sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

Pioneiros do Underground Virtual

PIONEIROS DO UNDERGROUND VIRTUAL
Por Andrew Edmond

Desde os primeiros dias da internet, artistas, psiconautas, maconheiros, exploradores hiperespaciais, jardineiros etnobotânicos, químicos, místicos, ravers e ativistas têm estado trocando idéias e criando projetos que eles esperam que um dia mudem o mundo. Ao contrário do Mundo Real, onde aqueles que adotam a contracultura frequentemente têm de trabalhar duro para encontrar seu grupo, a internet é um lugar onde tribos podem ser formadas sem limites culturais ou geográficos. Aqueles que foram impelidos para o underground no mundo real estão agora descobrindo que a internet é uma incrível ferramenta para a expressão, para a troca de informação e conhecimento, e, mais importante, para encontrar e fazer amigos freaks de todo o mundo.

Uma das primeiras contraculturas virtuais formada na net foi uma lista de discussão chamada FutureCulture, criada por Andy Hawks ainda em 1992. FutureCulture atraiu cybercidadãos enamorados com a idéia de usar a telecomunicação global para lançar uma nova contracultura - uma que mixasse pessoas e idéias do mundo inteiro numa caótica sopa multicultural. Em 92 ainda, só havia cerca de três milhões de pessoas na internet, e o que Hawks consumou com FutureCulture foi um marco divisório. Ele criou uma "comunidade mundial" onde as pessoas de todo canto do mundo poderiam se encontrar diariamente no cyberespaço e fazer planos de mudar e sacudir o mundo como nunca antes. Antes da internet, comunidades criativas ficavam constrangidas pela localidade física. Na net, elas se auto-replicam como vírus - propagando e antecipando memes numa velocidade assombrosa.

Apesar da FutureCulture prosperar por quase dois anos com um diálogo rico e potente, Hawks eventualmente a deixou, e como resultado, muitas outras listas contraculturais começaram a crescer. Fringeware, levada por Paco Nathan, a lista de discussão Leri iniciada por Scotto More, MIndSpace, formada por Jack Burns e a Visionary Plants List moderada por mim, atraíram muitos dos mais novos e mais célebres visionários da contracultura. Como os governos do mundo ainda estavam bastante ingênuos quanto ao mundo virtual, surpreendentes eventos como "net-trips" (pessoas de todo o mundo conversando num chat sob a influência de psicodélicos) passavam totalmente despercebidos pelas autoridades constituídas.

Em 1993, estas primeiras e simples listas de discussão underground começaram a se espalhar pelos fóruns da internet. Boletins (BBS) virtuais se tornaram praças públicas onde as pessoas podiam enviar sua poesia e música favorita, fazer perguntas, compartilhar experiências pessoais, e discutir tópicos que em muitos países eram considerados ilegais. As listas de discussão iniciais como FutureCulture eram comunidades estreitamente ligadas de, no máximo, umas poucas centenas de pessoas - mas fóruns como alt.drugs e outros rapidamente cresceram para grupos de milhares de freaks vagamante associados dentro de um período de meses.

O boom dos fóruns em 1993 é frequentemente referido como a "Era Dourada" da internet. Depois de digerir uma vida inteira de mídia programada, este repentino "livre comércio" de informação tinha netcidadãos insaciavelmente curiosos e levados a quebrar todas as regras. Ativistas como Lamont Granquist começaram a publicar e arquivar informação de substâncias controladas e levaram avante discussões inteligentes e refletidas sobre psicoativos na net. Outras hierarquias de fóruns como rec.music uniu ravers de todo o globo numa aldeia de entusiastas. Mas os fóruns também tinham seus limites.

Quando a internet se tornou comercial, e mais pessoas de grandes servidores como America Online entravam para participar, os fóruns públicos rapidamente ficaram saturados com mais tagarelice desinformada (ruído) que informação realmente útil (sinal).

Felizmente, as coisas na net mudam rapidamente. Logo que os fóruns começaram a transbordar, a World Wide Web entrou em cena. Usuários não estavam mais limitados a rústicos textos ASCII e programa primitivo de chat. Na Web, artistas, ativistas, hippies podiam agora produzir galerias de arte virtuais e arquivos em hipertexto de informação underground. Com habilidade de transmitir conteúdo multimídia e criar links para qualquer documento na net, a Web tinha um vasto potencial como ferramenta de expressão comunitária.

O nascimento da Web teve um tremendo impacto no revival da contracultura virtual. As pessoas criavam sites na Web especificamente para promover o uso permitido de enteógenos, a cultura rave, a redução da violência, eventos pagãos, técnicas hiperespaciais, sociedades utópicas e todos os tipos de ideais de mudanças de paradigma. Eventualmente, estes sites cresceram até se tornarem bibliotecas virtuais de informação underground, e começaram a atrair milhares de acessos por dia.

Um dos primeiros sites de contracultura a marcar presença de verdade na web foi o Hyperreal, criado por Brian Behlendorf nos fins de 1993. Behlendorf tinha dirigido uma lista de discussão chamada SF-RAVES quando a internet deu luz à Web, e ele rapidamente montou um site num servidor que ele tinha acesso na Universidade de Stanford. Logo, Hyperreal estava hospedando uma massiva compilação de FAQ ( Perguntas Mais Frequentes) de substâncias controladas; promoções de raves e discussões; resenhas de techno, house e música ambient; revistas online; e mais. À medida que as pessoas afluíam à procura de informação acurada, uma comunidade começou a florescer.

A era que segue à criação da Web (esse piscar de olhos de 1994 a 1996) é frequentemente referido como a "explosão da Internet". Foi durante esta época que muitos outros sites igualmente criativos e informativos começaram a proliferar. Paranoia, dirigido por KevinTX, quebrou praticamente todas as regras ao publicar volumes de informação sobre sexo, psicoativos e religião que poderiam ter sido banidos apenas algumas décadas atrás. A informação "indecente" de KevinTX estava disponível para toda nação do mundo - de Israel à Nova Zelândia, e este surpreendente poder de transpor barreiras sociais motivou outros a levarem a coisa ainda mais longe. No período de dois anos, sites como Druglibrary disponibilizaram ampla quantidade de informação sobre substâncias controladas para o público geral. Estes sites, incluindo o meu, o Lycaeum, têm crescido até se tornarem algumas das maiores e mais versáteis bibliotecas enteogênicas no mundo.

Uma evolução particularmente interessante para a coesão das contraculturas virtuais veio na forma da Drug Reform Coordination Network (DRCNet), criada por David Borden e Adam Smith em 1993. A DRCNet pegou o entusiasmo da contracultura e combinou-o com a funcionalidade da Web para coordenar o ativismo na luta contra o establishment anti-drogas.

Enquanto na DRCNet, não só você pode encontrar informação útil sobre cânhamo e maconha medicinal, embaraçosas estatísticas de quantos dólares de imposto estão sendo utilizados na "Guerra às Drogas", e artigos que expõem a corrupção dentro das agências que tiram proveito do reforço destas leis, você também pode mandar cartas em e-mail sobre temas de proibição específica para os representantes no congresso americano.

Organizações como o Island Group, o Council on Spiritual Practices, revista Wired e uma miríade de outras empresas zippies, hippies, ravers, ativistas e pagãs evoluíram na Web e viram a participação de membros crescer numa maré de entusiasmo. Você pode agora encontrar praticamente toda comunidade contracultural, organização e publicação representada na Web, e muitas estão igualmente conduzindo listas e fóruns de discussão para reforçar as comunidades e encorajar novas idéias. E você sabe de uma coisa? Isso está fazendo muita diferença.

O impacto da internet no crescimento da contracultura não pode ser subestimado. Nos anos 90, nós temos visto um aumento na exploração psicodélica, expressão artística, música transcedente, ritos e rituais pagãos e uma multidão de outras práticas espirituais de poder. A internet tem sido uma catalizadora para estas explosões na cultura porque ela permite a você localizar pessoas, informação e recursos que seriam de outra forma indisponíveis.

Pela primeira vez na história, milhões de pessoas de todo o mundo tem acesso a informação inesgotável e troca de novos conhecimentos em tempo real. Membros da contracultura estão usando este poder para fazer nada menos que tentar mudar o mundo como eles conhecem. E de onde estou sentado, parece que eles podem finalmente estar vencendo.

Fique ligado.

Andrew Edmond é um programador de computador por profissão, e formado como botânico. Ele é o Diretor do Lycaeum, a Maior Comunidade e Biblioteca Enteogênica Online do Mundo. Você pode mandar um e-mail para ele no edmond@lycaeum.org.

Tradução de Ricardo Rosas

Texto traduzido do sítio da revista The Ressonance Project -
(www.resproject.com).

Links para pioneiros do underground virtual

The Island Group - www.island.org

The Lycaeum - www.lycaeum.org

Hyperreal - www.hyperreal.org

FutureCulture - www.eerie.fr/~alquier/Cyber/culture.html

Fringeware - www.fringeware.com

DRCNet - www.drcnet.org

Druglibrary - www.druglibrary.org

Paranoia - www.paranoia.lycaeum.org

Council on Spiritual Practices - www.csp.org

Wired - www.wired.com/

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Extraído de http://www.plantasenteogenas.org/forum/showthread.php?t=367&

Sociedade Psicodélica


Sociedade Psicodélica

Terence McKenna


Baseado em uma fala dada em um encontro da ARUPA
no Instituto Esalen em junho de 1984.



Eu quero falar esta noite a respeito da noção de uma sociedade psicodélica. Quando eu falei em Santa Bárbara em uma conferência sobre psicodélicos em maio de 1983 minhas lentes de contato falharam em um ponto crítico na minha leitura e eu simplesmente tive que improvisar. Mais tarde quando eu ouvi a fita da gravação eu ouvi a frase “sociedade psicodélica.” Eu nunca usei este termo conscientemente em uma conversa. Mas porque eu havia dito, e porque havia acontecido uma ressonância através das pessoas que estavam lá, eu comecei a pensar sobre isso e esta noite irei especular sobre o que isto pode significar para nós.

Quando eu penso em sociedade psicodélica, esta noção implica em criar uma sociedade que vive à luz do Mistério da Existência. Em outras palavras, problemas e soluções deveríam ser retiradas de seu papel central nas organizações sociais, e Mistérios – Mistérios Irredutíveis – deveriam estar em seu lugar. Nos anos 20 o entomologista britânico J.B.S. Haldane disse em um ensaio, “O universo pode não ser apenas mais estranho como supomos; ele pode ser mais estranho do que nós podemos supor.”

Eu sugiro que assim como nós olhamos para trás em cada ápice da civilização na história humana - seja ela Maia, ou Greco-Romana, ou a Dinastia Sung – temos acreditado que isso aconteceu graças à posse de uma descrição apurada do cosmos e da relação do homem com ele. Isto parece ir junto com o completo florescimento de uma civilização. Mas, a partir deste ponto de vista da nossa presente civilização, nós consideramos todas estas concepções como se fossem piores, de segunda mão. Nós nos orgulhamos que nossa civilização tem a última e real descrição sobre o que está acontecendo.

Eu considero isto um erro, e que atualmente nos cega, ou torna nosso progresso histórico muito difícil, é nossa falta de atenção que nossas crenças se tornaram obsoletas e deveríam ser colocadas de lado. Uma sociedade psicodélica abandonaria os sistemas de crenças pela experiência direta. É o que eu penso a respeito a do problema do dilema moderno: a experiência direta foi descontada, e no seu lugar todos os tipos de sistemas de crença foram criados.

Eu preferiria um tipo de anarquia intelectual onde não importa o quê fosse pragmaticamente aplicável e fosse trazido de qualquer situação; onde crença fosse entendida como uma função auto-limitante. Porque, veja, se você acredita em alguma coisa você é automaticamente impedido a acreditar em seu oposto; que significa que um grau da liberdade humana foi coisificada no ato de se submeter à esta crença.

Eu insisto que é supérfluo ter crenças, porque o universo é realmente mais estranho do que nós supomos, precisamos retornar para o que no século XVI era chamado de método Baconiano; que não significa a elaboração fantástica de construções de pensamentos que explicam a natureza, mas somente uma catalogação dos fenômenos que nós experimentamos. Redes de computadores e drogas psicodélicas e a crescente disponibilidade de informação no mundo têm tornado possível a evolução de novos estados de informação que nunca existiram anteriormente. Estamos processando estas novas oportunidades em uma razão muito lenta, porque estamos sendo impedidos pela ideologia.

Os modelos Freudianos e Junguianos enxergam a experiência psicodélica como um desmantelamento da resistência em revelar emoções, motivos e sistemas de crenças escondidas e complexas. Esta noção, há cinco ou dez anos, foi substituída pelo modelo de experiência alucinógena xamânica. Este modelo sustenta que pessoas arcaicas têm delegado membros especiais de uma sociedade para provar informações de domínio secreto usando drogas psicodélicas. A informação extraída destes domínios são então usadas para guiar e direcionar a sociedade.

Eu estou interessado neste segundo modelo. Tenho gastado algum tempo na Amazônia e estou familiarizado com os mecanismos operacionais do xamanismo e personalidades xamânicas. Acredito que a experiência psicodélica vai além da instituição do xamanismo. Estamos diante de uma oportunidade única de arremessar de lado a crise da cultura mundial.

Nossa habilidade de destruir a nós mesmos é a imagem espelhada da capacidade de nos salvarmos. O que está faltando é uma visão clara do quê deveria ser feito. O que deveria ser feito certamente não é a acumulação cada vez maior de arsenal termonuclear ou a promoção de todo o tipo espetáculos de primatas – que Tim Leary tem muito bem denunciado. O que precisa ser feito é que nossas concepções ontológicas fundamentais de realidade precisam ser refeitas. Precisamos de uma nova linguagem, de modo que para ter uma nova linguagem precisamos de uma nova realidade. É um tipo de equação urobórica, ou uma situação de desvencilhamento. Uma nova realidade gerará uma nova linguagem. Uma nova linguagem fará uma nova realidade se legitimar e ser uma parte desta realidade.

As substâncias psicodélicas podem ser imaginadas como pontos de uma grade de informações. Elas provêm novas perspectivas na realidade, e quando você reconecta todos os pontos de vista que você coletou considerando realidade, então um modelo aplicável de realidade e que faça sentido começa a surgir.

Eu penso que esta realidade aplicável e que faça sentido – o que Wittgenstein nomeou algo como “suficientemente verdadeiro” - é o que estamos procurando. O “suficientemente verdadeiro” mapeando por cima da teoria é o que estanos procurando, mas a experiência deve ser feita primeiro. A linguagem do Eu deve ser feita primeiro.

O que eu estou defendendo é que cada um de nós tome responsabilidade pela transformação cultural, que não é algo que seria disseminado de cima para baixo. É algo com o qual cada um de nós podemos contribuir nos esforçando a viver tão para dentro do futuro quanto possível. Devemos nos livrar das concepções de anos 40, 50, 60, 70, 80, 90. Devemos transcender o momento histórico e tornarmos exemplares de humanidade no Fim do Tempo.

Alguns de vocês que acompanham minha leitura esta tarde se preocupam em saber que eu acredito na liberação – ou vamos dizer “decência” - como uma qualidade humana e antecipação deste estado perfeito da humanidade futura. Podemos ter vontade de aperfeiçoar o futuro nos tornando um microcosmo do futuro perfeito, não mais distribuir culpa para instituições ou hierarquias de responsabilidade ou controle, mas dar-nos conta que a oportunidade está aqui, a responsabilidade está aqui, e os dois nunca se tornem incongruentes de novo. A salvação para o nosso espírito imortal depende do quê você faz com as oportunidades que a vida lhe dá.

Então, o que faremos com a oportunidade? O quê significa dizer, em termos operacionais, “Viva tão longe ao futuro quanto puder?” Significa tomar uma posição vís à vis da emergente realidade hiper-dimensional. Isto não significa necessariamente tornar-se um usuário de drogas psicodélicas; mas significa admitir esta possibilidade. Se você sente um potencial heróico dentro de você para ser um dos experimentadores – um dos pioneiros – então você sabe o que fazer. Se por outro lado você se sente perdido no abismo – se você se sente como William Blake chamou de “caindo para a eterna morte,” caindo do espiral da existência que conecta uma encarnação à outra – então oriente-se para a experiência psicodélica como uma fonte de informação.

Uma imagem espelhada da experiência psicodélica emergiu com o hardware e software integrados às redes de computadores. A internet e a www são paradoxalmente suficientes, uma profunda influência feminilizante na sociedade. Isto está no desenvolvimento de hardware/software que inconscientemente está se tornando consciente. Esse é um pensamento que tomamos do bon mot platônico - “Se Deus não existisse, o homem deveria inventá-lo” - e disse, “se a inconsciência não existe, a humanidade a inventará na forma de vastas redes que serão capazes de transferir e transformar informação.”

Isto é, de fato, onde estamos presos: a transformação de informação. Nós não mudamos fisicamente nos últimos quarenta mil anos. O tipo humano está bem estabilizado desde antes do fim da última glaciação. Mudanças que foram feitas antigamente no âmbito biológico estão acontecendo agora no âmbito cultural. Estamos abrigando presunções culturais e nos preocupando com nossa visão do mistério unitário em uma razão cada vez mais rápida, enquanto tentamos nos acomodar ao desdobrameno daquele mistério que se deita diante de nós no tempo. Este é o processo que está fundindo a vasta sombra de destruição por cima de toda a experiência da história humana.

Anterior à nossa própria era, a única palavra que poderia ser aplicada para esta força que faz as pessoas se unirem, causando nascimento e morte, levantando e derrubando civilizações, era Deus; e isso era imaginado como uma forna auto-consciente que estava aprendendo a respeito do mundo como um gato aprende a respeito do aquário, e fazendo as coisas acontecerem. Agora temos uma noção diferente – a noção de um sistema vetor que força uma grande área que está sendo empurrada para um espaço muito pequeno, e este pequeno micro-setor de tempo/espaço é a história. É um ímpeto que os budistas chamam de “o reino densamente empacotado,” um reino onde os opostos estão unificados.

A história é este reino onde o corpo é finalmente interiorizado e a mente exteriorizada. Penso a mente como um órgão da quarta dimensão no nosso corpo. Você não pode vê-lo porque ele está na quarta dimensão, mas você experimenta uma baixa dimensão seccionando-a no fenômeno da consciência. Mas isto é somente uma secção parcial, assim como uma elipse é um desenho parcial de um cone.

O crescimento dos sistemas de informação é somente um reflexo do hardware masculino, do que já existe na natureza como um fato. Agora nos resta afiar nossas intuições e nos tornarmos atentos a este sistema preexistente e ligá-lo para que possamos estar um passo a frente dos dualismos que nos separam dos outros e do mundo. Precisamos nos dar conta que há um enxame de genes – e não um grupo de espécies – no planeta; que metade do tempo você está pensando no que está escutando; que idéias são criaturas notavelmente escorregadias que são difíceis de traçar sua origem; e que estamos realmente no mano-a-mano e todos juntos em uma dimensão que não é tão acessível e sólida como você desejaria que fosse (como Joyce comenta em Finnegan's Wake).

Os psicodélicos são o red-hot, a edição social/ética porque eles são agentes descondicionadores. Eles levantarão dúvidas se você é um rabino ortodoxo, um antropólogo marxista, ou um homem de altar porque o seu negócio é dissolver sistemas de crenças. Eles fazem isso muito bem, e depois eles deixam você com uma ferida na experiência, o que William James chamou – tomando uma experiência infantil – “uma confusão florida, barulhenta.”

Fora isso você reconstrói o mundo e precisa entender que esta reconstrução é um diálogo onde suas decisões – a projeção de sua gramática no espaço intelectual em sua frente – irá formar um gel sobre o ser. Nós todos criamos nosso próprio universo porque estamos todos operando com a nossa própria linguagem privada que são somente traduzíveis através da linguagem de outra pessoa. Há ainda um análogo físico a isto que irá promover um reforço desta noção de separação e nossa singularidade.

A imagem do mundo que se forma em seus olhos é feita de fótons. Fótons são minúsculos pacotes de luz tão próximas que podem ser pensadas como partículas. Isto significa que cada fóton que toca o fundo dos seus olhos é diferente dos fótons que tocam o fundo dos olhos de qualquer outra pessoa. Isto significa que eu me baseio em uma seção do mundo 100% diferente da imagem que qualquer um de vocês estão se baseando. E ainda estamos sentados aqui com uma suposição ingênua de que nossas imagens do mundo diferem somente pela nossa perspectiva dentro do espaço desta sala.

Temos inúmeras suposições ingênuas como esta construção do nosso pensamento. Nosso mecanismo explanatório mais venerado – tal como “ciência” - surge também como nosso mecanismo explanatório mais velho. Portanto, eles vem sendo construídos como a mais ingênua e não-examinada suposição. “Ciência”, por exemplo, podemos demolir em trinta segundos. A “ciência” diz a você um grupo de condições que criará um efeito dado, e a cada momento que o grupo de condições estiver em seu lugar o efeito será obtido. O único lugar que isto acontece é dentro de um laboratório. Nossa experiência não é assim. O contato com uma pessoa é sempre diferente. A experiência de fazer sexo, comer uma refeição, tomar um ônibus – isto penetra no ser – e torna suportável de todo jeito. A “ciência” ainda deseja dizer a você que somente o valor das coisas descritas em um fenômeno podem ser disparadamente repeditas. Isto se dá porque estes são somente os fenômenos que a ciência pode descrever, e é o nome do jogo com o qual ela se preocupa.

Mas nós temos que reivindicar nossa liberdade – tomar vantagem do abismo minúsculo entre o imenso abismo do desconhecimento; seja talvez a morte, ou reencarnação, ou transições para outras formas de vida. Estas coisas nós não sabemos ou entendemos, mas no momento que somos humanos temos a rara oportunidade de descobri-las. E eu tenho fé de que isto é possível – em algum lugar ou em algum momento. Talvez nenhum progresso seria feito até a nona hora em que a realidade pudesse ser literalmente fragmentada em pedaços, para além do ponto de reconstrução.

Existe, definitivamente, uma tendência anti humanista em todos os sistemas, Ludwig von Bertalanfe, que foi o inventor da teoria dos sistemas gerais, disse, “pessoas não são máquinas, mas em toda situação que elas tiverem a oportunidade, elas irão agir como uma.” Estamos todos caindo em padrões. Nós seguramos estes padrôes cada vez mais forte. Eles não podem ser violados; e isto acontece no nível das idéias.

Estamos agora no crista da onda da história, em um tipo de aperto que nos devolve ao passado. Espero que tenhamos chegado ao fim desta fase. Queira você comprar minha visão apocaliptica transformadora envolvendo 2012, ou queira você dizer que somente por olhar ao seu redor você tem certeza que, logo, logo, a merda vai ser atirada ao ventilador, eu acho que nós concordamos que estamos diante de um impasse. O que está para acontecer será ou um grande deslocamento da biosfera, causando uma invalidação da inteligência como uma adptação biológica e nossa extinção; ou iremos nos tornar – como James Joyce sonhou - “o homem auto governável;” em outras palavras, a exteriorização do espírito e a interiorização do corpo.

Neste processo, tudo terá de ser desafiado. Toda a noção de humanidade será desafiada. Estamos à beira da manipulação do DNA, ou de tomar controle da forma humana, de sermos capazes de extender a noção de arte para dentro do corpo humano. Somos clássicos? Deveríamos ser Adonis e Perséfone? Ou o que somos nós? Somos surrealistas? Deveria eu ser uma batata ou uma girafa em chamas? Estas são questões que terão de ser enfrentadas. Eu sorrio enquanto falo isto, mas estas questões são importantes.

E a noção de ganho vertical que vemos nas metáforas feitas em relação à experiência psicodélica: expansão da consciência, ficar chapado (getting high - a tradução seria “elevar-se”), viagem psicodélica, vôo xamânico. É como se os alucinógenos fossem o feminino, o software, o formador, o cabo condutor do que está ocorrendo. Seguindo por trás vem o hardware, a mentalidade construtora masculina.

Isto irá continuar até que o cabo condutor das longas distâncias da engenharia contrutora se rompa. Esta é a crença xamânica: que nós podemos encontrar uma maneira de usar químicos em nossos corpos, usar nossas vozes, nossos pensamentos e nossas mãos por sobre nós e sobre os outros; para tranformar nós mesmos sem nenhuma tecnologia; para nos movermos no reino da imaginação com uma tecnologia psicofarmacológica interiorizada que nos liberte dentro da nossa imaginação.

Ao mesmo tempo isto está acontecendo com a mentalidade construtora masculina, que irá colocar sociedades humanas na órbita da terra/lua e em planetas próximos. Mas há um porém para a mentalidade construtora, que é um vácuo que envolve os planetas e exemplifica este abismo e o elemento feminino. É o mistério da Mama matrix de Finnegan's Wake. A misteriosa Mama matrix é o universo, e não há como escapar deste fato. Mas eu penso que a mentalidade construtora, que irá tentar transformar o homem em suas máquinas será desestabilizada pelos psicodélicos, pelo pensamento voltado ao planeta, pelo lado voltado à imaginação de nossa consciência, que irá criar as bases para o casamento espiritual que será a incubação química de um novo formato da humanidade; e isto não está longe.

Não pode estar longe. Esta é uma responsabilidade inerente a todos nós que nos faz criá-la. Há uma obrigação definida para examinar as possibilidades de ação, e para pensar claramente sobre si e sobre o outro, sobre a linguagem e o mundo, sobre o passado e o presente. Por muito tempo nós vivemos em um mundo definido pela geografia. Se você nasceu na Índia, você achará que o cosmos é de uma maneira. Se você nasceu no Brooklyn, você achará de outra. Precisamos transcender estas grades do destino biológico, que nos torna aquilo que nós não queremos ser. Nós podemos clamar por este nível mais alto de liberdade através do simples ato de prestar atenção à existência.

Precisamos começar a exprimir nossas visões ideológicas antes que sejamos consumidores das próprias. Precisamos desligar a nossa TV interna que nos puxa para as suposições culturais ditadas pelo Pentágono, Madison Avenue, e pelo estado corporativo. Precisamos, ao invés disso, ligar nossos modems e começar a interagir como pessoas dotadas de mentalidade pelo mundo afora e estabelecer esta nova ordem intelectual que será a salvação da biosfera, eu acredito firmemente nisto. A internet finalmente concretiza nossa coletividade permitindo que pessoas sintam a interrelação de seus destinos; sentem a interrelação como uma coisa que transcende divisões nacionais, divisões ideológicas. A net permite que cada um de nós recupere a experiência de ser parte de uma família humana.

Nenhuma reconstrução de sociedade pode ser feita sem psicodélicos porquê nós perambulamos durante muito tempo sem eles. Certamente somos produtos de uma sociedade que foi longe demais sem psicodélicos como nenhuma outra cultura no mundo. Isto foi há dois mil anos desde que o Mistério foi real em Eleusis e nestes dois mil anos perambulamos longe na disfunção e na confusão. Mas nós somos filhos pródigos. Podemos reparar a idéia de xamanismo a partir do êxtase social pré-tecnológico e projetá-lo, aperfeiçoá-lo e viajar com ela para além das estrelas.

E se não fizermos, tudo estará perdido. Há somente riscos e comprometimentos nestas aspirações milenares e nestas metas culturais, metas que têm o potencial de restaurar o significado e a direção para nossa civilização. Se isto não for feito iremos fragmentar nossa oportunidade e deixar o horror e a destruição do típico cenário futuro.


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Anarquicamente copiado de:
FORTE, Robert. Entheogens And The Future Of Religion. San Francisco, CSP, 1997.

Humildemente traduzido por:
Waver

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Versão copyleft – idéias não têm dono. Espalhe a palavra.