sexta-feira, 11 de maio de 2007

Tome Partido

Esse não é meu. Pertence à Felipe Malta e consta, entre outras pérolas, do blog dele, o Em 76 , o qual vale a pena dar uma boa olhada.

Tome Partido

O mundo é injusto
Nosso país é injusto
A cidade nossa também
Seu bairro provavelmente
Sua residência talvez
Mudanças podem,
E devem ser começadas
Pequenas,
Mas primeiras.
Mudanças,
Que ninguém pode fazer por ti,
Pois são internas,
São em nossa postura
No modo de encarar a vida
Primeiro descubra,
O que de fato
Importante é para ti
Depois para tua residência,
Em seguida teu bairro,
Tua cidade,
Teu país,
Teu planeta.
Tome partido!
Neutralidade ajuda o opressor,
Nunca a vítima
Silêncio encoraja o torturador,
Nunca o torturado
Não reclame,
Se organize
E Aja!
A força para mudanças
Está bem ai
Dentro de ti.

Liberdade? Até onde?

Estive lendo por estes dias um livro muito bom do Huxley, chamado "A Situação Humana". Vivo querendo achar uma saída, um meio de fazer com que o mundo se torne um lugar agradável de viver, onde os seres humanos se relacionem em paz entre si e com o meio ambiente. O querido e saudoso Aldous tem me sido de grande valia nas minhas divagações utópicas sobre essa questão.
Bem, primeiramente, acredito que para que a mudança ocorra, tem de haver uma grande quebra de conceitos e do sistema. Conceitos fortemente arraigados, aqueles que temos em nosso interior, fundidos à nossa personalidade de forma tão intensa que nem os percebemos, são bem difíceis de serem quebrados. Creio que há duas formas de fazê-lo:

- Contando com fatores externos tais como guerras e cataclismas;
- Com drogas.

Guerras, peste e desastres naturais são capazes de levar os seres humanos à situações de crise. A crise geralmente age como uma 'picareta mental'. Nestes momentos (de crise) é que paramos para refletir sobre a vida, sobre nós mesmos, sobre o mundo em que vivemos, as pessoas que nos rodeiam, nossos interesses e a validade deles. Geralmente os seres humanos só param para refletir nestes momentos. Quando tudo está bem, não há porque levantar certos questionamentos.

Já pelo caminho das drogas, o que ocorre é que através do mecanismo de perda do ego, passamos por momentos de ausência total de conceitos pré-estabelecidos. Zeramos o contador, é como se estivéssemos enxergando o mundo pela primeira vez novamente, como bebês.
Gostaria de deixar claro que quando digo 'drogas', não estou me referindo à todas as classes das mesmas, mas sim às alucinógenas, ou, segundo o neologismo mais apropriado: enteógenos. Drogas como cocaína e álcool só fazem reforçar o ego, e deixam o indivíduo cada vez mais cego.

Uma coisa que me intriga bastante é o fato dos alucinógenos constarem na portaria 344. Escrevi sobre isso na conclusão da minha monografia:

"...Pioneiramente, o consumo desta substância foi proibido pelos Estados Unidos, e a psilocibina consta na lista de substâncias controladas deste país, fazendo parte da Convenção de Substâncias Psicotrópicas, mais especificamente de sua “Lista I” (a mais restritiva das listas) ou “Schedule I”, como é denominada nos EUA, sob a justificativa de se tratar de uma droga de abuso em potencial. A exemplo dos americanos, a psilocibina também consta da legislação brasileira sob as mesmas condições, listada na Portaria 344 de 12 de maio de 1998, fazendo parte da “Lista F2 – Substâncias Psicotrópicas”. Segundo a Portaria 344 a definição de psicotrópico seria: “Substância que pode provocar dependência física ou psíquica e relacionada” (DOU–19/05/1998). Entretanto, segundo a legislação nacional, apenas o porte desta substância isolada é proscrito, pois nenhum dos cogumelos pertencentes aos gêneros que contêm psilocibina, são mencionados na lista de plantas entorpecentes ou psicotrópicas, constante na mesma portaria.

Todavia, uma característica intrínseca não só à psilocibina, como a todos os alucinógenos, é o fato de não produzirem dependência ou compulsão. Muito embora o uso da psilocibina gere tolerância rapidamente, esta tolerância não possui o perfil de reforço, pois independente da quantidade administrada, após a diminuição da expressão de receptores frente à excessiva exposição à esta substância, esta não é mais capaz de produzir seus efeitos até que a expressão dos receptores seja restabelecida (NICHOLS, 2004). Este dado, aliado ao fato de que o consumo de psilocibina não gera dependência, em conjunto formam evidências que provam que esta substância não se enquadra no perfil de “droga de abuso”. Embora muitos usuários utilizem os cogumelos que contêm esta substância como droga recreativa, este fenômeno não é motivação para sua proibição, pois alguns indivíduos utilizam o álcool para o mesmo fim, e o uso deste último não é proscrito. Contudo, o controle sobre o uso desta substância é praticamente impossível de ser feito, pois os fungos que a detém podem ser livremente encontrados na Natureza, então, esta proibição só traz prejuízos à área de estudos e pesquisas clínicas oficiais..."

Gostaria de enfatizar mais uma vez este ponto: Os alucinógenos (cogumelos, LSD, DMT, LSA) não são capazes de gerar dependência. Qualquer artigo científico de internet confirma isso, nem é necessário procurar muito. Então, fico me perguntando, qual seria a motivação por trás desta proibição? Com certeza não é preocupação com a saúde dos usuários. Se assim fosse, teriam que proibir o açúcar, as comidas gordurosas, o cigarro e o álcool. Fora isso, ainda que haja a preocupação genuína com a saúde de alguém, como fica a questão da liberdade pessoal de cada um? Ora, a única coisa que realmente possuo nesta vida... É minha própria vida! Com
o alguém pode achar tem o poder de decidir o que faço ou não com o meu corpo e com a minha mente? Isso é democracia? Somos livres?

Vou deixar aqui uma hipótese para tal proibição. Pode ser que a verdade não seja esta, porém, enquanto ninguém vem à público para se explicar usando de uma lógica que não ofenda minha inteligência, é nela que acredito: Se todos começarem a usar alucinógenos, o sistema vai ruir. Não porque os usuários destas substâncias se transformem em vagabundos absolutos, mas
porque passam a ter outras prioridades que não carro do ano, roupinha de marca, jóias, um salário astronômico ou qualquer outro tipo de ostentação material. A tendência de quem 'acorda' com os enteógenos, é parar de consumir besteiras, e são besteiras sem importância que o sistema tenta nos empurrar goela abaixo a todo instante, através da mídia que tenta nos fazer crer que só seremos felizes e aceitos se tivermos isto ou aquilo. Outro dia vi uma propaganda de liquidificador em que o anunciante prometia, através da aquisição do mesmo, uma 'mudança de vida'. Nossa... Vamos dar liquidificadores para todos os infelizes do mundo! Foi descoberta a cura da depressão!

Se o consumismo impulsiona o sistema, logicamente, quem lucra com isso (e com certeza quem lucra com isso não é o povo) não tem o menor interesse em quem não consome. Na verdade, morre de medo de quem não consome. Eles sabem que ignorantes são mais fáceis de manejar e manipular que quem já despertou pra inutilidade da maior parte das coisas que hoje faz parte dos sonhos de muita gente.

Outro aspecto relevante que diferencia os consumidores de enteógenos: Psiconautas se preocupam (e bastante) com o meio ambiente. Se preocupam com o lixo, com a emissão de gases, com os ecossistemas, com as florestas, com os mares. Porque, um dos poderes dos enteógenos é nos conectar com o ambiente em que vivemos. Nos faz perceber o quão pobres de vida e deprimentes são as cidades. Nos faz querer voltar aos ambientes naturais e ter uma vida auto sustentável, procurando economizar água e, de modo geral, todos os recursos naturais. Auto sustentabilidade significa diminuição de consumo. Se você obtém água através da chuva, planta legumes, verduras e frutas no quintal de casa e usa energia solar ou eólica para a manutenção de sua casa, você está deixando de dar lucro para alguém. E se ao invés de mil pessoas fazendo isso formos um milhão, tem gente que já começa a se incomodar com isso...

Ainda que você não seja usuário de enteógenos, nem tenha interesse em estados alterados de consciência, acredito que a questão da liberdade pessoal é interesse de todos. Você acha que é livre? Tem certeza? O momento é de questionar... Inclusive as supostas 'boas intenções' de quem faz o sistema rodar.


"If you are the big tree,
We are the small axe.
Sharpened to cut you down,
Ready to cut you down."