terça-feira, 6 de março de 2007

Baile Funk

Em época de boa safra, os insights chovem. Vindos de sei lá onde. Da Terra de Alice talvez.

Eu odeio funk. Odeio tudo que o funk representa, mais que o ritmo em si. O "movimento" é que considero idiota e, pior de tudo, idiotizante. Porém, não sou contra os bailes funk.
Qualquer um que ouça este tipo de música, desprovido de preconceitos, ou seja, apenas sentindo o efeito do ritmo sobre si, concorda que a batida primal instiga instintos igualmente primais, tais como agressividade e excitação sexual, intimamente ligados por serem fatores chave para o sucesso de qualquer espécie. Jung os considerava componentes de uma parte da psiquê chamada Sombra, onde reside todo nosso lixo moral, escondido do consciente, e também estes instintos mais básicos. Nesse raciocínio há toda uma lógica: Se satisfize
rmos certos instintos, estaremos vez por outra ferindo a moral que admitimos para nós.

Nos primórdios dos bailes funk do Rio, há cerca de 10 - 15 anos atrás, o que movia as pessoas à estas reuniões tribais era o desejo de liberar ali seus instintos agressivos. As letras das músicas falavam sobre brigas entre galeras, os 'irmão' e os 'alemão', armas e coisas do gênero.

Fui uma vez, quando tinha uns 17 anos, ao baile do Country Club da Praça. Este era considerado um dos mais perigosos, havia a certeza de presenciar uma 'porradaria'. Como sempre me senti estrangeira nessa terra (no próprio planeta), me interessei por experimentar a coisa in loco não pelo gosto pela violência, que a mim provoca reação semelhante à de Alex DeLarge depois do tratamento, mas pela curiosidade do 'gringo'. Frequentemente vejo turistas estrangeiros se encantando com coisas totalmente descabidas, e entendo que isso se dá justamente por eles não-pertencerem. Não pertencerem àquele ambiente, àquela cultura... Apenas experienciam, mas não tomam para si. Vivem mas não se envolvem.

Voltando ao assunto (e minhas digressões são deliciosamente irritantes para mim), neste baile se dava a seguinte cena: Os 'irmão' de um lado, os 'alemão' de outro. Bem no meio da quadra, algo semelhante à um corredor polonês. Homens se encarando. Tensão. O baile corre, o ritmo pesa, o álcool desce, mandíbulas trincam. Uma arena, um combate medieval. Os soldados esperam só um comando. De repente, um kamikaze se joga contra a parede humana inimiga, no melhor estilo jackass, desferindo golpes ale
atoriamente, e consequentemente é massacrado pelo lado oposto. É o sinal. Começa o show.
Nos arredores, tudo calmo. A confusão termina da mesma maneira que começou.

Após uma temporada, deu-se início um movimento de repressão à violência, movido pela sociedade, preocupada com a segurança de seus jovens... Bom, só esqueceram que eles estavam ali por vontade! Continuam animais, necessitam dar vazão à seus instintos. Arenas modernas, a sociedade precisa delas, são válvulas de escape pro impulso agressivo presente em maior ou menor grau nos indivíduos. Mas como os caga-regras ou são muito burros ou muito hipócritas (um misto dos dois?), a repressão à estes pobres primatas gladiadores, que afinal de contas estavam dispostos a bater somente em quem estava disposto a apanhar, ficou mais forte e fechou o cerco.


Os bailes começaram a ficar escassos, pois perderam a graça. Entretanto, há uns cinco anos, voltaram a se tornar populares. O ritmo é o mesmo, mas o tema...

Ritmo, batida, instinto, força, poder, raiva... não raiva não pode... instinto, instinto... o quê?...
Sexo!
A incitação à violência foi substituí
da por excitação sexual. As letras de outrora que eram tais como:
"
Vem um de AR15 e outro de 12 na mão
Vem mais um de pistola e outro com 2oitão
Um vai de URU na frente, escotando o camburão
Tem mais dois na retaguarda mas tão de "crock" na mão
Amigos que eu não esqueço, nem deixo pra depois
Lá vem dois irmãozinho, de 762
Dando tiro pro alto, só pra fazer teste
De ina-ingratek pistouse ou de ishert
É que eles são bandido ruim, e ninguém trabalha
De AK47 e na outra mão a metralha
Esse rap é maneiro, eu digo pra vocês
Quem é aqueles cara, de M16
A vizinhaça dessa massa, já diz que não agüenta
Nas entradas da favela,já tem ponto 50
E se tu toma um pá, será que você grita
Seja de ponto 50 ou então de ponto 30
Mas se for Alemão, eu não deixo pra amanhã
Acabo com o safado dou-lhe um tiro de pazã
Porque esses Alemão, são tudo safado
Vem carro chavelha dá 2 tiro e sai voado
E se não for de revolver, eu quebro na porrada
E finalizo o rap detonando de granada"


Foram substituídas por:
"No melô que tá na moda, com seu gato eu vou meter
Te boto de quatro, de lado, por trás, mete tudo eu vou gemer
O tempo já é moderno, e sexo tem que variar
Se eles quer que você mame, manda eles te chupar
Canguro Perneta, de quatro, de lado, linguinha na bu.....

As popozudas da 'De Deus' quando pega esquartela
Quando manda, dominado, demorou bota o restante
Quando manda uma caricia, ah se for uma delicia!
Sem neurose!
Goza na boca, goza na cara, goza onde quiser
Bota na boca, bota na cara, bota onde quiser

Então, discutir
Motel com hidromassagem
Tirar onda para elas é viver de sacanagem
O gatinho até gosta, mas tu sabe como é
Mas se ele paga o motel, ela faz o que eles quer
Então de quatro, de lado, na tcheca e na boquinha
Depois vem pra favela, toda fresquinha e assadinha

Abre as pernas, mete a língua
Já viu como é que faz
Tira a camisa, bota-tira, entra e sai

Uhh tá na moda, eu mandei mamar na horta
Eu mandei mamar na horta, você falou que não
Agora, sua safada, você vai mamar no chão"

Gostaria de dar minhas congratulações ao dono da estratégia. Um autêntico filho da puta!