terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Párias


Os párias são os intocáveis do sistema de castas hindu. Um infeliz que nasça pária, sendo o sistema de castas fechado, vai morrer pária. São mendigos, não se pode falar com eles e também não é possível tocá-los sem ser considerado "sujo". Creio que nenhum pária gosta de ser pária. Mas ainda assim, os párias não param de parir.

Se não é possível modificar todo o sistema, que incomoda aos ocidentais pela impossibilidade da ascenção social que tanto é almejada pelos habitantes do lado de cá do mundo, e levando em conta que não deve ser nem um pouco confortável ser pária, não seria de esperar que através da conscientização de sua própria condição miserável, eles eliminassem essa casta do sistema através da não-condenação de uma vida inocente à mesma que eles levam? Se parassem de se proliferar, se mais nenhum pária nascesse, não haveria meio de inventar novos párias, e tudo iria estar terminado. No entanto...

A mesma coisa acontece aqui, no Brasil, em nossas favelas e entre os indivíduos de classes sociais menos abastadas, que não tendo dinheiro nem sequer para o próprio sustento, ainda colocam mais miseráveis no mundo, prejudicando não só os inocentes que estão a nascer como a si próprios, pois tem que dividir o pouco de que dispõe com mais outra boca (ou outras bocas, porque parece que esse povo dá cria por esporte).

Tá certo que podem argumentar que aqui há a possibilidade de ascenção através do trabalho, da educação, etc. Podem argumentar que não somos párias, que o indivíduo pode sim mudar de vida, e o que não falta é caso de Globo Repórter e do Fantástico pra rechear essas criaturas de motivações pra continuar a emprenhar. Ora, nada é impossível, nem remover montanhas nem andar sobre as águas, mas... fatos são fatos, e falam por si. Uma criança que nasça na favela, entre bandidos e marginais, sem alimentação adequada nos primeiros anos de infância para que seu cérebro desenvolva a inteligência capaz de fazer com que tenha sucesso nos estudos, vivendo em barracos minúsculos com mais um sem número de pessoas, dificilmente conseguirá ter a esperança necessária para impulsionar-lhe a tentar mudar de vida e sair desse mundo. Ou seja... Essas mães acabam por ser fábricas vivas de bandidos ou de infelizes.



Conversando com uma amiga há um tempo atrás sobre esse assunto, ela me disse que eu deveria tentar compreender essas pessoas, pois talvez elas só tivessem essa alegria no mundo. Bem, e é correto obter alegria através do sofrimento de outro ser? Ou será que essas mães não percebem o que estão fazendo? Se não percebem é porque não pensam, e o que nos difere dos animais é nossa capacidade de raciocínio e nossa consciência. Se não raciocinam, é como animais que devem ser tratadas. Não sou a favor de medidas altamente restritivas das liberdades pessoais, a História nos mostra que nenhuma ditadura jamais deu certo. Porém, acho que quem não tem nem pra si e ainda coloca mais gente no mundo, ao invés de ganhar prêmio, como essa palhaçada paternalista de bolsa-família, deveria é ter seus impostos dobrados, ou que lhes fosse cobrado algum tipo de cota, porque afinal de contas, é a saúde pública, a educação pública, enfim, toda a sociedade que vai ter que arcar com o sustento dos rebentos das acéfalas. Querem se divertir? Procurem outra coisa para brincar. Aprendam a jogar gamão.

Fora que essa necessidade urgente da maternidade é um tanto animal demais para quem se pretende humano. Necessidade de doar amor? Há muitas crianças carentes por aí precisando disso. O que as pessoas têm é medo da morte. Querem deixar uma continuidade de si mesmas no mundo. Marcar território genético. Que saco esses macacos...

No supermercado, na fila, esperando para fazer o pagamento, o menino que estava na frente vira-se e pergunta cheio de direito: "Dá pra inteirar nas minhas compras?". Definitivamente, esse é o país onde o poste mija no cachorro. RESPONSABILIDADE SOCIAL É O CARALHO! Ajudo quando estou com vontade, não porque isso é responsabilidade minha. Não tenho absolutamente obrigação nenhuma. Posso me compadecer com essa situação, mas isso não lhe dá o direito de achar que eu tenho o dever de lhe ajudar. Não tenho filhos, não vou ter. A responsabilidade é da criatura que te colocou no mundo, querido companheiro de fila. Vá se ver com ela, reclame com ela da tua barriga vazia, não com a sociedade. Existe um novo programa do governo que disponibiliza anticoncepcionais a 70 centavos em grandes redes de farmácias, e mesmo antes deste programa já existiam no mercado alguns destes medicamentos com custo inferior a 5 reais. Isso dá pra conseguir em menos de meia hora no sinal de trânsito, e creio que é bem mais barato que o custo das fraldas. No nordeste ou em áreas onde a informação e o acesso à medicamentos é muito precário, eu até perdôo. Mas no Rio de Janeiro, não é o caso. Já que a tua mãe te quis tanto, que arque com as consequências.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Reflexões Sobre o Progresso


Por Aldous Huxley

A mudança evolucionária é considerada progressiva quando direcionada à crescente independência e ao controle do meio ambiente. Assim, a história da vida em nosso planeta, definitivamente, não tem sofrido progresso regular. Formas primitivas sobreviveram quase sem modificações desde o alvorecer dessa história até o presente. O homem é o contemporâneo de organismos unicelulares que, apesar de sua quase total dependência ao meio ambiente, conseguiram sobreviver aos seus rivais mais avançados. Além do mais, muitos organismos sofreram mutações progressivas durante muito tempo, para acabar retornando a uma nova e específica espécie de dependência ao meio ambiente, como parasitas aderidos à formas mais avançadas. Finalmente, mesmo aquelas espécies que mudaram mais progressivamente estão todas, atualmente, num beco sem saída evolucionário, condenadas pelo seu alto grau de especialização a permanecer o que são ou, em sofrendo considerável série de mutações, a se extinguir pela falta de habilidade de se adaptar ao meio ambiente em suas novas formas. Existem boas razões para supor-se que todos os animais superiores existentes sejam fósseis vivos, predestinados à sobrevivência sem grandes mutações ou à extinção se as mutações se iniciarem. Exceto para a espécie humana, o progresso evolutivo parece estar no fim.

O avanço biológico, como qualquer outra espécie de mudança evolucionária, processa-se por meio de mutações, cujas consequências são herdadas. O avanço humano pode também ter se processado da mesma forma; mas, pelo menos no contexto histórico, isso não ocorreu. Além do mais, como a grande maioria das mutações é prejudicial, parece pouco provável que ocorram futuras mudanças no plasma do germe para melhorar a constituição das espécies, que são o produto de um desenvolvimento evolutivo muito longo. (Daí os enormes riscos inerentes ao uso, mesmo para finalidades pacíficas, da fissão nuclear. As mutações podem ser produzidas artificialmente pela radiação, e a maioria das mutações, como já vimos, é maléfica. Seria um castigo bem merecido para a supervaidosa
hubris do homem se o resultado final de seus esforços para dominar a natureza fosse a produção de uma raça de imbecis de lábios leporinos com seis dedos). Se tiver que ocorrer um progresso hereditário na espécie humana, será por meio de cruzamentos selecionados, como processado no aprimoramento das raças de animais domésticos. Será perfeitamente possível, dentro de alguns séculos, elevar o nível médio da inteligência humana a um ponto muito acima do atual. Que essa ampla experiência eugênica só possa ser processada sob os auspícios de uma ditadura mundial, e, se efetuada, que seus resultados se tornem socialmente desejáveis são assuntos sobre os quais só podemos especular. Enquanto isso, é necessário assinalar que as qualidades hereditárias dos povos mais civilizados do mundo estão provavelmente em processo de deterioração. Isso acontece porque pessoas fisicamente fracas e maldotadas intelectualmente têm tido oportunidade de viver melhor em condições modernas do que jamais tiveram seus antepassados em condições muito mais rigorosas então prevalecentes. O desenvolvimento humano, no curso da História, difere do desenvolvimento biológico, por uma questão não de hereditariedade, mas de tradição oral e escrita, que serviu como veículo por meio do qual as conquistas de indivíduos excepcionais passaram para seus contemporâneos e sucessores, e novas descobertas de uma geração foram transmitidas, generalizando-se na seguinte.

Muitos e diferentes critérios foram usados para medir esse desenvolvimento humano por meio da tradição, algumas vezes considerado a continuação do desenvolvimento biológico - um avanço no controle e na independência. Julgado sob esse parâmetro, o progresso alcançado nos últimos séculos por certas sessões da raça humana tem sido muito grande, mas, na verdade, não tanto como se possa imaginar. Terremotos ainda matam milhares, epidemias matam milhões, enquanto a fome, devido às secas ou inundações, à praga de insetos ou às doenças de plantas, lenta e dolorosamente, destrói dezenas de milhões. Além disso, muitas "conquistas da Natureza" inicialmente bastante aclamadas, alguns anos depois demonstraram ser bem menos espetaculares do que se pensava - assumindo mesmo o aspecto de derrota. Consideremos, por exemplo, o progresso alcançado na mais importante de todas as atividades humanas - a agricultura. Novos campos foram cultivados, permitindo colheitas que permitiram a expansão da população, mas quase subitamente, transformaram-se em pó e erosão. Novos produtos químicos para controlar insetos, vírus e fungos pareciam agir quase miraculosamente, mas somente até que a mutação e seleção natural produzissem nova linhagem de velhos inimigos. Fertilizantes artificiais permitem colheitas generosas, mas, ao mesmo tempo, matam as indispensáveis minhocas e, na opinião de crescente número de autoridades, tendem, a longo prazo, a reduzir a fertilidade do solo e diminuir as qualidades nutritivas das plantas que nele crescerem. Em nome da "eficiência", perturbamos o delicado equilíbrio da natureza; eliminando um dos fatores do mosaico ecológico ou, artificialmente, adicionando outro, conseguimos aumentar nossa produção, mas, decorridos poucos anos, a natureza ultrajada vinga-se de modo inesperado e desconcertante. E a lista pode ser aumentada indefinidamente. Os seres humanos não são tão inteligentes quanto pensam.

Mas o critério pelo qual é medido o desenvolvimento biológico não se ajusta à medição do desenvolvimento humano, pois o processo biológico é considerado exclusivamente na abrangência da espécie como um todo; é impossível pensar realisticamente sobre a humanidade sem considerar o indivíduo e a raça à qual pertence. É fácil imaginar um estado de coisas no qual a espécie humana tenha atingido seu desenvolvimento à custa dos componentes individuais, considerados como personalidades. Julgado por padrões especificamente humanos, esse desenvolvimento biológico é uma regressão a um estado inferior e subumano.

Ao enquadrar padrões para medir o progresso humano, temos que considerar os valores que, na opinião de homens e mulheres individualmente, tornam a vida digna de ser vivida. E isso, em verdade, tem sido feito por todos os teóricos do desenvolvimento humano a partir do século 17, quando a idéia começou a parecer plausível, até os dias de hoje. Durante os séculos 18 e 19, o progresso biológico reconciliou-se com o progresso humano por meio da doutrina da harmonia preestabelecida. Passou-se a considerar praticamente auto-evidente que os avanços do controle do homem sobre seu meio ambiente inevitavelmente fossem acompanhados por avanços correspondentes na felicidade individual, na moralidade pessoal e social, e na quantidade e qualidade da atividade criativa nas esferas da arte e da ciência. Aqueles que tiverem idade suficiente para ter sido educados na tradição vitoriana podem recordar (num misto de divertimento e melancolia) a hipótese básica e inquestionável daquele consolador
Weltanschauung. Comte, Spencer e Buckle expressaram o assunto em respeitável linguagem abstrata; mas a essência de seus credos era simplesmente essa: pessoas que usavam cartolas e viajavam em trens seriam incapazes de fazer a espécie de coisas que os turcos estavam fazendo com os armênios ou que nossos ancestrais europeus teriam feito uns aos outros na época das máquinas a vapor. Hoje, após duas guerras mundiais e três grandes revoluções, sabemos que não existe necessariamente correlação entre a avançada tecnologia e a avançada moralidade. Muitos primitivos, cujo controle sobre o meio ambiente era rudimentar, conseguiram ser felizes, virtuosos, e, dentro do possível, criativos. Ao contrário, membros de sociedades civilizadas, dotados de recursos tecnológicos para exercer certo controle sobre o meio ambiente, são incontestavelmente infelizes, desajustados e sem criatividade. Embora suas morais particulares sejam toleravelmente boas, seu comportamento coletivo é selvagem e até diabólico. No campo das relações internacionais, as diferenças mais marcantes entre os homens do século 20 e os antigos assírios é que os primeiros teriam métodos mais eficientes de cometer atrocidades e seriam capazes de destruir, tiranizar e escravizar em escala muito maior.

A verdade é que o avanço que o homem pode fazer na sua capacidade de controlar o meio ambiente significa meramente modificar a situação na qual, por meios não tecnológicos, indivíduos e grupos procuram fazer especificamente o aperfeiçoamento humano na criatividade, moralidade e felicidade. Assim, os trabalhadores das fábricas urbanas podem pertencer, biologicamente falando, a um grupo mais criativo que o dos camponeses; mas isso não significa que encontrem mais facilidade para ser felizes, bons e criativos. O camponês confronta-se com uma série de obstáculos e desvantagens; o trabalhador industrial com outra série, diferente; o progresso tecnológico não elimina os obstáculos; muda apenas a sua natureza. Isso é verdadeiro, mesmo nos casos em que o progresso tecnológico afeta diretamente as vidas e personalidades dos indivíduos. Por exemplo, o sanitarismo reduziu muito a incidência de doenças contagiosas, baixou o índice de mortalidade infantil e aumentou a média de duração de vida. À primeira vista, esse campo do progresso tecnológico parece ser, ao mesmo tempo, um componente do progresso humano. Mas, quando examinamos o assunto mais de perto, descobrimos que tudo o que aconteceu foram mudanças nas condições para se alcançar o aperfeiçoamento humano. Sintomáticos dessa mudança são o surgimento recente da geriatria como um ramo importante da medicina, a concessão de pensões para os idosos e o deslocamento do equilíbrio da população, em países com baixos índices de natalidade, em direção aos grupos de idade mais avançada. Graças ao sanitarismo, os idosos estão em processo de se tornar uma minoria socialmente importante, e, para eles, os problemas do progresso humano com relação à felicidade, bondade e criatividade são particularmente difíceis. Mesmo no campo médico, o progresso tecnológico nunca é igual ao progresso humano. Embora possamos afirmar, sem estar qualificados, que seria muito bom, digamos, que a malária pudesse ser abolida, o simples fato de melhorar a saúde das vítimas dessa doença não seria mais do que uma mudança nas condições em que o aperfeiçoamento humano é tentado. Os saudáveis não são necessariamente criativos, bons ou, mesmo, felizes; simplesmente tiveram melhores oportunidades para tanto que os doentes.

O avanço da tecnologia aumenta o controle do homem sobre o seu meio ambiente, e esse controle crescente é hereditário no sentido de que seus métodos são transmitidos, pela tradição, de geração a geração. Mas, como vimos, esse equivalente do progresso biológico não constitui especificamente por si só o progresso humano. Dentro dessa situação em constante mutação, criada pelo avanço da tecnologia, os homens têm que tentar alcançar o progresso especificamente humano por meios que não sejam de natureza tecnológica, isto é, mediante política e educação. A política diz respeito à organização de relações jurídicas e econômicas em uma dada sociedade, bem como essa sociedade e outras. A educação (até onde não for meramente vocacional) almeja reconciliar o indivíduo consigo mesmo, com seus companheiros, com a sociedade como um todo, com a natureza da qual ele e a sociedade são apenas uma parte, e com o espírito imanente e transcendente dentro do qual a natureza se corporifica.

A diferença entre um bom arranjo político-econômico e um arranjo ruim é simplesmente isto: o bom arranjo reduz o número de tentações perigosas a que indivíduos e grupos são expostos, enquanto o mau arranjo as multiplica. Assim, uma ditadura, mesmo bem-intencionada, é sempre ruim, porque tenta uma minoria a ceder à cobiça pelo poder, enquanto compele a maioria a agir como instrumento servil de ordens superiores. Se quisermos avaliar qualquer instituição existente ou apenas idealizada, seja política, econômica ou eclesiástica, temos que fazer sempre as mesmas perguntas básicas: que tentações cria ou pode criar, e de que tentações livra ou pode livrar? Se, forte e insistentemente, tenta os indivíduos e grupos envolvidos a se entregar a paixões reconhecidamente mortais, como orgulho, inveja, crueldade e ambição pelo poder, se força grande parte da população à hipocrisia, ao servilismo e à obediência irracional, então, ela é uma instituição indesejável. Se, ao contrário, ela dificulta o abuso de poder, se não premia a avareza, se seus dispositivos impedem a crueldade e a cobiça por um cargo, se não convida à obediência irracional, mas à cooperação inteligente e responsável, então, em face disso, o veredicto deve ser favorável.

A maioria das revoluções políticas e econômicas até agora fracassou nos resultados antecipados. Elas varreram instituições que se tornaram insustentáveis por induzir indivíduos e grupos a sucumbir à perigosas tentações. Mas as novas instituições revolucionárias levaram outros indivíduos e grupos a tentações idênticas ou tão perigosas quanto as antigas. Por exemplo, é tão certo abusarem do poder homens ricos, em virtude de sua riqueza, quanto políticos e administradores, em virtude de suas posições numa hierarquia governamental ou eclesiástica.

Mudanças políticas em larga escala são feitas principalmente no interesse de um indivíduo, partido ou classe; mas, o desejo mais ou menos sincero de alcançar o progresso humano muitas vezes fica em segundo plano. O quanto, então, essas mudanças podem alcançar o que delas se espera? Até onde pode ser atingido um avanço progressivo na felicidade, bondade e criatividade por meio de um ato parlamentar? É desnecessário falar em criatividade em níveis mais elevados. Por que um grande número de gênios aparece num período e desaparece em outro? É um grande mistério. Há uma diferença, entretanto, com relação à criatividade em seus níveis mais inferiores - como a expressada nas artes e ofícios da vida comum. É óbvio que, numa sociedade em que todos os bens domésticos são produzidos por máquinas em fábricas altamente organizadas, as artes e ofícios não florescem. A conveniência da produção em massa tem como contrapartida a diminuição da criatividade nas classes populares inferiores.

É notoriamente difícil a mensuração de bondade e felicidade. Tudo o que se pode dizer é que, dadas determinadas configurações políticas e econômicas, podem ser eliminadas algumas tentações para o mal e algumas razões de miséria. Assim, uma polícia eficiente pode diminuir as tentações para crimes de violência, e arranjos eqüitativos de distribuição de alimentos podem diminuir a miséria e a fome. Novamente, um governo paternalista pode, com legislação adequada, diminuir as misérias ligadas ao desemprego periódico. Infelizmente, a segurança econômica na sociedade industrializada foi alcançada, até agora, à custa da liberdade pessoal. As misérias da ansiedade tiveram que ser pagas pelas misérias da dependência, que, em alguns países, degeneram em servidão. Este é um mundo onde ninguém obtém nada sem pagar. Vantagens num setor tem que ser pagar por desvantagens em outro. O destino apenas vende; nunca concede, e tudo que podemos fazer é barganhar o melhor possível. Se escolhemos usar nosso inteligência e boa vontade, em vez de nossa astúcia e cobiça pelo poder, podemos fazer arranjos políticos que eliminarão muitas tentações perigosas e muitas causas de miséria sem que, no decorrer do processo, criemos novos problemas tão intoleráveis como aqueles de que nos livramos.

Enquanto isso temos que pensar que a remoção, por métodos políticos, de certas tentações e certas causas de miséria não garantirão o avanço para a bondade e a felicidade. Mesmo sob as administrações políticas e econômicas existentes, há uma pequena minoria cuja vida é próspera, segura e sem problemas. Todavia, entre esses poucos, muitos são profundamente infelizes e, ativa ou passivamente, maus! Dentro de amplos limites, bondade e felicidade independem, quase sempre, de circunstâncias externas. É verdade que uma criança faminta não pode ser feliz; e que uma criança vivendo entre criminosos dificilmente se tornará boa. Mas esses são casos extremos. As grandes massas de população vivem no meio-termo, entre os extremos da santidade e da depravação, da riqueza e da miséria. Desde que lhes seja permitido permanecer nesse meio-termo da experiência, os indivíduos podem sofrer consideráveis mudanças no seu destino sem experimentar mudanças equivalentes no vício e na virtude, na miséria e na felicidade. A vida privada é muito independente da vida pública e, até mesmo, de certa forma, das circunstâncias privadas. Certas espécies de felicidade e mesmo um determinado tipo de bondade são frutos do temperamento e da constituição. Há homens e mulheres sobre os quais se pode dizer o que foi dito, por exemplo, sobre São Boaventura: "Nascido sem o pecado original". Há crianças que nascem sem egoísmo, como aquele Pippo buono, que veio a tornar-se São Philipe Neri. E, para reunir essas virtudes inatas e gratuitas, há a alegria simples e a beatitude quase inocente.

Quatro patos numa lagoa
Uma margem relvada, além,
Um céu azul na primavera,
Nuvens brancas nas asas do vento
Que coisa pequena
Para relembrar com lágrimas -
Para relembrar durante anos!

Tal é, em grande parte, o recheio da nossa felicidade; o mesmo recheio está sempre presente, em todas as épocas e em qualquer circunstância, pública ou privada. Felicidade dessa espécie não pode ser aumentada ou diminuída por um ato do parlamento ou, mesmo, pelos nossos próprios atos e os daqueles com quem convivemos. Depende de nossa habilidade inata para reagir a certos elementos imutáveis na ordem da natureza.

A habilidade para tal reação depende, de certa forma, da idade e constituição do indivíduo. Um adolescente começando a descobrir o mundo alegra-se com uma espécie de inquieta intensidade que nunca será recaptada durante os anos de maturidade. E isso nos leva a um ponto muito importante: o fato de a vida humana não ser de natureza progressiva, mas atingir um auge, e, que se estabiliza um pouco no plano da maturidade, declinando depois para a velhice, a decrepitude e morte. A literatura universal esbanja lamentações sobre a inevitável regressão da vida e o impossível resgate da felicidade da juventude. Para um ancião que sobreviveu a seus contemporâneos e está declinando para uma segunda infância, é absurdo o discurso sobre a marcha tanto biológica quanto do aperfeiçoamento humano. Em si próprio, ele só pode experimentar o oposto a um avanço, seja sobre maior controle do meio ambiente, seja sobre maior felicidade, bondade e criatividade. Em qualquer período, não importando o caráter progressivo que possa oferecer a historiadores futuros, mais ou menos um terço de todos os indivíduos vivos estaria experimentando a regressão biológica e humana associada ao avanço dos anos. A velhice na era de Péricles ou Lorenzo, o magnífico, era tão triste e tão anti progressiva quanto era na era de Abdul-Ha-Mid ou Chilperich. Na verdade, os anciãos só conseguem equilibrar-se na bondade, porque, com o desenrolar da vida, muitos vícios perdem sua atração; mas lhes é difícil manter o avanço na felicidade e criatividade. Se tais progressos especificamente humanos são sempre mantidos ao longo de um período considerável, é devido à sucessão de indivíduos jovens e maduros cujas próprias vidas ainda estão em fase progressiva.

Os historiadores, quando descrevem uma determinada era como progressiva, nunca se preocupam em nos dizer precisamente quem experimenta o progresso em causa nem como ele é experimentado. Por exemplo, todos os historiadores modernos concordam que o século 13 foi um período progressivo. Entretanto, os moralistas que viveram durante o século 13 foram unânimes em lamentar a decadência de seu tempo. E, quando lemos um documento como a
Crônica de Salimbene, ficamos imaginando em que extensão as conclusões tiradas da santidade de São Francisco, da arquitetura das catedrais góticas, da filosofia de São Tomás e da poesia de Dante seriam relevantes para as vidas embrutecidas e totalmente pecaminosas das grandes multidões. Se a era foi de fato progressiva, quem experimentou esse progresso? Se a maioria das pessoas daquela época fracassou ao experimentar a natureza do progresso humano ou biológica, seria justificável denominá-la progressiva? Ou seria genuinamente progressiva apenas porque futuros historiadores, utilizando padrões feitos a seu próprio critério, assim a julgaram?

Na longa história da mutação evolucionária, o progresso biológico tem sido confinado às classes superiores da população vegetal e animal. Da mesma forma, pode ser que o progresso especificamente humano seja um privilégio dos excepcionalmente afortunados e dotados. Assim, enquanto o drama elizabetano estava progredindo de Kyd a Shakespeare, um grande número de camponeses totalmente abandonados sofria de extrema desnutrição, e a incidência de escorbuto e raquitismo crescia continuamente. Em outras palavras, havia progresso humano para uns poucos em determinadas situações, mas, em outras e entre os totalmente abandonados, havia regressão biológica e humana. Entretanto, ainda hoje, consideramos a era elizabetana de domínio do progresso.

A experiência do progresso tecnológico e, mesmo, humano raramente é contínua e duradoura. Os seres humanos tem enorme capacidade para acreditar em tudo. Em poucos meses, mesmo em poucos dias, um "dispositivo" recentemente inventado ou os novos privilégios políticos ou econômicos chegam a ser considerados como parte da ordem natural das coisas. Quando alcançado, um objetivo longamente almejado torna-se lugar-comum. Não gastamos nosso tempo comparando a felicidade presente com a miséria do passado; em vez disso, nós aceitamos como um direito nosso e nos tornamos amargamente ressentidos se formos, mesmo temporariamente, privados dela. Nossas mentes, sendo o que são, não nos permitem experimentar o progresso continuamente, mas apenas aos trancos e barrancos durante as primeiras fases de qualquer novo avanço.

Da política como um meio para o progresso humano, passemos à educação. O assunto é quase ilimitado; mas, felizmente, nesse contexto determinado, somente um aspecto é relevante. Pois, uma vez que não dependem de temperamento ou do acaso, a felicidade, a bondade e a criatividade são produtos da filosofia de vida individual. Somos o que acreditamos ser, e isso depende do que nos foi ensinado - por nossos pais e professores, pelos livros e jornais que lemos, pelas tradições, claramente formuladas ou apenas balbuciadas, das organizações econômicas, políticas e eclesiásticas a que pertencemos. Para haver genuíno progresso humano, a felicidade, a bondade e a criatividade devem ser mantidas por indivíduos de gerações sucessivas ao longo de todo um período de vidas que são de natureza não progressiva e sob circunstâncias muitas vezes desfavoráveis. Das básicas filosofias de vida que podem ser impostas ao indivíduo ou que ele possa escolher para si, algumas seriam favoráveis à manutenção da felicidade, da bondade e da criatividade; outras, abertamente contrárias.

O hedonismo, por exemplo, é uma filosofia inadequada. Nossa natureza e o mundo são tais que, se fizermos da felicidade nossa meta, nunca a alcançaremos. A filosofia implícita na moderna propaganda (a fonte de onde milhões agora obtém sua
Weltanschauung) é uma forma especial de hedonismo. A felicidade, nos ensinam os publicitários, deve ser perseguida como um fim em si mesma; e não existe felicidade exceto a que nos chega vinda de fora, como consequência da aquisição dos produtos da avançada tecnologia. Assim, o hedonismo está ligado à fé do século 19 de que o progresso tecnológico é necessariamente correlacionado ao progresso humano. Se as meias de raion lhe trazem felicidade, quão mais feliz a tornarão as de náilon, produto de tecnologia muito mais avançada! Infelizmente a mente humana não trabalha dessa maneira. Consequentemente, aqueles que consciente ou inconscientemente aceitam a filosofia oferecida pelos publicitários, achando difícil manter até apenas a felicidade, deixam de lado a bondade ou a criatividade.

As filosofias políticas mais adequadas são as que, para milhões de nossos contemporâneos, substituíram as religiões tradicionais. Nessa filosofias políticas, intenso nacionalismo combina-se com a teoria do Estado em um sistema de economia. Aqueles que aceitam essas filosofias, por vontade própria ou porque são submetidos desde a infância a uma ininterrupta propaganda, são induzidos, em muitos casos, a levar uma vida de devoção à causa nacional e ideológica. Assim, conseguem atingir e manter uma espécie de felicidade e bondade. Infelizmente, elevada moralidade pessoal é muitas vezes, associada à mais atroz perversidade pública; pois a nação e o partido são divindades a cujo serviço o devoto é livre para fazer qualquer coisa, mesmo abominável, que propicie o avanço da causa sagrada. E mesmo a felicidade advinda do serviço a uma causa maior do que nós mesmos pode tornar-se, nesses casos, precária, pois, quando são utilizados meios escusos para se atingir um fim valioso, o objetivo realmente alcançado nunca é o alvo bom proposto originalmente, mas apenas as consequencias inevitáveis do uso de meios escusos. por essa razão, a felicidade advinda da auto dedicação a tais causas políticas sempre tem que ser temperada pelo desapontamento surgido do fracasso crônico no cumprimento do tão esperado ideal.

Nas religiões devocionais, como certas formas de cristianismo, hinduísmo e budismo, a causa que o fiel se dedica é sobrenatural, e a plena realização de seu ideal não está "neste mundo". Consequentemente, seus seguidores tem melhor oportunidade de sustentar a felicidade e, exceto onde seitas rivais lutem pelo poder, são menos tentados à imoralidade pública do que os devotos das religiões políticas.

O estoicismo antecedeu os estóicos e sobreviveu-lhes. É o nome que damos à tentativa dos homens no sentido de alcançarem a independência ou o controle sobre o meio ambiente por meios psicológicos mais do que pela mutação e seleção ou, no nível humano, pela tecnologia gradativamente mais eficiente. Por depender principalmente da vontade superficial e porque, por mais poderosa e bem-treinada que essa vontade possa ser não é uma aliança circunstancial, o estóico puro nunca cumpre completamente seu ideal de felicidade na independência nem de bondade no desapego voluntário.


Os objetivos do estoicismo são plenamente alcançados não pelos estóicos, mas por aqueles que, pela contemplação ou devoção, se colocam abertos à
graça, ao Logos, ao Tao, ao Atma-Brahma, à Luz Interior. O progresso especificamente humano na felicidade, bondade e criatividade, e o equivalente psicológico do progresso biológico na independência e controle, são mais completamente alcançados na busca humana do objetivo último. Visando à realização do eterno é que somos capazes de fazer o melhor - e o melhor é o progresso contínuo - de nossa vida temporal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ventriloquismo


Guardo no fundo do peito a esperança de que um dia as marionetes se libertem do jugo dos ventríloquos e passem a pensar por si mesmas...
Mas, qual nada!
Não perca seu tempo, Fernanda!
Elas são marionetes justamente porque são todas umas cabeças-ocas e o máximo que conseguem é ecoar verdades alheias por aí.
Continua tudo sempre igual, desde que o mundo é mundo.
Uns pensam, outros ruminam.
Enfim, já dizia Huxley, é possível deixar as pessoas contentes com a servidão, principalmente se tiverem QI de delta...
Uma salva de palmas aos ventríloquos, se é que merecem, dada a facilidade do seu trabalho.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Silent Lucidity


Silent Lucidity
Queensryche

Hush now, don't you cry
Wipe away the teardrop from your eye
You're lying safe in bed
It was all a bad dream
Spinning in your head
Your mind tricked you to feel the pain
Of someone close to you leaving the game of life
So here it is, another chance
Wide awake you face the day
Your dream is over... or has it just begun?

There's a place I like to hide
A doorway that I run through in the night
Relax child, you were there
But only didn't realize it and you were scared
It's a place where you will learn
To face your fears, retrace the years
And ride the whims of your mind
Commanding in another world
Suddenly you hear and see
This magic new dimension

I will be watching over you
I am gonna help you see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you, in Silent Lucidity


[Visualize your dream]
[Record it in the present tense]
[Put it into a permanent form]
[If you persist in your efforts]
[You can achieve dream control]
[Dream control]
[How's that then, better?]
[Hug me]

If you open your mind for me
You won't rely on open eyes to see
The walls you built within
Come tumbling down, and a new world will begin
Living twice at once you learn
You're safe from the pain in the dream domain
A soul set free to fly
A round trip journey in your head
Master of illusion, can you realize
Your dream's alive, you can be the guide but...

I will be watching over you
I am gonna help to see it through
I will protect you in the night
I am smiling next to you....

http://www.youtube.com/watch?v=40epG4cB4zg

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

"Mas o pensamento é escravo da vida, e a vida, um joguete do tempo.
E o tempo, que tem a visão do mundo inteiro
Tem que parar"
Henrique IV - William Shakespeare

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

A Porta

Já ganhei esse presente há tempo, mas nunca deixo de me sentir agradecida por ele. E é sempre bom recordar e sentir de novo o carinho e o apoio de um amigo tão querido e incondicional. Fê, tu é uma das luzes que me acompanha e ilumina as noites da minha caminhada. Obrigada.

A Porta

Grande parcela de ti
Se encontra aqui
E sei, que muita minha,

Na vida
Muito contigo aprendi
Amei,
Ri,
Briguei,
Sumi.
Vejo hoje
Graças, vejo-te
E que,
Em outras fontes bebeu,
O questinamento que imenso era,
Agora atinge o infinito, quase.
Isso perturba e dói
Renovados sentimentos
O que bom não era,
No passado ficou
O sorriso encantado
Raro agora é,
É por ti sonhado
Eu sei,
Eu vi.
Amo!
Ei, Você!
Que lê,
E boas palavras têm
"Que não engole pílulas,
Mas toma vitamina C"
Que filha de vó foi,
E como eu valoriza
Que pela inteligência,
Pressa há
Poderia deixar que,
Os porteiros cegos do lugar,
Abrissem as portas
Sua Imaginação espetacular
Hoje,
Poderia te levar distâncias maiores
Não crê,
Mas é.
http://em76.blogspot.com/2006/12/porta_13.html

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Eros, Ágape e Philos


"A Casa
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos bobos, número zero"
Vinícius de Morais


Pisciana até a raiz dos cabelos, estou acostumada a me apaixonar a todo instante. Por pessoas, por animais, por causas. Obviamente, se são muitos os objetos de paixão em relação à perspectiva temporal, igualmente numerosa é a quantidade de paixões que não me são correspondidas. Nada demais. Desde a pré adolescência estou habituada a passar por isso.

O tipo de amor que leva à paixão é Eros. Mas sendo ele a representação mais carnal do amor, pode e deve transcender este estágio, afim de alcançar formas mais puras de sentimento.

Não é fácil encarar a dor de amar só de um lado, não exatamente pelo sentimento em si, mas por tudo que se é privado de viver, quando nessa situação. Eros exige contato físico em alta intensidade, e a não-correspondência impede que isso se realize, deixando pra trás (e conosco) a sensação de estarmos incompletos (além de rejeitados).

Porém, a não correspondência não precisa vir acompanhada de mágoa. É impossível agradar à todos, e isso é algo bem compreensível. Em contrapartida, praticamente todo mundo já esteve inúmeras vezes na situação inversa (coisa que pelo menos no meu caso não é nada confortável de viver), ou seja, já foi alvo de alguma paixão que não correspondeu, deixando o pretendente desconsolado. Já ter estado do outro lado da moeda nos ajuda a compreender, quando somos nós que passamos pela situação-tema.

Essa compreensão é responsável pela possível transformação de Eros em Philos, o amor-amizade. Boa parte das minhas amizades advém deste contexto e sou muito grata à elas, porque essas relações sempre têm um "quê" a mais. Esse tempero extra não é nenhuma segunda intenção, aliás, é exatamente o contrário disso. É a certeza de que há o bem querer verdadeiro, que nada exige em troca.

Problemas no decorrer do percurso ocorrem quando não há clareza e sinceridade por parte de algum dos envolvidos. Embora o perfil de Eros seja arrebatador, é perfeitamente possível controlá-lo.

Em meios místicos é comum ouvir dizer que o Homem é a Criança Coroada, o Senhor da Natureza. Isso deve ser compreendido misticamente, não ao pé da letra. O Homem é o Senhor da Natureza sim, mas da própria, da interior, e o mago é um regente dos elementos no que diz respeito ao que eles simbolizam, a saber: Água - sentimentos; Fogo - emoções; Ar - intelecto; Terra - matéria.

Sendo assim, somos capazes de refrear o "fogo" de Eros, se acharmos que é preciso. Por isso, clareza e sinceridade são importantes quando nos relacionamos com outras pessoas, pois quando Eros se manifesta, se o sujeito que está sob sua influência fica ciente da impossibilidade de sua realização, logo pode se esforçar para dissipá-lo, utilizando da compreensão (ar), que faz com que o dono do Eros em questão procure se afastar fisicamente (terra), pelo tempo que achar necessário para acalmar as emoções (fogo), sem que isso influa no balanço geral do sentimento que se tem pelo outro (água), que não necessariamente precisa acabar, apenas ser reconduzido.

Entretanto, se não há clareza, as consequências podem ser desastrosas. Relacionamentos, seja de que tipo forem, sempre demandam responsabilidade por parte dos envolvidos. Podemos refrear nossos impulsos se acharmos que isso é necessário, e neste caso específico, essa necessidade só vem mediante o reconhecimento da falta de reciprocidade do outro. Se não é dado um freio nos cavalos, a tendência é que eles corram cada vez mais rápido e desordenadamente.

Se as consequências disso fossem puramente emocionais, ainda que a dor fosse grande, o problema não seria. A dor emocional é um fato mais ou menos comum à todos. Difere em intensidade, tipo, razão, mas em geral é algo que nos acompanha desde a mais tenra infância, e todos estão já um tanto acostumados a lidar com ela. O mal existe quando, por falta de franqueza daquele que não foi tocado por Eros (e não deixa isso às claras), quem está apaixonado "solta os cavalos" e acaba mudando os seus planos individuais e até mesmo o rumo da própria vida, por acreditar que o mesmo está ocorrendo com a outra parte. Daí, a dor que poderia ser vivida apenas em nível emocional se alastra para a matéria, visto que afeta o indivíduo concretamente, na sua realidade prática, pois Eros, que acreditava-se correspondido, leva o indivíduo a ter certas atitudes em relação à própria vida que não teria normalmente, não fosse pela sua pretensa certeza de correspondência.

Quando a pessoa em questão, por acaso e não por comunicado, enxerga a verdade da não-correspondência do seu amor nestes casos, há um prejuízo na qualidade do sentimento, visto que essa sensação de traição e desperdício é que produz mágoa, não a falta de sentimento do outro, afetando a possibilidade de Eros se transformar em Philos.

O amor pode sim existir e não ser correspondido, mas há uma diferença de impacto na vida de quem está amando, com relação a saber ou não da falta de reciprocidade. Esse saber prévio inibe atitudes por parte deste indivíduo com relação a como ele gerencia seu dia-a-dia, seus planos e ações, pois ele se auto-desencoraja a incluir nos seus pensamentos o objeto de sua paixão.


A paz mora em Ágape, o amor-transcendência, que nunca é direcionado à um, mas ao Todo, e que por tanta potência, reduz o restante à Nada. Imanente, onipotente, é o Amor Divino, que torna risível qualquer outro sentimento. É ele o objetivo final, e qualquer outro tipo de amor é só ensaio para esse encontro. É ele quem deveria ser o objeto da busca. Para os que ele tocaram, ou que foram tocados por ele... Tudo não passa de um piscar de olhos, perante a Eternidade.


Para o Chito. Eu te entendo. Vai dar tudo certo. Aja.



segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Ismos

Quando me tornei vegetariana, o fiz por compaixão. Um amigo me acordou pro fato de que a vida dos animais nos currais e granjas era miserável, e não quis ser mais uma a motivar, ainda que indiretamente, tamanho sofrimento. Como acontece naturalmente com todos aqueles que adotam novas posturas de vida, comecei a entrar em contato com outros vegetarianos, no intuito de trocar idéias que me fizessem enxergar estratégias de ampliação da 'rede': quanto mais de nós existissem, menos animais sofreriam. Entretanto, comecei a perceber alguns traços psicológicos bastante semelhantes entre meus novos companheiros de comportamento alimentar. Percebi que há uma relação muito forte entre o vegetarianismo e a misantropia. Então, comecei a pensar... Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Foi a consciência da dor sem culpa que o homem é capaz de causar no animal que produziu a reação misantrópica, ou será que um prévio desconforto em relação aos humanos foi o que levou essas pessoas ao vegetarianismo, como forma de expressar também em seus hábitos alimentares sua aversão humana, algo como dizer a cada refeição: 'prefiro os bichos'?


Creio que ao longo da caminhada, encontrei os dois tipos. Então, me dei conta de que os 'ismos' (religiosos, filosóficos, etc) existem não para revelar verdades, embora seja a isso que todo ismo se propõe, mas para que os indivíduos que compõem determinada classe de ismo consigam explicar a si mesmos certas tendências comportamentais próprias de uma forma que pareça lógica e 'correta' (e ainda há a vantagem para os preguiçosos: já vem tudo arrumadinho!)


Eu gostava de estudar sistemas filosóficos pois sempre os buscava na esperança de que algum deles me revelasse a verdade. Porém, ao fazer isso, vi que todos eles tem sua parcela de verdade mas igualmente de mentira. Alguns podem me parecer mais válidos que outros, mas sempre tem algum momento em que alguma parte do sistema não bate, quer seja com a minha experiência, quer seja com o meu espírito, com minha 'compleição filosófica natural'.


Hoje estudo os ismos como forma de conhecer pessoas, tipos de personalidades, não os sistemas em si, já que todos são iguais no que se refere a estar em comunhão ou afastados da verdade. Se alguém me diz que é humanista, isso pra mim quer dizer que essa pessoa é do tipo otimista, compassivo, idealista. Se alguém me diz que é adepto do niilismo, isso apenas significa que é do tipo pessimista, implacável, concreto. Nenhum dos dois está certo. Os dois estão certos. Não somos o que acreditamos. Acreditamos no que somos. Cada um adota determinada postura filosófica de acordo com a lente com a qual enxerga o mundo e não de acordo com o compromisso que determinado arranjo de idéias tem com a verdade, dado que cada um vê o mundo de uma forma, e a linha filosófica adotada por alguém será sempre um produto desta visão, que não necessariamente... reflete a verdade! No que diz respeito à escolha de posturas filosóficas que norteiem a vida, na realidade não há 'escolha', não somos livres para isso, pois estamos todos presos a nossa própria cultura pessoal. O humanista só podia ser humanista, o niilista só podia ser mesmo niilista e por aí vai...


Só há um momento na minha vida em que me sinto em contato estreito com a verdade. Quando estou sob o efeito de alucinógenos. Como eles quebram o ego, sou capaz de olhar pra uma questão qualquer, da qual tenho uma opinião formada, e entendê-la de forma totalmente diversa da que acreditava até então, porque boa parte do que acreditamos vem não só da tendência pessoal ditada pela nossa essência, mas também da nossa cultura - tanto social, proveniente do ambiente em que vivemos e do meio coletivo; quanto da cultura individual, fruto das nossas próprias experiências, que em conjunto formam um muro de concreto maciço que impede que outras perspectivas e idéias sejam capazes de penetrar através dele para serem devidamente comparadas e analisadas frente à postura previamente adotada. Nos acostumamos com o muro, achamos que o muro é a expressão da verdade, e vamos seguindo, cultuando o muro, não a verdade.


Uma das conclusões concretas que chego nesses estados, é de que a melhor filosofia, a melhor lei, o melhor direcionamento de vida que posso tomar, independente do que eu ou qualquer um possa acreditar, se resume numa frase que vovó já me falava quando eu era ainda bem pequena, e nem sonhava em tentar entender o mundo ou buscar propostas de compreensão do mesmo por aí: Agir com os outros como eu gostaria que agissem comigo ou não fazer aos outros o que eu não gostaria que fizessem comigo. Dentro dessa sentença simples, está a saída para todos os problemas humanos. Se cada um, antes de dar um passo, ou tomar qualquer atitude, parasse para refletir e se colocasse no lugar do outro perante qualquer questão, utilizando esse axioma, com certeza o mundo seria muito diferente do que é hoje. Porém, até isso pode ser colocado à prova, visto que se eu adoto essa postura e algum outro indivíduo hipotético não o faz, provavelmente eu serei lesada pelas atitudes egoístas do mesmo, e serei obrigada a revidar, olvidando então estas 'gotas de sabedoria' da vovó. Então, embora isso seja uma verdade, não é uma verdade prática, não é... uma verdade real, tangível, palpável.


Existem mentiras bem mais reais que a verdade por aí... E talvez seja por isso que a cada dia vejo mais e mais pessoas confusas quanto a existência do certo ou errado, o que faz com que a ética seja jogada no lixo, porque, se todo mundo está certo e errado dependendo do ponto de vista, tudo é permitido. E se tudo é permitido... todo mundo se afasta cada vez mais dos tais axiomas da vovó. E se a verdade não é para todos... Liberdade também não é, pois não é todo mundo que pode lidar com a própria sem trazer danos ao entorno. Disciplina e liberdade são paradoxos plenamente conciliáveis para aqueles que tem bom coração, visto que se o meu direito de ser livre traz transtornos para o meu meio ambiente, se minhas intenções são realmente boas, posso me disciplinar para não causar o mal, e só dessa forma posso alcançar a liberdade real, pois o excesso dela também restringe.


O meio, o meio... Como e difícil andar no caminho do meio.


" Duvidar de tudo ou acreditar em tudo são duas soluções igualmente cômodas : Ambas nos dispensam do trabalho de pensar. "Jules Henri Poincare - Físico e Matemático Francês.