segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Bem Vindos à Orgia Pós-Niilista!

Sempre fui intolerante com evangélicos. Se algum membro da classe citada estiver lendo este post, não precisa se sentir discriminado, irmão. Na verdade sou intolerante no que diz respeito a religiões - embora não o seja com relação à religiosidade, coisa que defendo com unhas e dentes.

Todo sistema de crenças é constituído por pelo menos uma verdade irrefutável, só que geralmente esta está envolvida em uma névoa densa de afirmações absurdas, infames, ignominiosas.

"Já não vejo diferença entre os dedos e os anéis / Já não vejo diferença entre a crença e os fiéis" - Esse é um trecho de uma música do Engenheiros do Hawaii e exprime bem o que sinto a respeito dos crentes ortodoxos, seja lá de que crença for. Se analiso determinado sistema e vejo que nele se encontram muitas mentiras misturadas com verdades e que os fiéis não são capazes de separar o joio do trigo, logo sou levada a crer que essas pessoas sofrem de cegueira crônica, ou, para ser mais explícita, sofrem de burrice.

Confesso que minha antipatia é maior por evangélicos por conta de dois motivos:

- Seus fiéis são muito "bélicos" para o meu gosto. Geralmente são os primeiros a atacar outras religiões, de maneira bastante vulgar, inclusive. Bons cristãos devem perdoar e dar a outra face para o tapa, mas fazer isso indefinidamente não é próprio de espíritos elevados, mas sim de otários. Até Jesus chicoteou os mercadores do templo, o que mostra que o cordeiro nem sempre era tão manso assim. Embora eu não defenda nenhuma religião específica, até porque não tenho nenhuma, e saiba bem que essa foi a estratégia da Igreja Católica durante anos a fio, não vivi na Idade Média para presenciar a ação dos católicos daquele tempo, mas vivo hoje, e canso de ver evangélicos atacando membros de outras religiões e ainda achando que têm o direito divino ao seu lado para fazer isso. Certa vez entrou uma macumbeira num ônibus em que eu estava. Ela usava roupas típicas, toda de branco com um turbante. Um crente começou a gritar, chamando-a de bruxa e proferindo contra ela todo tipo de palavrões. Ela não deu uma palavra e desceu do ônibus. É, com certeza esse foi um comportamento muuuuuito cristão...

- O segundo motivo é o modus operandi usado para arrebanhar fiéis. O sistema de crença dos evangélicos pouco ou nada difere do dos católicos, visto que ambos seguem o mesmo roteiro (A Bíblia) e possuem o mesmo Mestre. A diferença está no tratamento da questão do pecado. Enquanto a Igreja Católica trabalha com a culpa e com o medo infligido pelo temor do inferno, a Igreja Evangélica trabalha com transferência de responsabilidade. O indivíduo nunca é culpado de nada. Se fez algo errado na vida, isso foi culpa do demônio. Era o demônio obrando pelas mãos do pobre infeliz, tomando o corpo dele e o fazendo cometer pecados. Indo na Igreja Evangélica, o indivíduo expulsa os demônios (culpas) pela obra do Cristo, que perdoa todos os pecados e permite que a vítima do capeta siga em frente sem olhar para trás. Ora, ou o percentual de esquizofrênicos no mundo é muito maior do que o estimado, ou isso é uma picaretagem só. Dessa forma ninguém é "resgatado", visto que a não-admissão da culpa impossibilita uma mudança real na personalidade do indivíduo, e o que acontece é apenas a vigilância anti-demoníaca, que deve ser feita incessantemente, pois uma vez que o sujeito não mudou, só maquiou seus defeitos com outro nome, ele nunca irá se livrar realmente deles. E o pior é que começam a ver demônios em todo mundo...


PS - Justiça seja feita, macumbeiros fazem a mesma coisa, mas põem a culpa nos Exus e Pomba-Giras da vida. Não deve ser coincidência o fato de que um grande número de evangélicos é ex-macumbeiro...

As vezes me parece que a Igreja Católica tenta colocar nas costas de seus fiéis uma cruz mais pesada que a do Cristo, pois são muitas as culpas. Aqueles que não têm talento para o ascetismo não se sentem bem nesta atmosfera rígida. Foi aí que o sucesso dos evangélicos se deu.

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Mas na realidade, meu questionamento hoje vai de encontro à validade das religiões. Embora eu realmente considere posições mais ortodoxas como atestados de burrice, a extinção das religiões não fará os imbecis deixarem de existir, pois não são elas que os fabricam. Assim como existem crentes idiotas, também existem ateus e agnósticos burros.

Se formos analisar o perfil histórico do surgimento das religiões, notamos que na realidade o sentimento religioso é inerente ao Homem, ainda que ele não se dê conta disso. Os Homens não montaram religiões arbitrariamente, elas surgiram como expressão de uma sensação comum à espécie. Embora as religiões primitivas possam parecer intelectualmente distantes de nós, ainda conseguimos perceber nelas a expressão de emoções ou intuições aparentadas com as nossas. O que mudou foi o veículo do pensamento e da ação, mas não a sensação propriamente dita. Não evoluímos enquanto espécie, nossa natureza não se modificou. O instinto religioso sobrevive mesmo em meio ao surto niilista. Idolatrar deuses ainda é costume, só que os deuses mudaram de nome e, sinceramente, decresceram consideravelmente em qualidade.

Nacionalismo, sistemas políticos, pseudofilosofias Nova-Era, hedonismo, “arte” (entre aspas mesmo, porque a Arte verdadeira eu não sei onde se escondeu), ciência, o culto à fama e ao sucesso financeiro. Esses são os ídolos contemporâneos da orgia pós-niilista ("pós" pois é inocente aquele que acha que dá para manter a sociedade no estágio intermediário de vazio entre a destruição e a reconstrução de valores durante muito tempo).

A função dos deuses entre aqueles que pertencem a uma religião mas que nunca experimentaram a sensação viva da religiosidade na carne, é servir de ídolo. Os indivíduos se espelham neles, que antigamente respondiam por imagens de perfeição, para poder trilhar suas vidas com alguma espécie de foco. Funcionam como uma bússola.


Ao abandonar os deuses clássicos ficamos com aqueles mais tangíveis, mais concretos, ao alcance da mão mesmo. E aí o que acontece? A sociedade passa a idolatrar não a figura de Jesus Cristo, mas a de Britney Spears!!!!!!!! Os indivíduos não cultuam mais os santos, mas sim os próprios países em que nasceram (e parecem não se dar conta de que local de nascimento nada mais é que uma aleatoriedade) ou a postura política que adotam - vide os comunistóides/socialistinhas de botequim de universidade que se proliferam aos borbotões - e aqui pra nós: costumam ser os bêbados mais chatos e sem graça de todos. Não almejam mais a pureza e a santidade, mas a beleza siliconada e o bolso cheio de dinheiro, pois é essa a idealização que têm da perfeição. Por que buscar o silêncio interior na procura do autoconhecimento, se é possível correr para o psiquiatra e tomar um Prozac para esquecer das dores e das perguntas não respondidas? Por que buscar a caridade no espírito quando a fama está ao alcance de todos e proporciona benesses bem maiores? É só ser selecionado pro Big Brother para virar... Deus! E como posturas ortodoxas não são exclusividade do âmbito religioso, ainda existem aqueles que são fanáticos por este tipo de deus! Fora que estes ideais, por serem facilmente alcançáveis, transformam aqueles que conseguiram atingi-los em cínicos crônicos.

Nojo.

Entre esse lixo e o "ópio do povo", eu ainda prefiro a segunda opção. No tempo em que as pessoas eram mais "tementes a Deus", elas eram mais dignas, ou pelo menos disfarçavam bem quando estavam em público. E sinceramente, a intimidade das pessoas pouco me importa, uma vez que só estarei na companhia daquelas que eu selecionar. Mas o comportamento público indigno por parte de terceiros é desagradável até para o mais imoral dos seres, ainda que ele mesmo tenha comportamento idêntico na sua intimidade. Não estou defendendo a hipocrisia, mas é impossível viver em sociedade em um mundo que não tenha valores ou um código de comportamento social mínimo a seguir. E já que infelizmente as pessoas não tem a capacidade de seguir estas premissas por bom senso ou disposição de espírito, que o façam por respeito a alguma autoridade maior, e este papel, que era cumprido por Deus, está ficando vazio.

Fora que o código de conduta imposto atualmente, o do pensamento politicamente correto, igualmente cerceia a liberdade das pessoas de forma não menos tosca e hipócrita que a religião, mas sem o mesmo efeito, pois não há o sentido de autoridade divina eternamente vigilante por trás. Implicam com coisas idiotas e que não produzem nenhum efeito em termos de melhoria do caráter do Homem. Hoje nem se pode mais chamar um preto de preto ou um cego de cego que isso é praticamente um pecado. Eles são afro-descendentes e deficientes visuais, viu? Isso é só uma forma de manter a hipocrisia, pois inúmeras vezes quem fala afro-descendente na verdade primeiro pensou em dizer "preto" - e pode tê-lo feito sem nenhuma conotação negativa, enquanto há aquele que diz "afro-descendente" cheio de sarcasmo - mas como isso pode parecer deselegante e soar mal para o locutor, usa-se outra palavrinha, mais... contemporaneamente aceitável.
(Em off: Como se os afro-descendentes não fossem pretos. Tem gente que implica com a palavra "preto" e diz que o correto é "negro". Acho que no meu dicionário são sinônimos, mas enfim... mania de perseguição é uma tristeza, aff! Esses recursos eufemistas para mim alardeiam ainda mais o racismo de outras raças para com a negra e não menos o auto-preconceito proveniente dos próprios negros que tentam maquiar a sua própria condição com tons mais suaves, como se tivessem vergonha de ser o que são. Não é mudando o nome que se dá às coisas que as pessoas deixarão de ser racistas)
Não se pode mais cantar "Atirei o Pau no Gato"! Toda a minha geração cantou isso na infância, e nem por isso todo mundo resolveu atirar o pau no gato por cantar uma canção. Que babaquice! Que mudança real na fundação do espírito humano isso trás? E a falta da autoridade divina autoriza qualquer um a ser o crápula que quiser por trás dos panos, quando não está em público, mas não quando ela existe pois, sendo Deus omnipresente, omnisciente e omnipotente ele vai saber de tudo e pode castigar. Colocando Deus no meio, a coisa fica beeeem mais eficaz...

É muita ingenuidade – e eu admito que já pequei por ela – crer que ao pôr abaixo certas fundações sociais os problemas das relações humanas serão resolvidos. Lembrando que nem todas pessoas são capazes de lidar com a própria liberdade sem trazer danos ao entorno, o melhor mesmo é manter essa parcela incapaz sob determinadas rédeas, ainda que isso pareça ser de um calculismo que nada tem a ver com a essência pura da religiosidade. Todas as vezes que os governos tentaram impor códigos de conduta falharam, e acabaram por ser depostos. Nada melhor então que deixar as pessoas contentes com a própria servidão, e este contentamento é oferecido pela religião, pois dá aos indivíduos a sensação de liberdade – obtida pela ilusão que a escolha de credo dá; e que medidas políticas/governamentais de controle não são capazes de oferecer pois coações só fazem proliferar os revoltosos.

Por conta destas considerações, resolvi apagar um post que havia aqui no meu blog, sobre a Universal. Descobri, através do pouco contato que tenho com os fiéis desta igreja, que prefiro lidar com eles que com os idólatras contemporâneos das divindades sem alma, porque por pior que eu considere os crentes, ainda os acho mais dignos, mesmo que essa dignidade venha do temor do demônio ou do medo do Deus-Terrível do Velho Testamento e não da sua própria disposição para ser, de fato, alguém digno. Odeio que tentem me catequizar, mas para o meu espanto, nem todos partem para esse lado, e também não são todos que pagam o dízimo para o pastor.

Pode ser que eu morda a língua e que ao final de todo esse processo alguma coisa boa surja depois de tanto pessimismo. Mas pelo andar da carruagem, e sabendo que tudo se resume a ciclos, depois desta liberdade sem disciplina e equilíbrio que impera no mundo, o que pode sobrevir é um tempo de controle rígido e igualmente sem moderação.

E que Deus nos acuda.


PS - Dentro das premissas apresentadas, até posso compactuar com a religião em determinadas circunstâncias, mas não com a exploração. Então, mantenho o vídeo do famoso "ou dá ou desce" dito pelo Macedão.




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A Marchinha Psicótica do Dr. Soup

Júpiter Maçã

Antes de nada eu gostaria de explicar
Segue agora um mosaico de imagens mil
Chamado "A Marchinha Psicótica do Doctor Soup"

A noiva do arlequim e o malabarista chegaram juntos com a fada e o inspetor nazista
Chacretes e coristas em teatro de revista
Bem-vindos a orgia niilista
Ai que gostoso, que delícia, muito mais paulista
Anunciados o homem-bala e a mulher canhão
A musa do pinóquio era bolchevista
A mais formosa melindrosa pega na suíça
Suíça pra ela era pegar rapaz

E pra provar minha querida, o meu amor tão radical
Eu escrevi essa marchinha para tocar no carnaval
O milênio passaria, e a marchinha seguiria sendo cult, underground...
Mas até 2020 seria revisitada e virar hit nacional...

O timbre do caetano é super bacana
Não pense que eu estou copiando, que eu sou banana
Peguei emprestado pras artes da semana
Abrindo as portas da percepção
Um tal de Aldous Huxley de cara ficou doidão
Tomando toda a solução.
Doidão é apelido para a paranóia
Toda jibóia, toda bóia, toda clarabóia
Querida, que tal baixar o televisor?
Deitado no divã com Woody Allen
Eu tive um sonho com aquele estranho, velho alien
Que era cabeça Bob Dylan, barba Ginsberg, Allen

E pra provar minha querida, o meu amor tão radical
Eu escrevi essa marchinha para tocar no carnaval
O milênio passaria, e a marchinha seguiria sendo cult, underground...
Mas até 2020 seria revisitada e virar hit nacional...





quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

The End

Natal.
Se minha avó estivesse viva, hoje faria aniversário. Ela morreu há 10 anos e nestes 10 natais que se seguiram minha mãe faz questão de não me deixar esquecer que essa data é um dia triste para ela, pois trás muitas lembranças... Na época eu tinha dezenove anos.

Tenho saudade, mas de forma alguma fico triste.

Ela morreu de câncer no dia 2 de fevereiro. Já esperávamos pela sua morte, sabíamos que o quadro era terminal, mas o fim chegou mais cedo que esperávamos. Era um dia de calor forte e acordei de madrugada com minha tia batendo à porta do meu quarto, dizendo que ela estava passando mal. Fui acudir, e ela não conseguia falar. Pedi a ela que respondesse minhas perguntas com a cabeça, e ela assentiu, demonstrando que estava lúcida. Perguntei se era calor. Negativa. Sede? Negativa. Falta de ar? Sim. Chequei a temperatura dela. Febre. Imediatamente liguei para meu namorado da época (o mesmo do caso misterioso das Paineiras) e pedi que ele nos levasse ao hospital. Em cinco minutos ele estava na minha casa, e a levamos para o carro no colo.

Meu namorado dirigia, minha tia estava no banco da frente e eu com a minha avó no colo, no banco de trás. Em dado momento, senti que ela estava morrendo. Foi estranho, pois não foi uma mudança física nela que me deixou perceber que a morte se aproximava. Eu só senti, sei lá como ou por quê. E senti também o exato momento em que ela morreu, mesmo que o corpo não tenha dado espasmo nenhum. Nessa hora não houve desespero, nem dor da perda, nem lágrimas, nem revolta da minha parte. O que senti foi honra. Honra. Senti-me honrada por ser eu a estar com ela nos braços naquele momento tão importante, e porque eu também sabia que era exatamente ali que ela gostaria de estar nesta hora, pois eu era uma das pessoas que ela mais amava no mundo.

Nada comentei com os outros passageiros. Quando chegamos ao hospital e meu namorado desesperado tentava tirá-la do carro rapidamente, disse a ele calmamente “Sem pressa”. Ele me olhou nos olhos e entendeu, mas ainda assim não acreditou, porque ela ainda estava quente e ainda não havia começado a endurecer. Acho que ele não sabia que o rigor mortis demora um tempo para se estabelecer. Levada à presença do médico, ele disse o que eu já sabia. Comuniquei à minha tia que chorou baixinho. E aí veio o pior. Tinha de avisar à minha mãe.

Liguei para ela, que ainda estava no trabalho. Disse que estávamos no hospital e não revelei maiores detalhes. Ela sempre foi muito apegada à minha avó e, mesmo trabalhando em hospital, justamente em um andar de pacientes terminais de câncer, eu sabia que ela não receberia bem a notícia. Quando ela chegou e soube de tudo, chorou, estrebuchou e se amaldiçoou por não ter estado lá, por não ter podido fazer nada. Mas o que haveria de se fazer, afinal? Só que isso não entrava na cabeça dela, e sabe-se que uma única pessoa em pânico consegue colocar até um avião abaixo. Mantive o controle, e o mais interessante é que minha mãe praticamente me pedia para chorar. Lembro-me de ouvi-la dizer “Por que você está tão dura? Você pode chorar”. Mas eu não queria! Simplesmente não estava com vontade e a atitude desesperada dela ainda estava me irritando.

Os ocidentais vivem como se nunca fossem morrer e os orientais vivem a vida se preparando e se preocupando com a morte. Ambos estão errados, pois o caminho é o do meio. A idéia da morte em si nunca me abalou muito, sempre a compreendi com naturalidade e acho que devemos estar sempre prontos para ela, pois não sabemos quando ela virá. Minhas experiências místicas de três anos atrás ajudaram a reforçar esse pensamento. “Quando vemos o anjo da morte de longe, ele é horrível; mas de perto, ele é belíssimo” – Texto muçulmano. A psilocibina foi usada em testes com pacientes terminais e os resultados obtidos em relação à diminuição da ansiedade quanto a proximidade da morte nestes indivíduos foram ótimos, melhorando a qualidade do restante da vida deles, dando-lhes mais paz.

Chorei quando fui para casa procurar pelo vestido com o qual ela já nos havia dito que gostaria de ser enterrada e não o encontrei. Fiquei chateada comigo mesma por não poder realizar o desejo dela. Obviamente, chorei a dor da perda quando senti saudade, e chorei muito quando precisei dar um destino aos presentes que ela havia ganhado no Natal do ano anterior e nem havia chegado a usar. Mas o choro foi de saudade, não de tristeza. A saudade sempre vem de um ponto de limitação. Seja ela espacial ou circunstancial, representa algo intransponível para aquele que a sente. Há sempre uma barreira, ainda que momentânea, que nos impede de matar a saudade. Essa sensação é um misto de falta, perda e impotência.

Creio não haver homenagem melhor à memória dela que me esforçar por passar um Natal feliz, haja vista que ela era uma pessoa muito alegre e forte. E nem de longe confundo saudade com tristeza, pois geralmente quando penso nela sorrio. E acredito não poder retribuir de forma melhor a tudo que ela representou para mim, que reagir à sua lembrança com um simples sorriso. Ela adorava me ver sorrindo.

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Um dado interessante: Minha avó, dias antes da sua morte, parecia estar com suas faculdades mentais abaladas, pois em conversa com uma vizinha e amiga que a estava visitando disse que estava vendo um cachorro deitado sob o portal. Minha mãe, que como eu disse anteriormente trabalha em um andar de pacientes terminais, relata que os mesmos, quando estão prestes a morrer, costumam tocar a campainha chamando a equipe de enfermagem para “retirar o cachorro” de perto deles. Às vezes vêem outro animal, mas geralmente é um cão. Entre a equipe isso já se transformou em uma espécie de sinal de que aquele indivíduo está próximo do fim.

"This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need...of some...stranger's hand
In a...desperate land ?"


segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Lendo Cérebros

AAAHHHHH!!!!

Amo muito tudo isso!

"Os turistas japoneses são famosos por andar pelo mundo com suas câmeras fotográficas em riste, sempre prontos a tirar uma foto para registrar o que tiveram a chance de ver com os próprios olhos. Mas uma nova pesquisa, realizada por lá mesmo, promete tornar o aparelho inútil. Um grupo de pesquisadores conseguiu extrair imagens da visão de uma pessoa diretamente do cérebro.

Parece ficção científica, mas é a mais pura verdade. O feito, obtido pelo grupo de Yukiyasu Kamitani, dos Laboratórios de Neurociência Computacional da ATR, em Kyoto, foi reportado na última edição da revista científica "Neuron".

E o melhor de tudo: para "ler" as imagens que o indivíduo estava enxergando, os cientistas não precisaram fazer nada agressivo, como plugar eletrodos diretamente no cérebro ou algo do tipo. Os resultados foram obtidos graças às técnicas de imageamento cerebral. Eles usaram a famosa ressonância magnética funcional -- procedimento que permite observar que áreas do cérebro se ativam a cada momento -- para extrair as informações."
http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL921081-5603,00.html


Pertenço ao grupo de pessoas que respondem pela alcunha de "visionários". Gente como eu não pensa em termos de palavras e nem linearmente, pensamos em forma de imagens. Mesmo quando o assunto é abstrato, o que tenho em mente geralmente é um quadro final dado por uma imagem, e preciso de tempo para decompor o quadro final em partes e dessa forma conseguir explicar o que vi/penso. É como se eu visse apenas o todo e passasse por cima dos detalhes, das partes, mas detalhes nem sempre são irrelevantes.

Não é muito cômodo pertencer a este grupo, uma vez que é muito difícil para um não-visionário compreender este tipo de mente, e não-visionários são maioria. Embora meus textos deste blog não sejam nenhum prodígio intelectual, me exigem um esforço que chega a me deixar febril de vez em quando, pois antes de escrever eu já visualizei o quadro todo, o texto já "cai" pronto na minha cabeça, só que a tarefa de mastigá-lo, dividi-lo, arrumá-lo com alguma lógica ,cronológica que seja, para mim é enorme. Considero tudo que escrevo como "sagrado", porque sei o quanto de trabalho tive de empreender para transformar uma imagem em letras, em texto inteligível. É como se sempre tivesse um filme ou um desenho animado mudos rodando dentro da minha cabeça.

Desenvolvi certa obsessão pelo significado puro das palavras por conta disso. Preciso, desesperadamente, usar as palavras certas para poder comunicar a imagem com maior fidelidade possível, e na maior parte das vezes, ao reler o que escrevo, ainda acho que o fiz mal. Já comecei a escrever e parei no meio do caminho sei lá quantos livros, porque eles já estão todos na minha cabeça prontos, tão prontos que o trabalho de vomitá-los me parece... Idiota. Já parei de discutir achando ter razão, pela preguiça que dá explicar coisas que para mim parecem claras demais porque eu já as vi inteiras e ter de explicar os detalhes , enumerá-los, catalogá-los, enquadrá-los, rotulá-los é para mim fastidioso ao ponto de me fazer desistir da discussão. Nessas horas tenho vontade de falar apenas uma palavra, algo ridículo como plunc, frop ou lumbs, para descrever a imagem mental que tenho, para dar um nome ao símbolo, e simplesmente dar as costas e sair, deixando para trás uma interrogação óbvia. Mas como isso vai dar a impressão de que a idiota sou eu... Acabo me calando mesmo.

Ao conseguir captar imagens mentais e trazê-las para a visualização de terceiros, imagino que boa parte do problema dos visionários estará resolvido. No dia em que a técnica estiver mais apurada e conseguir traduzir não apenas aquilo que é visto pelos olhos, mas também o que for visualizado pela mente, juro (no auge da minha megalomania peculiar de ascendente leonino) que ponho minha cabeça em rede internacional, hehehehehehehe!


sábado, 13 de dezembro de 2008

Minutos de Sabedoria

Por Mestre Pedroca

"O valor do teu cordão varia de acordo com o nível da tua insegurança."



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Minutos de Sabedoria



Por Mestre Pedroca:


"Para sustentar uma auréola santa são necessários três chifres de suporte."



quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Lealdade Canina

Lealdade
s. f.,
qualidade de leal;
fidelidade;
sinceridade;
acção leal.
Antôn: hipocrisia.

Bonito isso. Lealdade. Estive ruminando sobre o tema depois que reli esses dias o seguinte trecho de "Deuses, Túmulos e Sábios", livro clássico sobre arqueologia:

"Diante do portão de Herculano foram encontrados corpos ao lado de corpos, carregados ainda com os utensílios domésticos que se haviam tornado excessivamente pesados. Num aposento soterrado descobriram-se os esqueletos de uma senhora e de um cão. Uma observação mais cuidadosa revelou uma coisa horripilante. Ao passo que o esqueleto do cão conservava a forma, os ossos da mulher estavam espalhados por todos os recantos do aposento. Espalhados por quê? Teriam sido arrastados? Arrastados pelo cão, no qual o desespero da fome fizera renascer a natureza do lobo e, vivendo talvez um dia mais, atacara a própria dona, devorando-a."
Deuses, Túmulos e Sábios - C. W. Ceram


Esta passagem trata da descrição da descoberta da então soterrada Herculano e da tentativa de remontar o cenário de vida e costumes dos povos que habitavam esta cidade antes da erupção do Vesúvio.

Impossível não correlacionar o conceito de lealdade com cães, uma vez que eles são inúmeras vezes citados como sendo os melhores amigos do Homem. É, talvez até sejam. Até a página dois.

Lealdade é um daqueles típicos conceitos abstratos que só existem mesmo no terreno da utopia, uma vez que Ananke faz esta idéia sucumbir perante seus caprichos, e a transforma exatamente em seu antônimo - hipocrisia. Ananke é a deusa da Necessidade e, obviamente, não creio na existência real da mesma. Mas o fato é que, em última instância, mesmo os mais leais caem frente a Necessidade.

O cão caiu pela fome, as pessoas também caem por ela, mas fomes humanas não são apenas aquelas que advêm da falta de comida. E os famintos são capazes de estraçalhar até seus senhores a fim de saciar suas necessidades.


Existem dois tipos de famintos: os agudos e os crônicos. Os agudos são mais fáceis de lidar. Embora sejam mais violentos na expressão de suas vontades, se contentam e regozijam uma vez que a "comida" lhes é oferecida. Serão gratos e nunca esquecerão daquele que lhes forneceu alimento na hora do desespero.

Mas os crônicos... Ao deparar com um deles, empreender uma boa rota de fuga é o melhor conselho que posso dar. Nunca estarão satisfeitos, são capazes de sugar completamente as energias de quem tenta lhes suprir a satisfação desejada, e nem assim os esforços de quem buscou lhes fornecer o contentamento serão levados em conta. O faminto crônico avaliará tais tentativas como medíocres e sempre vai exigir mais, até levar tudo o que quem arriscou lhes ajudar tiver, gerando assim outro faminto, que se não estiver atento pode passar da condição de agudo à de crônico. E em vão, uma vez que o faminto crônico, acostumado que está a viver nessa condição e a lidar com seu apetite desmesurado diariamente, se funde com ele de tal forma que se tornam Um , e o esfomeado tem até medo de livrar-se disso, uma vez que a fome já faz parte de suas fundações mais profundas e, na ausência dela, ele não seria mais capaz sequer de se reconhecer.

"- Tinha desejado durante toda a minha vida que admirásseis minha resistência à fome - disse o jejuador.
- E a admiramos - retrucou-lhe o inspetor.
- Mas não devíeis admirá-la - disse o jejuador.
- Bem, pois então não a admiraremos - retrucou o inspetor -; mas por que não devemos admirar-te?
- Porque sou forçado a jejuar, não posso evitá-lo - disse o jejuador.
- Isso já se vê - disse o inspetor - , mas por que não podes evitá-lo?
- Porque - disse o artista da fome levantando um pouco a cabeça e falando na própria orelha do inspetor para que suas palavras não se perdessem, com lábios alargados como se fosse dar um beijo - , porque não pude encontrar comida que me agradasse."
Um Artista da Fome - Franz Kafka

Nunca confie em um faminto crônico. É só questão de tempo até ele resolver morder a sua mão.

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Comida

Titãs

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de que?
Você tem fome de que?...

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte...

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer...

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Prá aliviar a dor...

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade...

Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade...


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Mistérios da Meia-Noite


Eu não sei por quê essas coisas acontecem comigo com mais freqüência que com outras pessoas, mas não posso negar os fatos. As vezes acho até que sou meio tam-tam e imagino coisas demais, e a assunção da loucura seria até mais confortável, pois significaria um chão seguro para pisar, afinal a certeza, seja ela qual for, é menos pior que a tortura da dúvida. Mas nem sequer isso eu posso fazer, uma vez que terceiros as vezes compartilham das mesmas experiências que eu, e apostar em ilusão coletiva já ultrapassa um pouco o senso de realidade, e isso sim seria loucura, a loucura do ceticismo.

Vou contar um “causo” que aconteceu comigo há bastante tempo, 12 anos atrás (nossa, como estou velha!). Eu tinha 18 anos nessa época, e estava namorando um rapaz há pouco mais de três meses. Decidimos ir a uma boite certa noite, na Barra da Tijuca. Lá permanecemos por umas três horas. Nada bebemos nesta noite. E aí, sabe como é... Casal que começou a namorar recentemente, cheio de fogo, eu adolescente, ele com 21, e portanto... Sem lugar para dar umazinha sossegados. Os dois com o orçamento em baixa, sem grana pro motel. Então, na volta para casa, pelo caminho do Alto da Boa Vista, ele seguiu a estrada das Paineiras. Devia ser por volta de 02h30min – 3:00h. Hoje em dia fazer isso é pedir para ser assaltado, mas na época era mais tranqüilo. Paramos o carro em um mirante, cuja localização é razoavelmente afastada da encosta da montanha coberta de floresta. Saímos do carro.

(...) (...) (...)

Em dado momento, ele falou para mim: “Que porra é essa?!?!?!”
Ele apontava para o chão, logo atrás de mim. Me virei para ver do que se tratava e vi um ponto iluminado no chão. Uma círculo, pequeno, que não deveria exceder dez centímetros de raio. Apreensiva, automaticamente pensei se tratar da luz de uma lanterna. Entretanto, vamos à algumas considerações:

1- Se fosse de fato uma lanterna, quem a estava empunhando deveria estar bem distante de nós, pois o local estava completamente deserto. Sendo que, o foco da luz tende a ficar cada vez mais aberto quanto mais longe está a fonte da luz. Se acendermos uma lanterna e aproximarmos a mesma de um ponto qualquer, um muro, por exemplo, o diâmetro da circunferência do ponto de luz que ela emitirá será bem menor que se focarmos a mesma lanterna no mesmo muro estando a um metro de distância do mesmo.

2- Quanto mais distante a fonte da luz estiver do ponto a ser iluminado, mais desfocada ela será e menor intensidade ela terá. Essa luz era forte, iluminava bem os pontos pelos quais passava (é, pra completar o troço ainda se movia).

3- Lanternas deixam entrever o feixe de luz. Então dá para enxergar a fonte da luz acompanhando o feixe, dá para saber de onde a luz vem. Não tinha feixe nenhum.

4- Paramos para observar a mata, em silêncio absoluto, procurando alguma luz, movimento ou ruído que viesse da mesma. Nada. A fonte da luz também não poderia estar vindo de cima, pois como expliquei no início do post, paramos o carro em local afastado da mata, um mirante. Este lugar é um pequeno platô, com nada diretamente acima, a não ser o céu. Se a luz estivesse vindo da mata, estaria vindo do lado direito de quem está subindo a estrada, e conseguiríamos localizar a fonte.

Tudo isso nos ocorreu simultaneamente, em fração de segundo. Ficamos aterrorizados. Corremos para dentro do carro. Trocamos impressões sobre a “Teoria da Lanterna”, até que chegamos à conclusão de que esta teoria não se sustentava por falta de “base técnica” – a verdade é que ambos já haviam individualmente desvalidado a “Teoria da Lanterna”. Mas acho que um apostava esperançosamente que o outro teria achado alguma pista mais racional para explicar a coisa.

Cagando nas calças, mas obstinados, saímos do carro novamente para continuar a investigação. Foi aí que “a coisa” começou a dar voltas à nossa volta, com certa rapidez. Não nos “tocava”, mas passava rente aos nossos pés. Aí, já era, entregamos os pontos, voltamos para dentro do carro e arrancamos, eu com os pelinhos da orelha arrepiados até.

Não sei como não sofremos um acidente, de tão rápido que descemos a estrada. Mudos, confusos e... Broxas.

Não sei do que se tratava, e nem ouso supor qualquer coisa, nem para mim mesma, tamanha estranheza do fato. Só me resta mesmo cantar aquela música do Zé Ramalho...

“Mistérios da Meia-Noite
Que voam longe
Que você nunca
Não sabe nunca
Se vão se ficam
Quem vai quem foi...”


Nada existe de mais desconcertante que o Desconhecido.