terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Saudosismo, A Escova De Dentes E O Consumismo

"Troque sua escova dental a cada três meses". Essa é a recomendação dos dentistas, e antigamente eu até conseguia segui-la. Entretanto de uns tempos para cá, isso se tornou completamente inviável. Das duas uma: Ou eu passei a ter mão-de-chumbo e escovo os dentes com o mesmo vigor com o qual se esfrega um mármore, ou a qualidade das escovas caiu consideravelmente. E olha que só uso aquela marca "recomendada pelos dentistas"... E seja de que marca for, elas só têm durado no máximo um mês.

Lembrei da minha infância, na casa da minha avó. Tudo na minha casa era velho. Muuuuito velho. E ela não nos deixava trocar nada por coisas mais novas - pudera, que mais esperar de uma capricorniana? Eu odiava isso, morria de vergonha quando era obrigada a convidar alguém à ir na minha casa, e só o fazia se fosse por imposição mesmo, como nas reuniões de pesquisas escolares em grupo. No dia seguinte, todo mundo estava comentando que eu vivia num museu, e era sempre assim...

Acho que até 1995 ainda tínhamos TV em console de madeira, sem controle remoto, óbvio. Ela era gigante, um trambolhão. Mas a imagem era ótima, e tela daquele tamanho só depois que a era das TVs de 29 polegadas surgiu. Nunca dava problemas e só quebrou porque um de nossos gatos fez o favor de urinar nela.

O sofá era de seis lugares, coisa que nunca mais vi, nem em revista de decoração. Madeira de lei, e embora a parte exterior do estofamento estivesse desgastada, a espuma não havia perdido nem a maciez, nem esfarelado. Mas o "design" era de doer os olhos. Era feio DEMAIS.

Nosso liquidificador devia pesar uns cinco quilos. O pedestal era de ferro, e quando ligado, acho que dois quarteirões ficavam sabendo que nós o estávamos usando, dado o barulho ensurdecedor que fazia. Suplicávamos em casa pela troca, e minha avó respondia às nossas reclamações sempre com a mesma frase: "Ele tem motor alemão, vocês sabem o que isso significa?!".

O aparelho de som era daqueles revestidos de metal, com toca-fitas e toca-discos de agulha. Nunca nos deu problemas, só precisávamos trocar a agulha da vitrola vez por outra.

Ah, meu Deus... E o telefone... Dava para fazer musculação com o fone, de tanto que pesava. Tinha que apoiar o cotovelo em algum canto se quisesse conversar por mais de dez minutos e não ter cãibras.

Nos desvencilhamos dessa velharia toda aos poucos (bem depois de todo mundo), para minha felicidade. Mas o fato, só comprovado depois de um tempo (pouco tempo), é que todas essas coisas antigas eram realmente muito feias, pesadas, ocupavam grande espaço mas... funcionavam! E funcionavam bem, sem necessidade de grandes consertos, realizávamos apenas a troca de algumas peças mais delicadas já desgastadas pelo uso. Mas a chegada da era do plástico trouxe baixos preços e qualidade incomparável àquela de outrora. Incomparavelmente pior. Tudo quebra a toa.

Tive o mesmo walkman durante tanto tempo que o nome do fabricante já havia se apagado do mesmo quando decidi trocá-lo por um discman. Esse deve ter ficado comigo por uns dois anos, até dar mostras de seu desgaste. Hoje, depois que migrei para os MP3 da vida, noto que os mesmos possuem vida útil de no máximo um ano. E qual a consequência disto? Somos empurrados para o consumo, e o resultado do consumo aumentado é lixo. Muito lixo.

Nem sempre é a extravagância que leva o consumidor às compras. A falta de qualidade dos bens que nos são oferecidos acaba conduzindo todos à isso, pois a produção em massa segue o critério do "nas coxas". Outro dia fui comprar um tênis, coisa que só faço quando o antigo já está praticamente se desmanchando porque adoro tênis velho, já amaciado. Desisti da compra, porque fiquei horrorizada com a qualidade dos produtos disponíveis à venda. Mesmo as "marcas dos campeões", aquelas, patrocinadoras de atletas, não estavam correspondendo às minhas expectativas, e como minha atividade física é intensa, se deixo de me preocupar com a qualidade e me atenho somente à imagem, sei que isso é garantia de ter que desembolsar dinheiro de novo para adquirir o mesmo produto em um prazo máximo de 6-8 meses.

A moderna consciência ambiental coloca em xeque a questão do consumismo, e a nova ordem mundial impõe a diminuição do mesmo como exigência para que o Homem não atulhe o planeta com seus dejetos, mas como agir quando somente a boa intenção, não só no pensar mas também no agir, não é o bastante para conseguir frear o consumo, uma vez que a tecnologia que nos é vendida é descartável?

Tá certo que realmente existe uma certa "embriaguez de sucesso" entre os consumidores de tecnolixo. Tem aquele povo que troca de celular a cada vez que aparece um novo no mercado, e quanto mais itens o mesmo agregar maior o deslumbre. TV, máquina fotográfica, rádio, MP3, GPS... tudo no celular. Legal, muita praticidade! Só que a maioria das pessoas que conheço e que possui aparelhos com tudo isso, só usa mesmo... o telefone! Nem pensam se vão precisar destas coisas, só querem mesmo é estar na crista da onda. Pagam uma fortuna por coisas que daí a seis meses já estarão obsoletas e custando menos da metade do valor pago, e aí é hora de outra compra...

(Coisa que detesto é revelação de foto digital. Fica horrível. Os grãos fotoquímicos das películas fotográficas davam às fotos aparência bem melhor por serem irregulares em tamanho e forma. Pixels, com ângulos definidos, distribuídos geometricamente, deixam as imagens meio... sei lá... "quadradas" demais. Ângulos suaves ficam distorcidos.)

Mas mesmo quando saímos do Clube dos Imbecis e tentamos racionalizar consumo e gastos, fica difícil quando a maioria das coisas que consumimos é feita já com prazo de validade determinado para expirar o mais rápido possível pelos fabricantes, que lucram muito com a péssima qualidade do que vendem, pois podem vender novamente daí a pouco tempo. A acessibilidade ao conforto é maior por conta do baixo custo, mas até isso depõe contra o meio ambiente, pois significa que mais gente irá gerar mais lixo.

Vou tentando me virar com o que tenho, mesmo sabendo que sou completamente displicente com coisas materiais e não cuido muito delas... Mas uso tudo até que não haja outra saída, senão a troca. E o que fica é a saudade dos tempos em que os liquidificadores de motor alemão eram feitos para durar a vida toda...


quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Só Para Exercitar


Uma das primeiras perguntas que faço à alguém novo que conheço é a data, hora e local de seu nascimento. Sou completamente fã de astrologia, desde que resolvi fazer meu mapa. Antes não acreditava muito nisso, e achava tudo uma bobagem - aqueles horóscopos de jornal na verdade prestam um desserviço à astrologia, porque não dão certo para ninguém. Mas mesmo não acreditando muito, toda mulher é meio bruxa, pois tem um contato facilitado com o inconsciente, dada sua proximidade maior com o mundo irracional e instintivo, pois nosso humor e consequentemente nossa psiquê é bem mais influenciada por fatores alheios à nossa vontade que o universo masculino (todo mês sofremos a ação dos hormônios, aff!), e isso acaba por nos deixar mais à vontade em ambientes e assuntos sobre os quais não temos controle absoluto. Então, certa vez encomendei um mapa de personalidade completo e o que veio parar nas minhas mãos foi praticamente um retrato meu.

Faço meus estudos independentes, e tenho até um blog para tratar exclusivamente disso. Ele anda parado porque sei que ainda não tenho competência técnica no assunto para escrever textos de minha autoria, então, é ocupar espaço na rede inutilmente ficar fazendo Control C - Control V de coisas que já estão na própria net.

Nestes estudos, entrei em contato com coisas intrigantes... Urano, Netuno e Plutão só foram descobertos há pouco tempo - se formos contar que a astrologia é milenar. Um dos argumentos mais usados por quem duvida do sistema é exatamente esse: Consideram-no falho pois tecnicamente não havia ciência da existência dos planetas mais longínquos e o sistema solar só era conhecido até Saturno. Mas o interessante é que desde a antiguidade, já existiam os mitos que delineavam a "personalidade" de tais planetas, e ao que parece, eles já eram conhecidos dos astrólogos antigos. Como, eu não sei. Outro fato curioso é que no mito de Prometeu, que responde arquetipicamente por Aquário, uma águia bicava-lhe o fígado diariamente, sendo que durante a noite o órgão se reconstruía. Como sabiam que o fígado é um órgão que se regenera, eu também não sei. Júpiter/Zeus é o Deus dos relâmpagos na mitologia e coincidentemente este é um dos planetas com maior atividade de tempestades em sua atmosfera, e embora a existência de raios não seja exclusividade do mesmo, a magnitude destes raios é tal que suas tempestades podem ser detectadas da Terra, através de modernos equipamentos. A sua Grande Mancha Vermelha é uma tempestade que já conta por volta de trezentos anos de existência. De que maneira correlacionaram uma entidade hipotética (o Deus Júpiter) com uma característica intrínseca deste planeta com tamanha semelhança entre seus atributos, numa época em que radiotelescópios não existiam, eu não sei. Como atribuíram às constelações personalidades que quando lidas num mapa através das posições dos planetas que as cruzam, empiricamente demonstram resultados comprováveis, eu não faço a menor idéia.

Sei que o sistema funciona, entretanto, não sei como isso se dá. Procurei por informações à respeito, e não encontrei teoria alguma que dê uma base científica para o que é comprovado na prática. Acho que ninguém faz a menor idéia dos motivos que levam a Lua a responder pela parte emocional, Marte pelo impulso da ação, Saturno pelos limites, Júpiter pela expansão, etc. Sabemos que é assim e ponto. E talvez seja esse o motivo do sistema ser considerado uma pseudo-ciência.

Como tenho um gosto especial por construir teorias, só para exercitar, fiquei tentando reunir as informações de que disponho, de modo a ordenar algum tipo de explicação, ainda que a mesma esteja completamente distante da realidade. Gosto do exercício, e, contanto que eu tenha o cuidado de não acreditar cegamente no seu resultado, não vejo problemas nisso. Pensei então no seguinte:

- Hoje sabe-se que as radiações solares exercem influência sobre nós. Equipamentos elétricos podem ser danificados por conta de pulsos eletromagnéticos solares, e se pensarmos que em última instância tudo é energia, e nosso sistema nervoso funciona também através de pulsos elétricos, se extrapolarmos a afirmação (verídica, vide o que aconteceu em Quebec em 1989) de que a transmissão elétrica em equipamentos é influenciada pelo Sol, para a vida humana, temos como resultado teórico que o Sol pode igualmente influenciar os humores humanos (já que também em última instância, nosso humor é regulado por influxos de átomos eletricamente carregados em determinadas regiões do cérebro, e que o bloqueio ou estimulação do fluxo provoca diferenças comportamentais, emocionais, etc.).

Essa é a premissa básica, e se ela estiver errada, toda a teoria restante também estará, pois se fundamenta na idéia disposta acima. Considerando que ela esteja certa, dou o passo seguinte:

- Os planetas não possuem luz própria, apenas refletem a luz proveniente das estrelas mais próximas. Eles atuam como espelhinhos, onde a luz bate e volta, e é isto que os faz visíveis (dãããã, acho que podia ter omitido isso...). Mas se tomarmos como exemplo nosso satélite, a Lua, percebemos que mesmo que a luz não seja dela, ela é capaz de "iluminar" nossa noite, pois a luz solar rebatida nela chega até nós com certa força até. Obviamente, essa luz nos chega já "distorcida". Além de não ser proveniente da fonte, características intrínsecas ao solo da lua influenciam na tonalidade e força com que ela banha a Terra, não sendo apenas a distância deste corpo em relação à Terra o que influencia na qualidade dessa luz que nos chega. Se sua superfície fosse composta por substâncias que fizessem seu solo imaculadamente branco, a luz rebatida nos chegaria com maior potência (ela não é exatamente branca, é de um matiz mais acinzentado, como a cor gelo). Se sua superfície fosse composta por substâncias que fizessem seu solo vermelho, provavelmente a luz rebatida teria nuances desta tonalidade, à exemplo de Marte.

- Imagino então o sistema solar como um móbile de espelhinhos coloridos, com uma fonte luminosa ao centro, que quando acesa, resulta em luzes de diferentes tonalidades sendo rebatidas de encontro ao espaço vazio e consequentemente, chocando-se entre si, iluminando também umas as outras com seus reflexos multicoloridos.

- Considerando que os espectros luminosos diferentes possuem características energéticas próprias, já que a luz se propaga através de ondas e diferentes cores revelam diferenças na propriedade de tais ondas (comprimento), penso se a ação dos planetas na personalidade dos indivíduos não é resultado da radiação que eles emanam, graças à decomposição da luz original em espectros diferentes, que por sua vez diferem por conta da composição predominante na superfície destes planetas, o que lhes dá tonalidades diferentes, portanto responsáveis pelas diferenças nas cores das luzes que são rebatidas.

Maior viagem... Estou ciente disso. Fora que meus conhecimentos específicos em física não podem ser taxados de extensos, muito pelo contrário. Só engatinho na área, e graças à caridade dos Hawkins da vida, que tentam levar seu conhecimento à massa da forma mais simples possível, então, o meu risco de beirar o ridículo é grande. É bem provável que nem tão cedo a questão do funcionamento do sistema seja elucidada, até porque nenhum cientista que preze pelo seu nome na comunidade científica ousará misturar estas estações, pois todo aquele que tenta correlacionar o que é considerado misticismo (já dizia McKenna: a magia para alguns é ciência para outros) com algo mais concreto é taxado de lunático... Mesmo não acreditando de todo na idéia apresentada, fico com ela, pois pelo menos por enquanto, ou até adquirir mais conhecimentos específicos, ela me parece guardar uma lógica bastante plausível, de acordo com os elementos considerados para formular a hipótese.

E talvez não seja só por força de expressão que o momento do parto também é chamado de "dar à luz". Utilizando da regra de verificação para crase, a frase não significa dar luz para alguém, mas sim dar alguém para a luz.

______________________________________________

Servir

No começo reinavam virtuosos príncipes,
Consagrando campos, cereais e arado,
E o direito era seu de ofertar sacrifícios
E indicar a medida, na estirpe dos mortais

Sedentos do domínio justo do Invisível,
Que mantém o Sol e a Luz em equilíbrio,
E cujos vultos de radiância eterna,
Não conhecem a dor nem o mundo mortal.
Há muito a fila sagrada dos filhos de Deus
Esvaiu-se, e a humanidade ficou só,
No oscilar do prazer e da dor, longe do ser,
Um devir eterno, sem medida e sagração.

Jamais, porém, morreu o vero sentido da vida,
E a nós coube a missão de conservar, na decadência,
Pelo jogo dos símbolos, pela imagem e o canto,
A exortação do sagrado respeito.

Talvez a escuridão desapareça um dia,
Talvez um dia os tempos se transformem,
E o Sol nos regerá de novo como um Deus,
De nossas mãos aceitando oferendas.


*********************************************

O Jogo de Avelórios

Música do cosmo, música dos mestres,
Estamos prontos a ouvir com respeito,
A conjurar para uma casta festa
Venerandos espíritos de abençoados tempos.

Deixamo-nos elevar pelo mistério
Daquelas magas fórmulas,
Em cujo encanto a imensidão ilimitada,
Tempestuosa, a vida,
Fluiu em claros símbolos.

Como constelações eles vibram, cristalinos,
Nossa vida foi posta a seu serviço,
E ninguém pode de seus círculos tombar,
A não ser para o centro sagrado.

Herman Hesse - O Jogo das Contas de Vidro.