quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007


Parem de colocar bonecos no mundo! Essa porra já está muito cheia, cambada de éguas parideiras! Daqui a dez, quinze anos, trabalharemos para pagar a água que consumirmos. É uma atitude definitivamente egoísta gerar uma criatura para viver num mundo como este.

Medo


As vezes penso no Homem como uma espécie intermediária. Certas características nossas eram importantes enquanto vivíamos nas selvas. O medo era importante, pois nos impelia à luta ou fuga contra predadores, por exemplo. Talvez o sucesso de nossa espécie se deva justamente ao excesso de medo. Ele nos fez nos organizarmos em grupo, pois assim era mais difícil sermos predados. Ele nos impeliu a criar ferramentas para nos defendermos. Ele nos impeliu a tentar controlar a Natureza de todas as formas possíveis, por necessidade de segurança, contra enchentes, ventos, frio. Ele nos levou à agricultura, para que pudéssemos ficar seguros quanto à obtenção de alimento. Ótimo. Mas, eis que eliminamos praticamente todos os problemas que nos levavam a ter medo. Apenas o medo da morte continua presente para alguns, pois ainda não a vencemos. Mas as feras, as intempéries climáticas, a fome e a maioria das pestes desapareceram. Porém, o medo continua dentro de nós. Temos medo das coisas mais idiotas, escuro, baratas, sociofobias, medo de espaços abertos, fechados, medo de altura, medo de trovoadas, medo de escada rolante, de elevador, de inveja... enfim... E o medo detona o mecanismo de luta e fuga, por liberar adrenalina, e somos impelidos quimicamente a fazer uma dessas duas coisas frente à essa reação. Alguns tem o impulso primevo de fugir. Porém, outros tem ganas de lutar. E essas descargas de adrenalina que sofremos quase todos os dias, vão se acumulando em forma de uma tensão raivosa que justamente por ser totalmente irracional, é inaceitável até para os indivíduos que as sentem. E sentimos medo o tempo todo, se pensamos em ficar pobres, se pensamos em alguma doença, se pensamos no oculto, se pensamos em perdas de entes queridos. O medo é uma emoção que conseguimos 'fabricar', mesmo que nunca se tenha passado pela experiência direta. Pensamos em algo que tememos e nossas mãos suam, os batimentos se aceleram... Reagimos fisicamente à uma fantasia! Quem dera fosse assim quando eu imaginasse orgasmos.

Mas o que fazemos então? Damos sentido pro subproduto do medo, a raiva. Fazendo guerra. Entramos em conflito, simplesmente pela necessidade de dar vazão à essa pulsão agressiva. Então, penso que, ainda não deu 'tempo' pra que a nossa inteligência evolutiva perceba que não precisa detonar certos mecanismos de sobrevivência a todo momento, pois não precisamos mais deles. Talvez um rebalanceamento na produção de alguns neurotransmissores, não uma mudança na estrutura em si, no hardware, mas no software (padrão cerebral) que opera a máquina (cérebro).

Perder essa tendência para o temor seria um passo na evolução do Homem, como espécie. O medo nos faz desperdiçar energias à toa, pois sabemos que a maior parte deles é irracional. E como o medo gera uma cascata de outras reações, acabamos por perder MUITO tempo com a irracionalidade, pois a sensação está lá, é real, ainda que o motivo não seja. Então, direcionamos esse fluxo de energia involuntária detonada pelo medo para qualquer criação mental que faça algum sentido, pelo menos naquele momento, para nós. Geralmente, após passar por uma situação de temor, sobrevém a raiva, faz parte do mecanismo, é natural (precisamos do reflexo da raiva para nos dar ânimo para a luta). O resultado é esse que vemos: estamos todos com raiva, o tempo todo. Qualquer coisa, qualquer pequeno evento detona o reflexo, porque também sentimos medo o tempo todo.

No fim, seguindo esse raciocínio, o motivo do nosso sucesso é o que vai nos levar à nossa queda final...