segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Virtude e o Vício


Qual seria o grande defeito do Homem? Essa questão me atormenta há muito. O que difere o Homem dos outros animais, o que o torna uma máquina tão destrutiva? Um dia acreditei que o problema estava no sistema, porém é o próprio Homem seu criador... E até o momento presente, nenhum dos sistemas aplicados às sociedades o impediu de entrar em conflito, seja ele uma guerra de grandes proporções, ou aqueles pequenos, vividos em menor escala, dentro de nossas casas, entre família e amigos.


Sabemos que os animais também brigam entre si, mas sendo o Homem muito mais que um simples animal, seria de esperar que a tomada de consciência, o desenvolvimento superior da faculdade de reflexão e da inteligência, fossem capazes de minimizar os conflitos. Mas não foi isso que ocorreu. Destruímos não só a nós mesmos com voracidade, mas também o meio ambiente que nos cerca.

Somos 6 bilhões de bombas de destruição em massa ambulantes.

O Homem é um animal muito delicado. A mãe precisa amamentar o filhote até os nove meses, sendo que ele é totalmente incapaz até, no mínimo, sete anos de idade. Não temos pêlos, nem unhas, nem caninos proeminentes, nem cascos. Não temos chifre, nem couro, nem rabo. Então, justamente por ter tomado consciência de sua fragilidade, é justo dizer que o Homem é um animal que sente mais medo que os outros? E boa parte das nossas reações de raiva são detonadas, em verdade, pelo medo.

Criamos uma selva de pedra inspirados em nossa visão do paraíso. E nos agregamos como uma medida primitiva de segurança. Era mais seguro andar em bando numa selva pré-histórica. Assim nos protegíamos dos animais selvagens.

Mas qual a ironia disso tudo! Agora a Natureza foi dominada por nós, não tememos mais as feras selvagens, os monstros, os Deuses, as chuvas ou o fogo. Tememos uns aos outros.

Nunca deveríamos ter deixado de ser nômades.

Talvez o medo incutido em nossas mentes, enraizado em nosso DNA, expresso em neurotransmissores ainda existentes em nossos cérebros, que detonam mecanismos de luta e fuga já desnecessários para quem vive em segurança seja o responsável por essa repulsa que o Homem sente por seu semelhante. O medo ainda existe dentro de nós, ainda que os motivos que o geram tenham deixado de existir.

Como somos animais pretensamente racionais, e este medo é de fundo irracional, criamos razões para ter raiva das pessoas. Precisamos dar vazão à nossa parcela animal de forma que não pareça sem razão. Sentimos o medo, ele detona a raiva ou a fuga, e esse sentimento vem ANTES do motivo "real"; partindo da premissa de que obedecemos à um modelo em que essa sensação de raiva possa fluir sem culpas.

O ambiente não é mais o inimigo. Os outros é que são.

E de fato, hoje realmente temos motivos para temer. Hoje a minha vida não vale nada para aqueles que não me conhecem. Somos tantos! Um a menos não faz a menor diferença.

Porém, toda essa explicação sobre medo e etc, também deixou de ser, à meu ver, completa. Embora eu acredite que isso também faça parte do 'bolo doido', não explica muita coisa...


Todas as espécies possuem mecanismos instintivos que aos olhos dos românticos podem parecer altruísmo. O fato é que o sucesso de uma espécie depende de atitudes 'altruístas' de seus membros, isso é estratégico. Por exemplo, o pássaro que dá o sinal aos outros de que há um predador por perto, não está sendo "bonzinho". Ele está garantindo o sucesso da espécie e se protegendo ao mesmo tempo, pois as chances dele ser abatido quando em bando são menores que quando voando só.

A ciência comprova que atitudes altruístas geram prazer nos indivíduos que a praticam. O altruísmo nada mais seria então que um egoísmo às avessas, pois o que conta no fim é a satisfação do indivíduo, nada tendo a ver com bondade ou desprendimento. Entretanto, assim como evolutivamente tendemos a evitar uma gama de sabores, pois esta nos remete à lembrança do sabor de venenos gravada na memória da espécie pelo erro milenar cometido e repetido pelos nossos antepassados pré-históricos ao provarem tais substâncias tóxicas por engano, tendemos a procurar pelo prazer pois a "inteligência das espécies" entende que precisa dar ao indivíduo uma recompensa pelo 'caminho certo' que está sendo seguido. Todas as atividades inerentes à manutenção da espécie dão prazer. O que ameaça a espécie é interpretado instintivamente com repulsa pelos indivíduos que fazem parte da mesma.

Então, penso que o altruísmo, por ser refletido em prazer, é um mecanismo NECESSÁRIO, e portanto é tão bem visto na sociedade.

Porém, como o Homem é uma criatura que se percebe como um Universo à parte, como tem sua individualidade muito marcada por essa ilusão de separação com o Todo, apartada do meio ambiente e da própria comunidade, em algum momento de sua existência ele julgou ser a sua satisfação pessoal mais importante que o bem coletivo. Isso é até normal, nem sempre nossas necessidades vão de encontro ao senso de bem-comum. Entretanto, quando isso se tornou um vício, é que nasceu a ilusão de satisfação criada pelo egoísmo. Os Homens simplesmente esqueceram que ser altruístas também dá prazer, com menor esforço inclusive, pois ninguém se recusa a receber prazer, e se o altruísta se compraz com o prazer alheio, isso é portanto sinônimo de sucesso na busca por satisfação, porque os feitos do altruísta são sempre bem recebidos.


O egoísmo é o caminho da guerra. A felicidade do egoísta é bem difícil de ser alcançada, visto que ele se preocupa apenas consigo, desconsiderando o fato de que as vezes, para obter satisfação, vai causar perdas para alguém. Ora, é óbvio que este tipo de indivíduo encontrará no seu caminho muitos sabotadores para seus planos, coisa que jamais ocorre ao altruísta.

Devemos ter metas individuais apartadas das coletivas, porém a realização de nossas metas individuais jamais deve desrespeitar outro indivíduo. Aquele que quer tudo para si, acaba por se tornar um solitário, porque ninguém consegue conviver com alguém que simplesmente julga serem as suas necessidades mais urgentes que a consideração pelo bem-estar do outro. E um Homem solitário nem sequer é Homem, pois precisamos do outro para nos conhecermos, já que o autoconhecimento, a consciência de si, de quem somos, como somos, é toda feita a partir de bases comparativas. O solitário enlouquece, por perder gradativamente seus parâmetros de mundo, à medida que se distancia do outro.

A chave que nos leva de volta ao caminho do altruísmo, perdido numa sociedade onde a satisfação instantânea e a competição são estimuladas, é se colocar no lugar do outro, em todas as nossas atitudes e decisões que não estejam ligadas apenas ao nosso destino, mas que também envolvam outros indivíduos.

Não conheço nenhum egoísta feliz. Se todos os egoístas resolverem levar à cabo seus impulsos, a Terra se transformará numa batalha de Highlanders, onde só poderá haver um no final, o dono de tudo, o dono do mundo. Isso pode ter graça durante um tempo, tempo muito curto, porque se não há ninguém para partilhar a bonança, ela rapidamente se transforma em miséria.

"Disciplina é Liberdade
Compaixão é Fortaleza
Ter Bondade é ter Coragem".