sábado, 31 de janeiro de 2009

O Homem Amarelo

Não me lembro quando começou, mas já faz um tempo que costumo ver pelas ruas cartazes com a seguinte descrição: "Halloween é o cacete! Viva a cultura nacional!", mas acho que simplesmente olhava para eles, sem nunca ter parado para pensar no que representa este movimento. Depois de refletir um pouco sobre isso, acredito que o movimento é de marcha a ré.

Não entendo esse medo da contaminação, e não é evitando o contato com culturas alheias que vamos salvar a brasileira, uma vez que culturas se dissolvem naturalmente se não são praticadas, passadas à frente, vividas. E lembrando que a própria cultura brasileira é na verdade uma colcha de retalhos de outras, considerei ainda mais imbecil essa besteira de "Halloween é o cacete".

E afinal de contas... Que cultura brasileira é essa? Eu sinceramente não sei! Não consigo enxergar o espírito do Brasil como um todo. A cultura nordestina é totalmente diferente da dos gaúchos, diferente a ponto de um ficar incomodado com o outro! Acho que os únicos aspectos que nos irmanam em meio às diferenças são... o gosto por novela e futebol! Uau!

Cheguei até este ponto da reflexão achando a coisa engraçada até, de tão contraditória. Mas a partir daí comecei a achar tudo uma porra, uma ode à decadência, porque a condição ótima do Homem não é pertencer à esta ou àquela pátria, mas ser cidadão do mundo, e esta condição exige uma cultura única também.
Oh! Eis que chega a Nova Ordem Mundial!
Um povo, uma cultura, uma nação, sempre em trânsito, sem fronteiras ou maiores impedimentos, repartindo de igual forma recursos e responsabilidades. As culturas natais não iriam se perder, iriam se somar à outras, por força do trânsito. O viajante leva consigo sua própria cultura, e absorve um pouco daquela que o hospeda. Logicamente um ou outro aspecto seria suprimido, pois seria naturalmente rejeitado. Mas também não vejo mal algum nisto, pois se usarmos de franqueza e nos despirmos da roupa politicamente correta que tentam nos vestir, admitiremos para nós mesmos que não toleramos certos aspectos culturais de outros povos, por N zilhões de motivos. Se o nome disso é intolerância, preconceito ou bom senso eu não sei, mas o fato é que provavelmente os grupos nos quais focamos a não-aceitação têm a mesma opinião quanto a nós, e igualmente não lhes descemos goela abaixo. A melhor forma de dissolver conflitos é dissolver diferenças - sei bem disso justamente por ser intolerante, o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.

E isso não é um lampejo idealista, já está acontecendo. As fronteiras estão se estreitando por força de um antigo inimigo, que pelo visto até que está mandando bem desta vez: Mammon. As relações comerciais cada vez mais abertas entre os países possibilitam um intercâmbio de informações muito maior, impelem culturas inimigas à convivência, aumentam a necessidade de trânsito. Há vinte anos atrás pequenas empresas não podiam pensar em mercado mundial, essa possibilidade só existia para os gigantes. Hoje há canal para exportar até artesanato. Pouco se discutia à respeito do oriente, mas sua participação ativa na economia mundial foi a porta de entrada do conhecimento de sua cultura pelo ocidente, e creio que vice versa. E para negociar bem, é necessário traduzir o outro, usando não apenas a língua para isso, mas entendendo como o outro pensa. Pizarro, com um grupo de apenas 167 homens, conquistou um império porque entendeu como os incas funcionavam.

Se os resultados da Nova Ordem Mundial serão bons ou maus eu não sei. Mas o processo é iminente, e estamos em um ponto em que não é mais possível retroceder. Resistir só fará com que seja doloroso. A arte de conviver implica em trocar um pouco da liberdade pessoal por algo maior que a individualidade: A paz. E quando culturas se fundem, pontos de vista se mesclam para gerar um que que reflita melhor a verdade. Um pixel isolado nada nos diz à respeito da imagem em que ele está inserido, mas conforme o número de pixels aumenta, a imagem é revelada com mais precisão, até chegar ao que realmente é. Se alguns pixels se revoltam e resolvem fazer guerra entre si (huhauhauaua, e eu imaginei a guerra dos pixels) o resultado final será uma imagem distorcida na tela.

Por essa razão não tenho medo da cultura única. Não acho que ela fará de nós um monte de playmobils saindo do forno da fábrica em série, acho que provavelmente ela será um retrato mais nítido da realidade. Os conflitos menores sempre existirão entre os homens pois nunca seremos exatamente iguais - e ai de nós se fôssemos! Teríamos todos os mesmos interesses, o que nos levaria à guerra por conta de uma competição insuportável cuja semelhança de objetivos faria com que a oferta deles não suportasse a demanda. Aceito conflitos particulares entre os indivíduos, mas não os de grupo.

Neste ponto da reflexão eu já estava com ódio, e gostaria de ter super poderes, e que com a força do pensamento eu pudesse fazer com que todos os cartazes espalhados pela cidade com essa mensagem entrassem em combustão ao mesmo tempo. Cheguei em casa, joguei a frase "Halloween é o cacete" no Goooráculo e eis que surgiu uma página do MV-Brasil, grupo responsável pelo movimento, com o seguinte texto:

"O Brasil, sendo o país de "raça cósmica" (1) e estando fadado a se tornar a Grande Civilização do 3º milênio, é um pouco da cultura de todos os povos, que docemente se fundiu e numa dança harmônica criou uma nova cultura avançada e riquíssima, cunhada por um povo talentoso, que, uma vez liberto das amarras da escravidão cultural e financeira, construirá aqui, o que de melhor pode-se produzir em todos os ramos das artes, dos esportes e da ciência e tecnologia.

Os "mercadores apátridas" (2), de aspirações malignas sabem disso e farão o que puderem para evitar o progresso da grande Nação da Luz, lançando em nosso território, por exemplo, suas seitas satânicas disfarçadas de manifestações culturais, como esse tal de "halloween".

É dever de todos nós rejeitá-lo, até por uma questão de sobrevivência. Não podemos mais suportar tantas concessões subversivas em nossa cultura, em nosso belo idioma nacional, como também não suportamos mais, absurdas concessões econômicas às corporações transnacionais, que se afogam em champanha e se atolam em caviar às nossas custas.

A defesa de nossos valores culturais nos levará a uma grande cruzada de libertação nacional, que nos trará a total independência tecnológica, econômica e política. Enquanto temos milhões de descendentes de portugueses, africanos, italianos, espanhóis, alemães, asiáticos e indígenas, o nosso número de descendentes de ingleses e estadunidenses é desprezível. Por que então importamos essas manifestações culturais que nada tem a ver conosco? Jamais devemos esquecer que o Folclore Brasileiro é um dos mais ricos do mundo. O intercâmbio cultural respeitoso e simétrico com todas as nações do planeta deve ser apreciado e assimilado pelos verdadeiros patriotas humanitários do Brasil, mas devemos rejeitar a cultura supercifial que imbecilizou o povo dos Estados Unidos, vítima inconsciente da quadrilha milenar que objetiva por meio de uma padronização cultural, nivelada por baixo, a decretação da falência da moral e, ainda em vida, das funções encefálicas das populações das mais variadas nações da Terra. E o grande desafio dos patriotas do Brasil e de todos os países será o de impedir que o mundo caia refém desses destruidores de nacionalidades e que as nações se desfaçam (3), por isso, exaltemos a cultura e os valores nacionais!!!

(1) Darcy Ribeiro
(2) Armindo de Abreu.
(3) "... impedir que o mundo e as nações se desfaçam", Visconde de Caiurú."



Depois de ler isso, meu ódio foi embora e ri alto aqui. No mesmo texto, admite-se que somos uma "raça cósmica" por conta de sermos "um pouco da cultura de todos os povos, que docemente se fundiu e numa dança harmônica criou uma nova cultura avançada e riquíssima" e nega-se a possibilidade de mais uma comunhão com outro sistema, sendo que o próprio autor do texto afirma que nossa pretensa grandeza se deve a isso!

"Cultura avançada e riquíssima" diz o texto. E qual foi, pelo amor de Deus alguém me diga, a contribuição da cultura brasileira para a humanidade? Nestes 500 anos de construção, qual o traço de nossa bagagem cultural que justifica seu "tombamento histórico", qual a importância da nossa cultura dentro do contexto mundial? Se a compararmos com a helênica, a coisa fica vergonhosa para o nosso lado... "seitas satânicas disfarçadas de manifestações culturais, como esse tal de 'halloween' ". Meu Deus, que paranóia doentia! Estão envoltos em brumas e brumas de teorias da conspiração, é só neurose! , aleluia, e cagam pela boca tentando disfarçar sua xenofobia dirigida!

Mas meu ódio retornou quando voltei ao Gooooráculo e fui dar uma olhada em outras páginas da net e encontrei outras tantas apoiando essa babaquice retrógrada. Diante do que o mundo caminha para ser, qualquer nacionalismo cheira a mofo.

Ficam as seguintes perguntas: Por que esse apego à pátria, uma vez que isso não quer dizer absolutamente nada? Tudo bem gostar do país em que nascemos, mas a nacionalidade faz parte de um mero acaso, ou seja... A não ser que alguém admita que nascemos em determinado lugar por "merecimento", i.e. predestinação, é tudo uma grande aleatoriedade que não justifica a identificação emocional que caracteriza o patriotismo. E qual o problema em desfazer as nações, uma vez que a existência delas só levou a humanidade ao estado de guerra constante?


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Hoje não consegui escolher uma trilha só, rsrsrs, as duas tocaram na minha cabeça então, que assim seja.

Homem Amarelo

O Rappa


O Homem Amarelo do Samba do Morro
O Hip Hop do Santa Marta
Agarraram um louro na descida da ladeira
Malandro da baixada em terra estrangeira

A salsa cubana do negro oriental
Já é ouvida na central
Que pega o buzum, que fala outra língua
Reencontra subúrbios e esquinas

É o comando em mesa de vidro
Que me enumera o bandido
Eu e a minha tribo
Brincando nos terreiros
Eu e a minha tribo
Nos terreiros do mundo, vai!

Só misturando pra ver no que vai dar
Só misturando pra ver no que vai dar
Só misturando pra ver no que vai dar

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Zooropa


U2


(What do you want? What do you want?)

Zooropa...Vosprung durch Technik
Zooropa...be all that you can be
Be a winner
Eat to get slimmer

Zooropa...a blue kind of white
Zooropa...it could be yours tonight
We're mild and green
And squeaky clean

Zooropa...better by design
Zooropa...fly the friendly skies
Through appliance of science
We've got that ring of confidence....

And I have no compass
And I have no map
And I havve no reasons
No reasons to get back

And I have no religion
And I don't know what's what
And I don't know the limit
The limit of what we got

Zooropa...don't worry baby. It'll be alright
Zooropa...you got the right shoes
Zooropa...to get you through the night
Zooropa...it's cold outsid,but brightly lit
Zooropa...skip the subway
Zooropa...let's go to the overground
Get your head out of mud baby
Put flowers in the mud baby
Overground

No particular place names
No particular song
I've been hiding
What am I hiding from?

Zooropa...don't worry baby. It's gonna be alright
Zooropa...uncertainty...can be a guiding light
Zooropa...I hear voices,ridiculous voices
Zooropa...in the slipstream
Zooropa...let's go,let's go...overground
Zooropa...take your head out of mud baby

(She's gonna dream up the world she wants to live in
She's gonna dream out loud)

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Alien versus Predador





O Afghan Hound possui características muito particulares. Ele parece olhar através das pessoas. É digno e indiferente, com uma leve ferocidade. Dócil mas distante, é um cão “anti social”, que não costuma apreciar a proximidade física.

Já os Labradores são cães “de família”. Brincalhões e ativos, gostam da companhia de crianças.

O Pequinês possui comportamento caracterizado pelo ciúme e teimosia . Necessita de treinamento sociabilizante para que possa conviver com pessoas e outros animais. É dado a momentos de agressividade com desconhecidos e outros cães. Porém, a despeito de seu tamanho, protege os donos em casos de perigo.

No entanto, todos eles são exemplares de Canis lupus familiaris, por sua vez descendentes da mesma matriz, o lobo.

A Abelha Européia (Apis mellifera mellifera) é muito mansa, mas fica agitada durante o manuseio. Produtiva e prolífera, adapta-se com facilidade a diferentes ambientes.

A Abelha Caucásica (Apis mellifera caucásica) é considerada como sendo a mais mansa e é também bastante produtiva, sendo de fácil manuseio e pouco enxameadora. Porém este tipo de abelha é inconvenientemente sensível à Nosema apis – protozoário que parasita o estômago das abelhas, onde se multiplica e destrói as células digestivas, interferindo totalmente com os processos digestivos e assimiladores da abelha.

A Abelha Africana (Apis mellifera escutelata) é muito agressiva, polinizadora e enxameadora. Possui visão mais aguçada, resposta mais rápida e eficaz ao feromônio de alarme. Os ataques são, geralmente, em massa, persistentes e sucessivos, podendo estimular a agressividade de operárias de colmeias vizinhas. Ao contrário das européias que armazenam muito alimento, ela converte o alimento rapidamente em cria, aumentando a população e liberando vários enxames reprodutivos. Migra facilmente se a competição for alta ou se as condições ambientais não forem favoráveis.

No entanto, todas continuam sendo Apis mellifera e provavelmente sua matriz é comum, tendo partido da mesma raiz. Surgiu em determinado lugar, se disseminou, e talvez devido às condições do ambiente novo – e portanto do tipo de comportamento exigido para a garantia de sua sobrevivência em relação àquele ambiente -, foi se alterando até que estas características comportamentais próprias estivessem escritas em seu sangue, selecionadas, no entanto sem deixar de ser uma representante Apis mellifera.

Estas variações são bastante semelhantes no que diz respeito às suas funções mais básicas: Todas produzem mel, constróem colméias, possuem sistema hierárquico comum. Mas comportamentalmente são muito diferentes. A “Psique Abelhana” de cada variação é bastante diversa.

Nenhuma variação é melhor que a outra, pois elas possuem particularidades positivas/negativas que quando postas na balança não apontam para nenhuma delas como sendo a “ideal”. Elas podem gozar deste status com relação ao seu habitat natural, mas se pensarmos na “abelha cosmopolita” – uma vez que a intervenção humana deslocou diferentes variações da espécie para cá e para lá -, notamos que qualquer uma delas perde este caráter. Mas a admissão de que elas estão empatadas dentro de uma escala de valores, vantagens e desvantagens, não deve pressupor por tabela que elas são iguais. Afirmar isso é sinal de total falta de conhecimento empírico. Ou de miopia.

Geralmente, quando colocadas no mesmo ambiente, sendo este equitativamente propício à seus desenvolvimentos mútuos, as diferentes variações iniciam competição pelo alimento até o ponto de guerra entre as colméias.

Sábios mesmo são os cães. Eles criaram a solução para seus problemas de convivência, personificando o espírito do Cão na figura do vira-latas. O vira-latas é reconhecido como um cão “safo” em relação aos de raça. Parece ser mais esperto, é fisicamente mais resistente, quase não adoece. É aquele cão sem frescura, que não necessita de muitos cuidados especiais. Se dá bem em qualquer ambiente e nas mais diversas situações. Sobrevive bem em condições hostis.

Estes cães foram pioneiros do processo de eugenia às avessas, que ao invés de excluir, fagocita. Características dominantes prevalecem entre as gerações e nesta seleção prevaleceu o forte, o que melhorou os indivíduos, ao invés de desgraçá-los. As características mais negativas das raças caninas puras, como propensão à alguns tipos de doença em particular, foram se diluindo até desaparecer. As condições hostis em que grande parte vive cumpriram o restante do papel, sacrificando rapidamente os inadequados e liberando espaço para os mais dotados, ao contrário do que ocorre no ambiente do cão de raça, que por ter valor comercial nasce e cresce geralmente em ambientes com maiores garantias de sobrevivência, não possibilitando assim que a seleção ocorra devidamente.

Vira latas cobrem áreas específicas, mas as vezes se deslocam, e daí não se sabe seu destino. Simplesmente somem. Não sabemos se morreram, ou se apenas... se mudaram. Estão na rua, em meio ao fluxo constante de informações, nunca ficando comportamentalmente cristalizados pois se modificam a cada ambiente novo que encontram, se adaptam.

Atiça-me a curiosidade pensar o que acontecerá no dia em que as abelhas aprenderem o truque do vira lata. Em minhas pesquisas não consigo olhar objetivamente A Abelha, uma vez que diferentes tipos delas obedecem a diferentes padrões comportamentais. Talvez quando todas elas se fundirem, revele-se com maior fidelidade quem é A Abelha – como entidade representante da espécie – para que assim delas saibamos além dos instintos, o Espírito.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Lemon




Modesto conheceu Idea antes do nascimento do Ditador. Ela costumava ministrar palestras itinerantes nesta época e voltava à cidade de Modesto a cada quinze dias. Ele estava sempre presente em suas aparições. Ficava fascinado com suas palavras, elas o transportavam para um jardim helênico fresco, que lhe transmitia o cheiro de uma civilização nova. Pura. Limão.

Modesto e Idea acabaram ficando amigos, pois sempre trocavam impressões sobre as palestras ao final delas. Mas ele as vezes ficava ressentido com ela, pois gostava da proximidade dos amigos e Idea parecia não apreciar laços mais enraizados, pois frequentemente declinava seus convites. O homem simples, embora prezasse seus momentos de solidão, sentia que necessitava estar na companhia das pessoas que gostava pelo menos por alguns momentos do seu dia, caso contrário sentia-se só. Um dia conversaram sobre a questão da Necessidade:

- Enquanto houver Necessidade não haverá paz na alma do Homem, porque seu fogo é como o Sol do meio dia, que não produz sombra que permita o descanso.

- Mas todas as Necessidades são ruins? Eu não sei... Estou para te falar isso há tempos... Eu tenho necessidade de estar com os meus amigos, as pessoas que gosto. Essa é uma Necessidade ruim? Se eu estivesse no seu lugar ficaria feliz em saber que alguém precisa da minha companhia...

- Eu não fico feliz. Fico triste ao saber que isso é uma Necessidade e não um Querer. São coisas bastante diferentes. - Disse Idea, trincando a mandíbula.

- Compreendo... Mas as duas coisas não podem vir juntas também?

- Podem. Mas isso não é doar, é barganhar. Não chega nem mesmo a ser uma troca, pois nestes casos alguém sempre estará em desvantagem, pois uma das partes estará sendo utilitarista, enquanto a outra não, e uma das premissas da Visão é a equidade. Uma vez pensei que poderia alimentar os famintos com a minha compaixão. Mas Nêmesis veio para me mostrar que até a compaixão tem sua medida. Também ela é condicionada ao métron. Penso que a compaixão deva existir, mas quando ela passa da medida não age como um remédio, ao contrário, ajuda a manter o doente em sua doença. Quando sua presença é necessária e não somente desejada, você se torna também um foco da doença, e o pior é que pode começar a gostar inconscientemente disso, porque aquele que é necessário tem poder sobre quem dele necessita. Não quero que precisem de mim para nada. E peço aos Deuses que me dêem a Divina Graça de jamais precisar de alguém novamente... Mas, diga-me uma coisa... Quando dou minhas palestras e falo sobre A Visão, o que você vê?

- Hummm... Vejo um lugar belo, um jardim.

- E o que você sente? O que pensa das pessoas que fazem parte dele?

- É calmo. As pessoas parecem simpáticas.

- Parecem simpáticas... Sim. Acho que você entendeu o espírito. A minha cidade é a Cidade dos Gentis. E há uma condição prévia à estar na alma das pessoas, para que exista a gentileza: Não pode haver fome, nenhuma fome. É impossível para um faminto ser gentil... Talvez isso fosse um obstáculo ao progresso, pois diz-se que é apenas a Necessidade que nos impulsiona a evoluir. Mas creio que esta premissa está parcialmente errada, partindo do que sinto em mim mesma: Para mim, a curiosidade tem peso igual ao da Necessidade, embora menos urgente. Muitas das coisas que descobri na vida não foram provenientes de necessidades, mas do desejo de saber como as coisas funcionavam. Logo, penso que o progresso não cessaria com o fim da Necessidade pois creio que existam outros que se motivem pelo mesmo Norte que eu. E o progresso de uma civilização não é infinito. Quando ele chegar a seu ápice no que diz respeito a oferecer todo o conforto possível aos Homens, notaremos o platô quando a produção corrente começar a descambar para a fabricação de inutilidades. Daí o que resta mesmo é continuar a descobrir como as coisas funcionam, talvez com o único propósito de tentar desvendar a pergunta primal, simples, que gira em torno da cabeça dos Homens pelos séculos: De onde viemos? Essa pergunta tem em si o poder de continuar a mover o Homem à frente.

A Visão não é sobre a ambientação da Cidade. É sobre os que nela habitam. Não adianta criar novos valores se não há um novo espírito para sustentá-los com firmeza. Fazer isso é como vestir velhos decrépitos com fantasias de jovens. Veja só o ridículo: A fantasia não consegue disfarçar suas corcundas, pois não tem o poder de endireitar seus corpos encarquilhados! Logo fica claro que aquela juventude é de mentira. Não desejo uma Cidade de Super-Homens, quero algo que está ainda além disso.

- ... er... tá... mas isso não é muito irreal? Ninguém ter Necessidade nenhuma? Isso me parece impossível.

- Provavelmente É impossível.

- Então você está perdendo seu tempo almejando algo impossível?

- Bom, a Cidade pode ser impossível, mas ser um cidadão dela não, embora seja imensamente difícil manter o Estado de Gentileza quando em convívio estreito com não-Gentis. Na verdade, o contato diário com não-Gentis destrói o Estado de Gentileza, deixando para trás apenas a sua lembrança, e é por isso que deve-se visitar a Cidade de tempos em tempos, para reafirmar sua cidadania, sentir novamente o cheiro da pátria. Você deve estar se perguntando o por quê de criar algo que vai ser destruído, pois eu mesma já me fiz essa pergunta milhares de vezes. A resposta é que toda vez que você está em Estado de Gentileza você o propaga simplesmente... sendo. Não há plano, não é preciso seguir nenhuma estratégia, pois quando em Estado de Gentileza você É gentil e ponto. Mesmo os não-Gentis gostam de ser tratados com gentileza, e isso faz com que ela tenha o poder de minar a hostilidade. E isso ajuda a criar a Cidade em torno de você aos poucos.

- Mas o mais importante você não disse. Como é que se fica Satisfeito?

- Olha, eu sei que isso é um clichê ridículo, mas mesmo envergonhada por fazer papel de papagaio não posso dizer outra coisa senão que a Satisfação sempre esteve em você. Nunca está fora. É tudo sempre contigo.

- E o que é isso? Qual é a fonte da Satisfação?

- É o Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto. Está dentro de você e portanto também é você.

- Idea, não estou com disposição mental para enigmas hoje.

- Mas isso não é um enigma. Estou sendo o mais direta, reta e seca que posso. Veja bem... Esse foi o grande erro dos fundadores das religiões. Eles chegaram no Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto e beberam todos da mesma Fonte. Mas segundo a época em que viveram, a classe social a que pertenciam, a experiência de vida que tiveram, traduziram esta experiência de diversas formas diferentes, e nenhuma delas de maneira totalmente exata, pois já havia passado por seus "filtros". Quando a experiência foi passada à frente por palavras, que já continham seu grau intrínseco de distorção, distorceu-se mais ainda quando passou pelos filtros de quem a estava conhecendo desta forma. É como a brincadeira de telefone sem fio, onde o sentido original das coisas se perde no fim das contas.

Não se pode explicar o Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto, ele deve ser vivido. Existem exercícios milenares que visam levar as pessoas à este conhecimento. Mas estes exercícios estão descontextualizados para nosso espaço temporal. Demandam uma disciplina que não pode ser conciliada com a vida babilônica. E penso também que estas práticas exigem uma dedicação espartana, que por sua vez acaba por matar um pouco da Vida. Por conta disso, discordo em parte delas. Eram práticas perfeitas para o tempo em que foram criadas, agora não mais.

- Você já viu Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto?

- Vi.

- E como fez para chegar lá?

- Foi praticamente um acidente.

- Conte-me mais!

Idea respirou profundamente. Sabia que a Fonte guardava em si mesma o Paraíso e o Inferno, e que os dois eram a mesma coisa. A Fonte lhe mostrava o Éden, mas enxergar a Perfeição nem sempre era uma benção, pois a percepção posterior do quanto a realidade estava afastada da Visão era como cair de mil andares, para além da superfície, para além da realidade novamente, mas em movimento contrário desta vez, uma queda cujo impacto no solo era tal que gerava uma cratera tão funda que era possível chegar ao Inferno por ela. É muita responsabilidade passar isso à frente.

Desconversou e prometeu continuar no dia seguinte.
Naquela noite não conseguiu dormir.
Pela manhã mandou que dessem um recado na casa de Modesto. Deveria estar pronto para partir com ela em viagem curta ao início da tarde.
Modesto a encontrou no local e hora determinados e seguiram rumo a um sítio que já era velho conhecido dela. Ele se encantou com o lugar quando chegaram, embora o mesmo estivesse evidentemente necessitando de cuidados. Foram se embrenhando na mata, até chegar a um bananal. Modesto ficou apreensivo pois estes lugares costumam ser ninhos de cobras e ele nem sequer sabia o que estava fazendo ali. Ela lhe disse que gostaria de levá-lo para conhecer uma Fonte, e que o tipo de água que dali brotava era agradável às serpentes e que provavelmente ele nunca encontraria este mesmo tipo de água sem que existissem cobras por perto, mas que se houvesse cuidado ao caminhar não haveria acidente.

- Esta é a Água Brava de Dionísio. Ela me tornou o que sou hoje. Brota o ano inteiro, mas fica mais potente na estação das chuvas, pois a chuva lava a alma dos Homens e carrega para o centro da Terra seus segredos. - Disse Idea, abaixando-se ao lado da Fonte e molhando as pontas dos dedos com a Água. - Essa é a Água que mata a sede e a fome. Na transparência dela você encontrará Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto.

- Essa é a Fonte do Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto?!?!?!

- Sim, é ela.

- Mas o que verei lá? O que vai acontecer? Como é esse Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto? Ele não pode me fazer algum mal? Estou com medo, não sabia que iria estar aqui hoje, não estou preparado...

- Nunca se está de fato preparado para encontrar Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto. Mas há na alma do Homem um pressentimento de que existe algo mais, algo além do que seus olhos conseguem ver. Mas é como um grito que morre na garganta, não há expressão para sua saída, pois o som deste grito é desconhecido para os ouvidos dos que não encontraram Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto.

Idea calou-se por um momento, refletiu um pouco e continuou:

- Não há garantia de que Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto vá aparecer para você hoje. Primeiro você deverá passar por Dionísio, pois ele lhe dará o que você merece antes de lhe dar o que veio buscar, e é preciso se resignar com isso, sabe como é, não é de hoje que é preciso passar três dias no inferno antes.

- Mas Dionísio não é o Deus da Loucura? - Modesto estava em pânico.

- Não exatamente. É que ele está acima da Lógica. Mas que outro nome se daria para isso, senão... Loucura?

- O que eu devo fazer?

- Submeta-se. É maior do que você. - Idea disse isso enquanto montava um copo feito de dobraduras de folha de bananeira. Encheu-o com a Água que brotava das pedras e entregou a Modesto, que bebeu todo seu conteúdo.

Começava a escurecer na mata. Modesto então viu uma luz, como aquelas que aparecem ao fim de um túnel. Havia uma silhueta que bailava lá. Ele entrou no túnel e a imagem veio na sua direção. Era um rapaz afeminado, que sorria e dançava maliciosamente para ele. Ficou envergonhado ao perceber que se sentia atraído por outro Homem. Mas ele era tão belo, tão belo...

Dionísio então começou a falar-lhe, as vezes como se estivesse entoando um poema, outras vezes em tom de cantoria, incitando-lhe a segui-lo e a dançar com ele. O interessante é que o poema refletia tudo que se passava na mente de Modesto naquele instante, e isso fez com que ele acreditasse que o próprio Dionísio tinha se apossado do seu corpo.

"Lions in the street and roaming
Dogs in heat, rabid, foaming
A beast caged in the heart of a city
The body of his mother
Rotting in the summer ground.
He fled the town.
He went down South and crossed the border
Left the chaos and disorder
Back there over his shoulder.

One morning he awoke in a green hotel
With a strange creature groaning beside him.
Sweat oozed from its shiny skin.

Is everybody in?
The ceremony is about to begin.

***

Wake up!
You can't remember where it was.
Had this dream stopped?
The snake was pale gold
Glazed & shrunken.
We were afraid to touch it.
The sheets were hot dead prisons.

And she was beside me.
Old, she's no, young.
Her dark, red hair,
The white soft skin.

Now, run to the mirror in the bathroom,
Look!
She's coming in here
I can't live thru each slow century of her moving.
I let my cheek slide down
The cool smooth tile
Feel the good cold stinging blood
The smooth hissing snakes of rain...

***

Once I had a little game
I like to crawl back in my brain
I think you know the game I mean
I mean the game called "go insane"
Now you should try this little game
Just close your eyes forget your name
Forget the world, forget the people
And we'll erect a different steeple
This little game is fun to do
Just close your eyes, no way to lose
And I'm right there, I'm going too
Release control, we're breaking through

***

Way back deep into the brain
Way back past the realm of pain
Back where there's never any rain.
And the rain falls gently on the town,
And over the heads of all of us.
And in the labyrinth of streams
Beneath, quiet unearthly presence of
Nervous hill dwellers in the gentle hills around,
Reptiles abounding
Fossils, caves, cool air heights.

Each house repeats a mold
Windows rolled
A beast car locked in against morning.
All now sleeping
Rugs silent, mirrors vacant,
Dust blind under the beds of lawful couples
Wound in sheets.
And daughters, smug
With semen eyes in their nipples

Wait!
There's been a slaughter here!

***

(Don't stop to speak or look around
Your gloves and fan are on the ground
We're getting out of town
We're going on the run
And you're the one I want to come)

***

Not to touch the earth
Not to see the sun
Nothing left to do, but
Run, run, run
Let's run
Let's run

House upon the hill
Moon is lying still
Shadows of the trees
Witnessing the wild breeze
C'mon baby run with me
Let's run

Run with me
Run with me
Run with me
Let's run

The mansion is warm, at the top of the hill
Rich are the rooms and the comforts there
Red are the arms of luxuriant chairs
And you won't know a thing till you get inside

Dead president's corpse in the driver's car
The engine runs on glue and tar
Come on along, not goin' very far
To the East to meet the Czar

Run with me
Run with me
Run with me
Let's run

Whoa!

Some outlaws lived by the side of a lake
The minister's daughter's in love with the snake
Who lives in a well by the side of the road
Wake up, girl, we're almost home

Ya, c'mon!

We should see the gates by mornin'
We should be inside the evenin'

Sun, sun, sun
Burn, burn, burn
Moon, moon, moon
I will get you
Soon!
Soon!
Soon!

I am the Lizard King
I can do anything

***

We came down
The rivers & highways
We came down from
Forests & falls
We came down from
Carson & Springfield
We came down from
Phoenix enthralled

& I can tell you
The names of the Kindom
I can tell you
The things that you know
Listening for a fistful of silence
Climbing valleys into the shade

***

For seven years I dwelt
In the loose palace of exile,
Playing strange games
With the girls of the island.
Now I have come again
To the land of the fair, & the strong, & the wise.

Brothers & sisters of the pale forest
Children of Night
Who among you will run with the hunt?

Now Night arrives with her purple legion.
Retire now to your tents & to your dreams.
Tomorrow we enter the town of my birth.
I want to be ready.
"

Modesto estava em pleno transe, dançando com Dionísio, obedecendo sua cadência, seguindo seu ritmo. Caiu no chão extasiado com a dança. Viu então que Dionísio lhe apontava uma porta. E soube que naquele momento veria Aquilo-Que-Você-Não-Sabia-Que-Queria-Tanto pela primeira vez.

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Lemon

U2


Lemon
see through in the sunlight
she wore lemon
never in the daylight
she's gonna make you cry
she's gonna make you whisper and moan
but when you're dry
she draws water from a stone

I feel like i'm slowly, slowly, slowly slipping under
i feel like i'm holding onto nothing

She wore lemon
to colour in the cold grey night
she had heaven
and she held on so tight

A man makes a picture
a moving picture
through light projected
he can see himself up close
a man captures colour
a man likes to stare
he turns his money into light
to look for her

And i feel like i'm drifting, drifting, drifting from theshore
and i feel like i'm swimming out to her

Midnight is where the day begins
midnight is where the day begins
midnight is where the day begins

Lemon
see through in the sunlight

A man builds a city
with banks and cathedrals
a man melts the sand so he can
see the world outside (you're gonna meet herthere)
a man makes a car (she's yourdestination)
and builds a road to run (them) on (you gotta get to her)
a man dreams of leaving (she's imagination)
but he always stays behind

And these are the days when our work has come assunder
and these are the days we look for something other

Midnight is where the day begins
midnight is where the day begins
midnight is where the day begins

A man makes a picture
a moving picture
through light projected
he can see himself up close (gotta meet her there)
a man captures colour (she's yourdestination)
a man likes to stare (there's no sleepingthere)
he turns his money into light (she's imagination)
to look for her (lemon)
she is the dreamer
she's imagination (she had heaven)
through the light projected
he can see himself up close (she wore lemon).


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O poema entoado por Dionísio é o The Celebration Of The Lizard, de autoria de Jim Morrison. Pode ser conferido na voz dele aqui, em duas partes:



sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

O Parto de Aguiar Swarzzenêgo

IdeaLisTavares nunca quis ter filhos e só de pensar nisso tinha vertigens. Mas queria ser mãe.

Pensava nas pessoas que conhecia e que tinham filhos. Nunca conheceu alguém dotado de gênio que após a paternidade o tivesse mantido intacto. Parecia que após o evento "filho" no jogo da vida destas pessoas, aparecia a tela: "Mission Completed". Fim de jogo. À excessão dos que eram péssimos pais, qualquer vôo solo, qualquer inspiração, eram eclipsados pela admissão de uma postura mais responsável, requerida pela paternidade. A vida dessas pessoas se transformava em um eterno dormir & acordar & babar & cuidar & se preocupar com o(s) rebento(s). Um subterfúgio para o vazio. Um motivo para continuar.

Embotamento total.

Era assim que enxergava qualquer responsabilidade da qual não pudesse se esquivar. O compromisso, fosse ele de qualquer ordem, representava para IdeaLisTavares um obstáculo para a real expressão do ser. Qualquer coisa que dependesse dela, fosse do reino animal ou vegetal, era sinônimo de um entrave, uma âncora. Eram um sinal de necessidade de voltar para casa, de ter de cumprir horários, de ser obrigada a separar uma parte de seus rendimentos para sustentar sua própria cela.

Ela queria dar outro rumo para seu impulso criativo que não o óbvio. Criar uma vida, biologicamente falando, era algo que qualquer um poderia fazer, e ela nunca se sentiu atraída pelo pop. Sabia-se, então, biologicamente inútil por sua opção. Evolutivamente aquele que não gera descendentes de nada serve à espécie.

Idea também não tinha medo da morte física, não obstante, desejava a imortalidade. A noção de chegar ao status quo de imortal se valendo da genética para isso era risível. Ela não queria imortalizar sua matéria, mas sim sua mente.

O impulso reprodutivo faz parte tanto do Homem como da própria Vida. Se o canal reto para sua saída estava bloqueado, ela sabia que deveria extravasar por outro lugar, rebatizado com outro nome, talvez.

Um dia teve consciência do tempo. Começou a pensar que cada minuto transcorrido a aproximava da sua finitude física. Inquietude. Queria deixar algo. O quê? Ansiedade. Como? Desespero.
Não achava justo que sua mente morresse. Queria que um dia seus planos fossem postos em prática, mesmo que a existência dela mesma não estivesse situada no tempo em que isso fosse ocorrer. Assim pensava pois acreditava que possuía a Razão. E suas aspirações pela Perfeição possuíam a grandeza de um épico.

Certa vez surgiram do próprio punho de Idea alguns seres, e como eram muitos, ela resolveu chamá-los todos pelo mesmo nome. Batizou-os de Revolucionários. Mas eles eram fracos por serem burros, tão burros que embora concordassem com as idéias da mãe, começaram a brigar entre si por conta de aspectos menores e acabaram matando uns aos outros. Os poucos que sobraram foram aos poucos sendo esquecidos por ela, que pressentiu se tratarem de peões sem grande importância.

Entrou em estado letárgico depois de muito tentar encontrar respostas, dominada pelo cansaço. Estava entrando em curto. Foi aí que a sua cabeça rachou ao meio e se abriu. De lá brotou um homem já feito. Forte, determinado e... frio, uma vez que nunca conheceu o calor de um ventre pois foi gerado em meio à atmosfera glacial da Razão.

Quando Idea acordou e vislumbrou seu filho, viu que ele era metade homem e metade máquina. Não o estranhou nem o rejeitou. Ele não havia nascido por vias normais, tinha sido construído nos domínios da Razão, não poderia ser como os outros homens.

Ele era um retrato das idéias dela e possuía força o bastante para disseminá-las convenientemente. Entretanto, após um tempo verificou-se que não compartilhava do bom senso da mãe. Não tinha emoções para equilibrar a Razão, pois sangue quente não lhe corria nas veias. Estava programado para semear o que sua mãe havia lhe incutido, e faria isso sem medir custos.

Algum tempo depois, ela seria conhecida por Idea, a Mãe do Ditador.


Idéia

s. f.,
representação mental;
representação abstracta e geral de um objecto ou relação;
conceito;
juízo;
noção;
imagem;
opinião;
maneira de ver;
visão;
visão aproximada;
plano;
projecto;
intenção;
invenção;
expediente;
lembrança.

- fixa: ideia dominante, obsessão.


A palavra deriva do grego idea ou eidea, cuja raiz etimológica é eidosimagem. O seu significado, desde a origem, implica a controvérsia entre a teoria da extromissão (Platão) e a da intromissão (Aristóteles). No centro da polêmica está o conceito de representação do real (realidade).



"O sonho da razão produz monstros" - Francisco Goya

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Hyacinth House
The Doors


What are they doing in the Hyacinth House?
What are they doing in the Hyacinth House?
To please the lions in this day

I need a brand new friend who doesn't bother me
I need a brand new friend who doesn't trouble me
I need someone and who doesn't need me

I see the bathroom is clear
I think that somebody's near
I'm sure that someone is following me, oh yeah

Why did you throw the Jack of Hearts away?
Why did you throw the Jack of Hearts away?
It was the only card in the deck that I had left to play

And I'll say it again, I need a brand new friend
And I'll say it again, I need a brand new friend
And I'll say it again, I need a brand new friend, the end

domingo, 11 de janeiro de 2009

Dionísio's Rising

General Aguiar Swarzzenêgo é um Ditador.
Como todo Ditador, ele é clichê.
Mas ele nem liga. Só quer mesmo é saber de jogar War e conquistar os territórios alheios.

Não respeita o povo pois os considera burros. É fácil demais conquistá-los. Chega a ser entediante.
Só se importa mesmo é com outros Ditadores, que além de uma ameaça constituem uma boa fonte de diversão. Sente o cheiro deles de longe, e então logo se prepara para a festa, ops... er... quer dizer, guerra.

Não suporta a lei de outras pátrias. Quando percebe que existem territórios disponíveis, mas sob a tutela de outros como ele, manda uns batedores burros na frente, mais conhecidos como Imbecionários (Imbecis + Revolucionários), para quebrar tudo e depois preparar sua cama e seu banho quente.

Aguiar Swarzzenêgo tem lá sua quedinha por um extermínio em massa, e há muito sonha com genocídios. Só para desafogar o sistema, coisa pequena, uma bobagenzinha... A previdência corre o risco de quebrar, sabe como é... Ossos do ofício. Nada pessoal. Mal aê galera!

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Modesto Costa, como já está explicado, é um cara simples.
Não tem grandes ambições além de poder viver a vida contemplativamente.
Vive em comunhão com a Natureza, de onde extrai o sentido místico que norteia seus passos.
Gosta de estar entre amigos e de ver gente feliz.

Não se preocupa com o poder, pois sua maior força reside em confiar.
Sabe, pois as estrelas já lhe disseram, que tudo já está traçado, que toda agitação humana é ilusão e como ele confia no seu coração, sabe que tudo há de ficar bem.
Não liga para luxo e se contenta com pouco, pois suas alegrias não podem ser compradas.
Elas moram nos amigos, nos amores, na vida dos insetos que lhe despertam a curiosidade, no vento que traz a chuva, na beleza de um poente compartilhado de mãos dadas.

Alguns podem achar sua vida chata.
E ele quer que continue assim.

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Um dia a Quase-Louca estava pirando como sempre no meio da multidão.
Avistou Modesto Costa quieto num canto e tudo que ela queria era um canto quieto.
A Quase-Louca, como todo Quase-Louco, era curiosa e ficou observando Modesto. E gostou dele.
Simpático, simples... Doce.

A Quase-Louca, como todo Quase-Louco, era voluntariosa e após poucos minutos de conversa já foi se oferecendo para ir, naquele mesmo instante (Pois Quase-Loucos não têm compromisso com nada) conhecer o lugar onde Modesto morava.
Sem graça de negar, Modesto Costa concordou, e eles ficaram amigos.

Modesto tinha o poder de aquietar a loucura da Quase-Louca, não a ponto de deixá-la normal - visto que isso a mataria - mas o suficiente para que ela se sentisse segura o bastante do fato de que nunca iria passar do quase...

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Acontece que certo dia, Aguiar Swarzzenêgo, numa tarde de punheta territorialista, resolveu que queria para ele o sítio de Modesto Costa. Não havia motivo em especial para isso. Não havia nenhum motivo na verdade. Ele só queria se masturbar, gozar na terra recém conquistada e depois de dizer "É minha", esqueceria dela, nunca mais voltaria lá, levaria consigo apenas o título de posse, que ficaria guardado em uma estante empoeirada, ao lado de outros troféus.

Modesto Costa não ofereceu resistência quando os Imbecionários chegaram. Não queria que eles quebrassem tudo. Queria guardar a lembrança do seu lar como era. Concordou passivamente em sair. Ele confiava.

A Quase-Louca que, como todo Quase-Louco, tinha ligação com o inconsciente coletivo, pressentiu algo e foi se encontrar com Modesto. Chegou exatamente no dia em que o amigo estava de partida. Mas por coincidência, Aguiar Swarzzenêgo também estava rumando para o sítio. O Ditador queria usar um par de luvas novas que havia ganhado e decidiu que a estréia delas seria na punheta que tocaria em sua nova terra. Depois queimaria elas.

A Quase-Louca encontrou o amigo desolado, se despedindo da casa. Rapidamente ele lhe contou o que havia se passado, e eles choraram juntos. Quando estavam fechando a última mala, Aguiar Swarzzenêgo chegou. Ele carregava tantas insígnias que Modesto Costa, pela primeira vez em sua vida, se sentiu mal por ser tão modesto, e mesmo sabendo que tudo aquilo não passava de ilusão, não foi capaz de encarar o Ditador.

Neste momento a Quase-Louca teve uma idéia. Há um tempo atrás Modesto tinha lhe falado sobre uma fonte que existia no sítio, escondida num terreno cheio de bananeiras, cuja Água Brava de Dionísio (Dionísio's Furious Water para os mais eruditos) que dela brotava ela jamais deveria beber, pois existia o perigo de que o efeito dessa água fosse o bastante para que ela passasse do quase, alertou.

Num sobressalto, ao avistar o Ditador, a Quase-Louca fez uma reverência exagerada, coisa que Swarzzenêgo adorava e que o fazia sentir-se ainda mais soberbo, e atalhou num convite: O Ditador deveria experimentar a água da maravilhosa fonte que havia no terreno. Aguiar Swarzzenêgo ficou desconfiado, pois no mapa obtido por satélite, não existia registro de fonte alguma. A Quase-Louca, desfiando um rosário de elogios ao Ditador - que ia ficando cada vez mais inflado - insistiu com ele. Disse-lhe que o levaria pessoalmente até a fonte, e pediu humildemente que ele lhe desse a honra de acompanhá-la. Modesto, mudo de tão assustado, não conseguiu protestar. Acabou acompanhando os dois até a fonte.

A primeira caneca de Água Brava de Dionísio (Dionísio's Furious Water) foi servida em honra ao Ditador que, desconfiado, exigiu que os outros dois bebessem sua parte primeiro.

Depois que todos se serviram, algo mágico aconteceu. O Ditador olhou à sua volta e percebeu uma beleza nunca antes vista. Mas como poderia ser? Aquelas coisas sempre estiveram ali, eram as mesmas, mas no entanto estavam tão diferentes! E eram lindas! Olhou para Modesto e o invejou. E daí nasceu o seu respeito por aquele homem simples.

Modesto olhou de volta para o Ditador, e tendo percebido o brilho dourado de suas insígnias, invejou-as. Não porque elas revelavam conquistas, mas porque elas significavam poder e Modesto Costa pensou que se tivesse aquele poder o Ditador não teria conseguido subjugá-lo da maneira como havia feito. E ele não gostaria de passar por aquela situação novamente. Ao lembrar-se do seu desterro iminente, Modesto chorou.

O Ditador que naquele momento julgou estar olhando para o homem mais feliz da face da Terra, não entendeu o motivo das lágrimas de Modesto. Mas elas o fizeram refletir sobre a miséria recém descoberta que assolava a sua própria vida, e isso o fez chorar também.

Os dois inimigos de outrora se abraçaram. E sob o efeito da Água Brava de Dionísio começaram a se admirar tanto, mas tanto, que colaram os lábios e se beijaram.

A Quase-Louca que estava só assistindo, viu de repente cintilar a luz da loucura e notou que no meio daquela luz havia uma silhueta. Era um corpo que a princípio ela não conseguiu distinguir como masculino ou feminino, mas que após alguns instantes ela notou se tratar de um rapaz afeminado, meio descabelado e sujo, mas muito belo. Ele disse à ela: "Venha, você é uma das minhas. Estou te esperando há tempos e você sempre recusa meus convites. Quero dançar com você. Meu nome é Dionísio". Ela não teve mais forças para negar. Estava deslumbrada com a beleza do rapaz. Se entregou.

E ela dançou com a loucura, até que em dado momento voltou à fonte. Como todo Quase-Louco que resolve entregar os pontos, ela adorou assistir a boiolagem explícita de Aguiar e Costa e morreu de tesão ao ver aqueles dois machos de pau duro se chupando, e como todo Quase-Louco que resolve entregar os pontos, se enfiou no meio da putaria, mesmo sem convite. Foi bem recebida, pois todo mundo adora os Quase-Loucos que resolveram entregar os pontos.

Não sei se a história termina com "viveram felizes para sempre". Mas eles nunca mais se desgrudaram. Quando começam a brigar por um motivo qualquer, a Quase-Louca (que teve que mudar de nome, porque perdeu o Quase e ser chamada de Louca em público não é de bom tom) leva os brigões à fonte e eles logo fazem as pazes, pois naquele momento Dionísio faz suas diferenças desaparecerem, reconcilia os paradoxos, unifica os três em Um novamente.

Tudo indica que tudo dará certo para eles, mas isso só quem sabe é o Modesto, porque as estrelas contaram para ele.
E ele confia.

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Download do livro de Tim Leary "Seu Cérebro É Deus": http://www.4shared.com/file/80114445/e84e6dd5/Seu_Cerebro_Deus_-_Timothy_Leary.html
Recomendo.




The Soft Parade
The Doors

When I was back there in seminary school
There was a person there
Who put forth the proposition
That you can petition the Lord with prayer
Petition the lord with prayer
Petition the lord with prayer
You cannot petition the lord with prayer!

Can you give me sanctuary
I must find a place to hide
A place for me to hide

Can you find me soft asylum
I can't make it anymore
The Man is at the door

Peppermint miniskirts, chocolate candy
Champion sax and a girl named Sandy
There's only four ways to get unraveled
One is to sleep and the other is travel
One is a bandit up in the hills
One is to love your neighbor till
His wife gets home

Catacombs
Nursery bones
Winter women Growing stones
(Carrying babies to the river)

Streets and shoes, Avenues
Leather riders selling news
(The monk bought lunch)

(Ha ha, he bought a little
Yes, he did Woo!
This is the best part of the trip
This is the trip, the best part
I really like What'd he say?
Yeah, I'm proud to be a part of this number)

Successful hills are here to stay
Everything must be this way
Gentle streets where people play
Welcome to the Soft Parade

All our lives we sweat and save
Building for a shallow grave
Must be something else we say
Somehow to defend this place
(Everything must be this way
Everything must be this way)

The Soft Parade has now begun
Listen to the engines hum
People out to have some fun
A cobra on my left
Leopard on my right, yeah

Deer woman in a silk dress
Girls with beads about their necks
Kiss the hunter of the green vest
Who has wrestled before
With lions in the night

Out of sight!
The lights are getting brighter
The radio is moaning
Calling to the dogs
There are still a few animals
Left out in the yard
But it's getting harder
To describe sailors
To the underfed

Tropic corridor
Tropic treasure
What got us this far
To this mild equator

We need someone or something new
Something else to get us through

Callin' on the dogs
Oh, it's gettin' harder
Callin' in the dogs
Callin' all the dogs
You gotta meet me
Too late, baby
Slay a few animals
At the crossroads
Too late
All in the yard
But it's gettin' harder
By the crossroads
You gotta meet me
Oh, we're goin', we're goin great
At the edge of town
Tropic corridor
Tropic treasure
Havin' a good time
Got to come along
What got us this far
To this mild equator?
Outskirts of the city
You and I
We need someone new
Somethin' new
Somethin' else to get us through
Better bring your gun
Better bring your gun
Tropic corridor
Tropic treasure
We're gonna ride and have some fun
When all else fails
We can whip the horse's eyes
And make them sleep
And cry

sábado, 10 de janeiro de 2009

Na Multidão



Andava pelas ruas com apreensão. A multidão lhe provocava medo. A enorme massa de rostos indistinguíveis era ameaçadora. Zumbis, eram todos zumbis. Sentia como se fosse o único ser vivo andando entre os mortos. Tinha a impressão de que a qualquer momento o caos poderia se instalar. A turba e suas emoções mais selvagens facilmente provocáveis estavam à espera de um sinal apenas. O conflito é tão fácil de propagar! No meio da multidão, a sensação de que poderia ser feita em pedaços a qualquer momento era muito forte. Achava que havia sido um erro extinguir as arenas de combate da antiguidade, pois o espírito do gladiador e sua gana por matar&morrer não foram extintos junto com elas e muito menos a sede de sangue que sobrevém quando humanos se aglomeram demais. O instinto iria emergir de qualquer forma, a mesma coisa, com outro nome, como sempre, tudo igual.

Assistia o noticiário e notava que cada caso que gerava comoção pública era uma forma do povo canalizar seu desejo de sangue. Ah, sim, mas isso era culturalmente errado para a época, então não poderia ser encarado às claras. Tinha de vir revestido de direito, a sede de sangue passou a se chamar sede de justiça. E como isso deixava a multidão excitada! Nem se falava de outra coisa nos dias em que um algum crime hediondo vinha à público, e todos pareciam estar à espera da sua oportunidade para desferir um golpe.

Sentia-se impotente. Se a turba fosse devidamente incitada, não hesitaria em atacar, mesmo sem que houvesse um julgamento justo. Numa multidão em ação não há culpados. Não que tivesse algo a esconder, algo que a fizesse um alvo em potencial. Mas sentia que deveria estar à postos para evitar que isso acontecesse com algum "outro" que ela sequer conhecia.


Curiosamente, quando resolvia compartilhar suas sensações com os seus, não recebia resposta. Essa visão de mundo era dela, e não havia com quem dividir, não tinha onde se apoiar. Ou estavam todos errados e somente ela certa, ou... estava louca, pois se percebia o mundo daquela forma e sua visão não era compartilhada, probabilisticamente a chance de ser ela quem estava distorcendo a realidade era maior que 95%.

Um dia caiu em sono profundo e em sonho andou pelo hiperespaço. Lá encontrou um telescópio, que permitia que olhasse a Terra de uma distância segura, o que conferia poder de isenção. Ajustou a lente e percebeu com grande alívio que não, ela não estava errada. Não estava louca. Suas impressões eram reais. Largou o telescópio e encontrou ao seu lado um microscópio. Ele permitia que olhasse para dentro de si mesma. Lá ela encontrou um caos interno tão iminente quanto o que temia exteriormente. Era como se a qualquer momento algo fosse acontecer, somente seria necessário um estalo, uma coisinha pequena, e era como se estivesse sempre a um passo da loucura e precisasse se proteger disso. O que via no mundo era real, mas ela o percebia com tamanha intensidade porque o caos exterior também fazia parte dela mesma, era um reflexo. Ela não estava louca, estava tão somente diante do próprio espelho.


Eclipse
Pink Floyd


All that you touch
All that you see
All that you taste
All you feel
All that you love
All that you hate
All you distrust
All you save.
All that you give
All that you deal
All that you buy,
Beg, borrow or steal.
All you create
All you destroy
All that you do
All that you say.
All that you eat
everyone you meet
All that you slight
Everyone you fight.
All that is now
All that is gone
All that's to come
And everything under the sun is in tune
But the sun is eclipsed by the moon.
"There is no dark side of the moon really.
Matter of fact it's all dark."

Pois que o louco de fato nunca alardeia sua condição. A teme tanto que a esconde de si mesmo.

The Great Dictator


Sempre que viajo, dou preferência para as cidades pequenas. O 021 já me suga o bastante. Desse jeito, mato dois coelhos com uma cajadada só: além de curtir a viagem, vou estudando lugares para onde eu possa me deslocar definitivamente. Quero sair do Rio faz tempo, mas não consigo encontrar o lugar ideal para onde eu gostaria de ir. A cidade ideal deve preencher os seguintes requisitos:
  • Não pode ser muito populosa;
  • Deve oferecer opções culturais e ter infra-estrutura que atenda à demanda da população;
  • Deve ter área rural próxima do centro, possibilitando que se possa morar em um sítio estando a no máximo 40 minutos da cidade propriamente dita, por exemplo;
  • E por último, mas não menos importante, eu devo ser capaz de formar laços de afinidade com seus habitantes.
Ah, o romantismo do campo! Aquelas pessoas simples, com suas pequenas alegrias que nos despertam simpatia, sua sabedoria popular, sua ligação com a Natureza...

SCREEEEEEEECH!!!

O disco arranhou. Em uma das minhas voltas por aí, fui parar numa cidadezinha pequena, de clima agradável, na montanha. Estávamos acampando e acabávamos comendo pela cidade, vez por outra. Não vou dizer o nome do lugar onde estávamos, mas percebemos que tudo que odiávamos na nossa cidade era idolatrado pelos nativos do local. Um dia paramos numa birosca para fazer um lanche e

e le s ... e s ta vam ... fa l an d o ... com ... a ... te le vi s ão

As pessoas que estavam no bar estavam falando com a novela, como se aqueles personagens fizessem parte da vida delas, do dia a dia delas, comprando todos os dramas emocionais, vibrando, interagindo... com a televisão. Vertigem, crise de riso, indignação, revolta, pena, raiva, crise de riso, vertigem. Enquanto isso, a noite estava um espetáculo. Pouca luz na rua, o céu coalhado de estrelas, morcegos voando baixo, vagalumes, sinfonia de insetos, vento.

E logo depois desta constatação, seguiu-se uma pergunta: E se eu tivesse nascido naquele lugar?

Muito embora eu não creia que todas as nossas escolhas são norteadas pela cultura, sei que ela pesa, e num nível tão subjetivo que é difícil fazer a distinção entre o que nos pertence de fato e o que foi digerido. Minha resposta imediata foi “Não, eu não estaria neste papel”, mas admito que não posso afirmar isso com 100% de certeza, pois fica difícil delimitar o meu “eu” - o que é meu de fato, meus gostos e vontades natas - em relação ao que deriva da experiência/cultura e por conseguinte já faz parte de mim.

As coisas para as quais eu dou enorme valor, para aquelas pessoas são tão corriqueiras que deixaram de ter importância, quiçá deixaram de ser até mesmo vistas. Compreendo em parte a troca de valores por conta da corrosão com a qual o cotidiano castiga a beleza. E eu mesma admito que não me mudaria para um meio de mato sem recurso algum. Sempre que escuto alguém falar que gostaria de ir viver com os índios, penso: “Tá. Até a primeira dor de dente”. É burrice deixar para trás tudo que foi conquistado, uma vez que nem tudo foi motivado por uma extravagância, mas derivou de uma necessidade, à qual um dia eu também poderei estar exposta.

Bem... Tudo certo em discordar dos outros, achar o comportamento alheio ridículo e tal...Isso não é um defeito em si, uma vez que nem sempre o olhar crítico é fruto da intolerância pura e simples e, de qualquer forma, para sermos tolerantes primeiro devemos fixar os limites da intolerância, afinal complacente é cú de bêbado. Mas o senso crítico não necessariamente precisa estar acompanhado do profundo incômodo que senti naquele momento. E eu fiquei bastante abalada emocionalmente com a cena que assisti. Tanto que comecei a me questionar o por quê daquela sensação, afinal de contas, qual o problema das pessoas estarem conversando com a TV? Isso não influi em nada na minha vida, não me diz respeito. Aí lembrei de uma frase de Goethe, que é mais ou menos assim:

“Pois qualquer um que não saiba
Como controlar o seu eu mais íntimo se conformará em controlar
A vontade do seu vizinho”

E me envergonhei. Racionalmente, eu não tinha motivo algum para estar com tanta raiva, mas ainda assim não estava conseguindo deixar de senti-la. Não estava conseguindo me controlar, e percebi que mais fácil, dentro da minha própria perspectiva, seria controlar os outros. Comecei então a escavar a sensação para saber de onde ela partia...

("Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada.
E eu começo a achar normal que algum
Boçal atire bombas na embaixada."

"Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada.
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada.
A história se repete mas a força deixa a história mal contada..."

"E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada.
E é tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada.
Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada.")**

************************************************************************************

E foi nesse dia que fui apresentada para o ditador que descansa à sombra do trabalho do revolucionário, esperando para tomar o seu lugar.

Todo desejo de quebra de sistema já carrega consigo o grito pela nova ordem. A anarquia só se sustentaria se não houvesse nenhuma diferença entre os Homens, e não estou falando sobre posições na hierarquia sócio-econômica – somente no dia em que houver o sacrifício da individualidade todos estarão aptos a responder por si sem a necessidade de leis. Mas enquanto os interesses das pessoas forem inconciliáveis e chocarem-se entre si, há de haver autoridade capaz de garantir direitos. A revolução não visa garantir a liberdade, mas apenas a quebra da ordem estabelecida, unicamente para que uma nova ordem se sobreponha a esta.

No fim das contas, sem saber, o rebelde não passa do escravo do ditador.


Paradise City
Guns N' Roses

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Oh, won't you please take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home Oh, won't you please take me home

Just an urchin livin' under the street, I'm a hard case that's tough to beat
I'm your charity case, so buy me somethin' to eat, I'll pay you at another time
Take it to the end of the line

Ragz to richez or so they say, ya gotta-keep pushin' for the fortune and fame
It's all a gamble when it's just a game, ya treat it like a capital crime
Everybody's doing their time

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Oh, won't you please take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home

Strapped in the chair of the city's gas chamber
Why I'm here I can't quite remember
The surgeon general says it's hazardous to breathe
I'd have another cigarette but I can't see
Tell me who you're gonna believe

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home, yeah

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Oh, won't you please take me home

So far away, so far away, so far away, so far away

Captain America's been torn apart
Now he's a court jester with a broken heart
He said- turn me around and take me back to the start
I must be losin' my mind- "Are you blind?"
I've seen it all a million times

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Oh, won't you please take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Oh, won't you please take me home

Oh I wanna go, I wanna go, oh won't you please take me home
Oh won't you please take me home

Take me down to the paradise city
Where the grass is green and the girls are pretty
Take me home

Oh, won't you please take me home