explanatório mais velho. Portanto, eles vem sendo construídos como a mais ingênua e não-examinada suposição. “Ciência”, por exemplo, podemos demolir em trinta segundos. A “ciência” diz a você um grupo de condições que criará um efeito dado, e a cada momento que o grupo de condições estiver em seu lugar o efeito será obtido. O único lugar que isto acontece é dentro de um laboratório. Nossa experiência não é assim. O contato com uma pessoa é sempre diferente. A experiência de fazer sexo, comer uma refeição, tomar um ônibus – isto penetra no ser – e torna suportável de todo jeito. A “ciência” ainda deseja dizer a você que somente o valor das coisas descritas em um fenômeno podem ser disparadamente repeditas. Isto se dá porque estes são somente os fenômenos que a ciência pode descrever, e é o nome do jogo com o qual ela se preocupa.

Mas nós temos que reivindicar nossa liberdade – tomar vantagem do abismo minúsculo entre o imenso abismo do desconhecimento; seja talvez a morte, ou reencarnação, ou transições para outras formas de vida. Estas coisas nós não sabemos ou entendemos, mas no momento que somos humanos temos a rara oportunidade de descobri-las. E eu tenho fé de que isto é possível – em algum lugar ou em algum momento. Talvez nenhum progresso seria feito até a nona hora em que a realidade pudesse ser literalmente fragmentada em pedaços, para além do ponto de reconstrução.

Existe, definitivamente, uma tendência anti humanista em todos os sistemas, Ludwig von Bertalanfe, que foi o inventor da teoria dos sistemas gerais, disse, “pessoas não são máquinas, mas em toda situação que elas tiverem a oportunidade, elas irão agir como uma.” Estamos todos caindo em padrões. Nós seguramos estes padrôes cada vez mais forte. Eles não podem ser violados; e isto acontece no nível das idéias.

Estamos agora no crista da onda da história, em um tipo de aperto que nos devolve ao passado. Espero que tenhamos chegado ao fim desta fase. Queira você comprar minha visão apocaliptica transformadora envolvendo 2012, ou queira você dizer que somente por olhar ao seu redor você tem certeza que, logo, logo, a merda vai ser atirada ao ventilador, eu acho que nós concordamos que estamos diante de um impasse. O que está para acontecer será ou um grande deslocamento da biosfera, causando uma invalidação da inteligência como uma adptação biológica e nossa extinção; ou iremos nos tornar – como James Joyce sonhou - “o homem auto governável;” em outras palavras, a exteriorização do espírito e a interiorização do corpo.

Neste processo, tudo terá de ser desafiado. Toda a noção de humanidade será desafiada. Estamos à beira da manipulação do DNA, ou de tomar controle da forma humana, de sermos capazes de extender a noção de arte para dentro do corpo humano. Somos clássicos? Deveríamos ser Adonis e Perséfone? Ou o que somos nós? Somos surrealistas? Deveria eu ser uma batata ou uma girafa em chamas? Estas são questões que terão de ser enfrentadas. Eu sorrio enquanto falo isto, mas estas questões são importantes.

E a noção de ganho vertical que vemos nas metáforas feitas em relação à experiência psicodélica: expansão da consciência, ficar chapado (getting high - a tradução seria “elevar-se”), viagem psicodélica, vôo xamânico. É como se os alucinógenos fossem o feminino, o software, o formador, o cabo condutor do que está ocorrendo. Seguindo por trás vem o hardware, a mentalidade construtora masculina.

Isto irá continuar até que o cabo condutor das longas distâncias da engenharia contrutora se rompa. Esta é a crença xamânica: que nós podemos encontrar uma maneira de usar químicos em nossos corpos, usar nossas vozes, nossos pensamentos e nossas mãos por sobre nós e sobre os outros; para tranformar nós mesmos sem nenhuma tecnologia; para nos movermos no reino da imaginação com uma tecnologia psicofarmacológica interiorizada que nos liberte dentro da nossa imaginação.

Ao mesmo tempo isto está acontecendo com a mentalidade construtora masculina, que irá colocar sociedades humanas na órbita da terra/lua e em planetas próximos. Mas há um porém para a mentalidade construtora, que é um vácuo que envolve os planetas e exemplifica este abismo e o elemento feminino. É o mistério da Mama matrix de Finnegan's Wake. A misteriosa Mama matrix é o universo, e não há como escapar deste fato. Mas eu penso que a mentalidade construtora, que irá tentar transformar o homem em suas máquinas será desestabilizada pelos psicodélicos, pelo pensamento voltado ao planeta, pelo lado voltado à imaginação de nossa consciência, que irá criar as bases para o casamento espiritual que será a incubação química de um novo formato da humanidade; e isto não está longe.

Não pode estar longe. Esta é uma responsabilidade inerente a todos nós que nos faz criá-la. Há uma obrigação definida para examinar as possibilidades de ação, e para pensar claramente sobre si e sobre o outro, sobre a linguagem e o mundo, sobre o passado e o presente. Por muito tempo nós vivemos em um mundo definido pela geografia. Se você nasceu na Índia, você achará que o cosmos é de uma maneira. Se você nasceu no Brooklyn, você achará de outra. Precisamos transcender estas grades do destino biológico, que nos torna aquilo que nós não queremos ser. Nós podemos clamar por este nível mais alto de liberdade através do simples ato de prestar atenção à existência.

Precisamos começar a exprimir nossas visões ideológicas antes que sejamos consumidores das próprias. Precisamos desligar a nossa TV interna que nos puxa para as suposições culturais ditadas pelo Pentágono, Madison Avenue, e pelo estado corporativo. Precisamos, ao invés disso, ligar nossos modems e começar a interagir como pessoas dotadas de mentalidade pelo mundo afora e estabelecer esta nova ordem intelectual que será a salvação da biosfera, eu acredito firmemente nisto. A internet finalmente concretiza nossa coletividade permitindo que pessoas sintam a interrelação de seus destinos; sentem a interrelação como uma coisa que transcende divisões nacionais, divisões ideológicas. A net permite que cada um de nós recupere a experiência de ser parte de uma família humana.

Nenhuma reconstrução de sociedade pode ser feita sem psicodélicos porquê nós perambulamos durante muito tempo sem eles. Certamente somos produtos de uma sociedade que foi longe demais sem psicodélicos como nenhuma outra cultura no mundo. Isto foi há dois mil anos desde que o Mistério foi real em Eleusis e nestes dois mil anos perambulamos longe na disfunção e na confusão. Mas nós somos filhos pródigos. Podemos reparar a idéia de xamanismo a partir do êxtase social pré-tecnológico e projetá-lo, aperfeiçoá-lo e viajar com ela para além das estrelas.

E se não fizermos, tudo estará perdido. Há somente riscos e comprometimentos nestas aspirações milenares e nestas metas culturais, metas que têm o potencial de restaurar o significado e a direção para nossa civilização. Se isto não for feito iremos fragmentar nossa oportunidade e deixar o horror e a destruição do típico cenário futuro.


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Anarquicamente copiado de:
FORTE, Robert. Entheogens And The Future Of Religion. San Francisco, CSP, 1997.

Humildemente traduzido por:
Waver

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