terça-feira, 31 de março de 2009

Abissal


Compartilhar o que vejo
É mais complicado que parece
O que a mim ocorre num lampejo
De palavra que explique carece

Vivo em outro mundo
Não subterrâneo, submarino
E as vezes desço tão fundo
Que na superfície me sinto clandestino

Neste lugar tudo se mistura
O profundo se torna plano
Como que unido por atadura
Que foge ao pensar cartesiano

Onde está o limite
Do tu e do eu?
Já não tenho qualquer palpite
Que diferencie o teu do meu

Aqui se esvai a diferença
E todos somos Um
Matar o eu compensa
Diante da grandeza da Lei comum

E quando tenho de emergir
À Terra, morada da Humanidade
Sinto vontade de fugir
De volta ao meu lar de igualdade

Mas é na Terra que devo viver
Condenada a ser diferente
Em solo duro é necessário proteger
O eu neste denso ambiente

É neste chão apenas
Que eu e tu entram em conflito
É na Terra que estão as arenas
Que matam o que em nós há de mais bonito

Sinto saudades de casa.

Orgânico?

Outro dia estava no supermercado, comprando verduras e legumes. Fui dar uma olhada nos orgânicos. Caros demais para o meu orçamento, já estava me afastando da bancada em que eles estavam acondicionados quando prestei atenção em uma coisinha...

Aqueles produtos, criados sem agrotóxicos, sem adubos que prejudicam o solo e contaminam as águas, consumidos por quem se preocupa não só com a própria saúde mas também com o planeta... Estavam embalados, em pequeníssimas quantidades - que portanto não servem à uma família - em pacotes descartáveis feitos de isopor e filme plástico.

Isopor e filme plástico.
Isopor e filme plástico.
Isopor e filme plástico.
Isopor.
Filme plástico.

Quatro pequenos tomates. Um montinho de alface. Três cenouras. Dois pepinos. Cada ítem cuidadosamente arrumado em isopor. E filme plástico.

Se alguém conseguir entender qual a lógica disso, por favor, me explique.
Estou burra desde esse dia.

Minutos de Sabedoria

Por Mestre Orkut

"Sorte de hoje: O otimista diz que vivemos no melhor dos mundos, e o pessimista teme que isso seja verdade"

sexta-feira, 27 de março de 2009

Hoje é aniversário da minha mãe.

Agora ela é leitora assídua do meu blog.

Oi Mãe!

Dedico para ela então uma música do Raul Seixas.

... Porque nestes descaminhos da vida, eu continuo te amando. Muito.


Meu Amigo Pedro

Raul Seixas

Composição: Raul Seixas / Paulo Coelho

Muitas vezes, Pedro, você fala
Sempre a se queixar da solidão
Quem te fez com ferro, fez com fogo, Pedro
É pena que você não sabe não


Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro as coisas não são bem assim


Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo terno


Pedro, onde cê vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou


Tente me ensinar das tuas coisas
Que a vida é séria, e a guerra é dura
Mas se não puder, cale essa boca, Pedro
E deixa eu viver minha loucura


Lembro, Pedro, aqueles velhos dias
Quando os dois pensavam sobre o mundo
Hoje eu te chamo de careta, Pedro
E você me chama vagabundo


Pedro, onde cê vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou


Todos os caminhos são iguais
O que leva à glória ou à perdição
Há tantos caminhos tantas portas
Mas somente um tem coração


E eu não tenho nada a te dizer
Mas não me critique como eu sou
Cada um de nós é um universo, Pedro
Onde você vai eu também vou


Pedro, onde cê vai eu também vou
Mas tudo acaba onde começou


É que tudo acaba onde começou
Meu amigo Pedro



E Dionísio salvou Sêmele do Inferno...
Hoje tive vários pesadelos engraçados. Como pode um pesadelo ser engraçado? Ah, é o nível de surrealidade envolvida que dá o tom...

Primeiro sonhei com fantasmas. Não sei o motivo, mas meus fantasmas sempre são hightech. Eles me assombram fazendo com que aparelhos elétricos fiquem funcionando descontroladamente. A TV liga sozinha, eu desligo. Ela liga de novo, eu tiro da tomada e a imagem continua lá. É assim com o rádio, com as lâmpadas e tudo o mais. Este tipo de sonho é recorrente, a mesma coisa desde a infância, mas geralmente os fantasmas não aparecem, e hoje apareceram. Eram três mulheres, que queriam minha ajuda. Uma jovem, uma de meia idade e uma velha. Eu sabia que estavam mortas, mas tinham aparência de vivas. Quando perguntei como poderia ajudar, acordei (affff!!!).

Dormi de novo e sonhei que estava sendo perseguida por um cara que queria me matar, mas disse que só faria isso depois. Quando ele voltou, tinha se transformado em uma abelha (?!), se emaranhou em meus cabelos e eu sabia que seu objetivo eram os meus ouvidos. Mas por fim ele não desferiu a picada.

Resultado: Acordada desde as quatro da matina, sentei para escrever trovinhas, com uma inspiração que nem sei de onde veio.
Pelo menos rendeu alguma coisa...

Carnaval Fora de Época

Baile de máscaras, adoro!
Nisto sou especialista
Dos convidados cada movimento decoro
E na memória consulto uma lista

Sei que conheço a identidade
De cada participante
Que reconheço por trás da bruma de falsidade
Do disfarce mirabolante

Este baile muito me diverte
E noto no dantes oculto o espanto
Pois por mais que se acoberte
De mim não se esconde atrás de qualquer manto

Mas mesmo assim vamos brincar
O que embeleza a vida é o riso
A noite segue, vamos dançar
Fantasias sempre me arrancam um sorriso.

________________________________________________

Fica aí meu grande abraço pro Zorro, pro Vingador Mascarado, pro Fantasma, Batman, Homem Aranha, pra Mulher-Gato, Hera Venenosa, Mulher-Maravilha e todo o restante que eu esqueci o nome.

... Ah tá, pro Robin também, que é coadjuvante mas é um representante alegre da classe.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Home, Sweet Home


"I wanna run, I want to hide
I wanna tear down the walls
That hold me inside.
I wanna reach out
And touch the flame
Where the streets have no name.

I wanna feel sunlight on my face.
I see the dust-cloud
Disappear without a trace.
I wanna take shelter
From the poison rain
Where the streets have no name
Where the streets have no name
Where the streets have no name..."

terça-feira, 24 de março de 2009

Ecce Homo


Escrito pouco tempo antes do colapso de Nietzsche, Ecce Homo incomoda. Seu tom é arrogante, egocêntrico, próprio de um ego inflado. Foi um prenúncio de seu curto-circuito, uma vez que a queda é proporcional à altura. Mas ainda assim, é de uma eficiência ímpar.


Muito embora eu não aposte que essa tenha sido a intenção do Bigode, este livro é talvez a maior e melhor peça de marketing pessoal da História. Mesmo que a humildade seja uma característica louvável, ela não dá muitos frutos quando o que se deseja é galgar posições. Aquele que se diz "mais ou menos", que não admite seu próprio valor, que não ousa dizer que é bom em alguma coisa... Acaba por de fato não receber a devida importância, ainda que a tenha, pois o papo clichê constitui uma verdade: Se o valor pessoal não for percebido pelo seu dono, provavelmente ninguém o notará.


Lembro-me de ter achado Ecce Homo ridículo, de ter ficado com raiva de Nietzsche, mas a publicação suscitou-me a curiosidade... Quis conhecer mais para saber se aquele que estava se intitulando “o tal” realmente correspondia ao que estava dizendo, se ele realmente tinha bala na agulha para sustentar a “bronca”. Creio que essa seja uma reação universal: Quando nos deparamos com demonstrações tão veementes de auto valor, podemos até achar a coisa detestável, mas ela nunca passará despercebida. Sempre irá gerar uma reação. Uma parcela acreditará no pavão, a outra tentará derrubá-lo. Mas todos procurarão saber mais a respeito, e... isso gera ibope!


Oba!

Humildade

do Lat. humilitate

s. f.,
virtude que nos dá o sentimento da nossa fraqueza;

modéstia;

submissão;

inferioridade.

Pastando

Pela última vez neste verão que já se foi.
Até a próxima.

domingo, 22 de março de 2009

O Poeta e o Mago

Fernando Pessoa, um mistério. Poeta, astrólogo, ligado à maçonaria e à ordem Rosa-Cruz, falava através de 72 heteronômios, tendo alguns deles, os principais, direito a um mapa astral, que o poeta mesmo traçava e interpretava.

Aleister Crowley, um mistério. Contemporâneo de Pessoa, se louco ou gênio ainda não há conclusão definitiva. Dissidente da Golden Dawn, passou a se auto-intitular Frater To Mega Therion - A Grande Besta -, o homem mais odiado do mundo. Sua fama de mago negro correu os quatro cantos, e ele costumava deixar atrás de si a polêmica como marca de sua presença.

Certa vez, Pessoa leu uma coluna de Crowley em um jornal inglês que trazia um horóscopo no qual percebeu um erro. Escreveu à Crowley uma carta-correção, e o mago ficou fascinado pelo poeta. Partiu ao seu encontro em Portugal, e sabe-se que essa visita deixou como fruto a tradução de Pessoa do "Hino à Pã", de autoria de Crowley. Pessoa também ajudou o mago na simulação do seu suicídio (?!), do qual afirmou ter sido testemunha.

As fontes discordam entre si a respeito da relação inusitada destes dois. Algumas dizem que o poeta de tudo fez para se desvencilhar do mago, outras que por ele ficou fascinado... Bem, estou inclinada a acreditar que na tentativa de "limpar a ficha" de Pessoa, muitos não admitem tal ligação, uma vez que Crowley tem o filme queimadíssimo, e não é de bom tom para um poeta tão respeitado ser associado à figura estranha do mago.

Há tempos, examinando alguns documentos deixados pela "Besta", topei com o que vou transcrever na íntegra aqui. Muito embora Crowley não dê nome aos bois, tudo indica que o poeta ao qual se refere é Fernando Pessoa. Apenas para situar o leitor, explico que tal documento se trata de uma investigação que o mago estava fazendo na época, acerca de como "produzir" o gênio. Crowley acreditava que deveria haver uma forma de instigar a inspiração e o arroubo criativo, alguma fórmula que fizesse com que o que ele chamava de gênio estivesse disponível à todos, em qualquer tempo.


"ENTUSIASMO ENERGIZADO
Sub figura DCCCXI

UMA NOTA SOBRE TEURGIA


I
IAO, O Supremo Deus dos Gnósticos, o verdadeiro Deus, é o Senhor desta obra. Invoquemo-Lo portanto, por aquele nome que os Companheiros da Arca Real blasfemam, para que nos auxilie neste ensaio a declarar os meios que Ele nos deu!

II
A consciência divina que é refletida e refratada nas obras do Gênio se alimenta de uma certa secreção, assim creio. Esta secreção é análoga ao sêmen, mas não idêntica. Existem poucos homens, e um ainda mais raro número de mulheres (estas invariavelmente andróginas), que possuem a qualquer tempo em qualquer quantidade esta secreção.

Tão intimamente está esta secreção relacionada com a economia sexual orgânica que me parece às vezes como se a secreção fosse um subproduto daquele processo que gera o sêmen. Que alguma forma desta doutrina tem sido geralmente aceita através dos tempos, é demonstrado pelas universais proibições religiosas.

Tem sido assumido que a santidade depende da castidade, e a castidade tem quase sempre sido interpretada como abstenção. Mas eu duvido que a relação seja tão simples; por exemplo, eu percebo em mim mesmo que manifestações de força mental criadora sempre concorrem com alguma condição anormal dos poderes fisiológicos de geração. Mas não ocorre que longos períodos de abstenção, por um lado, ou excessos orgásticos, por outro, sejam favoráveis à manifestação de força mental criadora, ou mesmo à sua formação.
Eu me conheço bem, e em mim essa força é extremamente intensa; seus resultados são espantosos.

Por exemplo, eu escrevi Tannhäuser (Nota de M.: Poema dramático de A.C.; não confundir com a ópera de Wagner.), completo de concepção a execução, em sessenta e sete horas consecutivas. Durante esse tempo eu estive inconsciente da sucessão de dias e noites, mesmo após ter parado; nem ocorreu nenhuma reação de fadiga. Esta obra foi escrita quando eu tinha vinte e quatro anos de idade, imediatamente após o término de uma orgia que normalmente me teria exaurido por completo.

Mui frequentemente eu tenho notado que a assim-chamada satisfação sexual me deixou insatisfeito e cansado, e desprendeu as torrentes de poesia que têm desgraçado a minha carreira.

No entanto, por outro lado, um período de abstenção algumas vezes me fortificou para um grande esforço; mas isto de forma alguma tem sido invariavelmente o caso. À conclusão da expedição ao K2, após cinco meses de inatividade sexual, eu não executei absolutamente trabalho algum, com exceção de umas poucas poesias líricas esparsas; e isto durante meses após.
Eu posso mencionar o ano de 1911. Naquela época eu estava vivendo, em excelente estado de saúde, com a mulher amada. A saúde dela era, no entanto,variável, e nós estávamos ambos constantemente preocupados. O tempo que fazia era continuamente belo e quente. Durante um período de aproximadamente três meses eu não perdi quase que nenhuma manhã; sempre ao acordar eu rebentava com uma nova idéia que tinha que ser assentada no papel. A energia total de meu ser era muito alta. Meu peso era aproximadamente sessenta e seis quilos, que fora meu peso de boxeador quando dez anos mais moço. Nós caminhávamos a pé algumas vinte milhas diárias através de floresta de montanha. O número de manuscritos produzido durante essa época é surpreendente; sua variedade ainda mais; de sua excelência eu não falarei.

Eis aqui uma lista de memória; absolutamente não está completa:
1. Mais ou menos uma dúzia de livros de instruções da A.•. A.•. , incluindo Liber Astarte, e o Templo do Rei Salomão para o Equinox VII.
2. Contos:
O Lenhador.
Seu Pecado Secreto.
3. Peças:
O Violinista do Rei.
O Venerável Eel.
Escritas uma atrás da outra, sem interrupção: Adonis, Os Ghuls.
Mortadello.4. Poemas:
O Sétuplo Sacramento.
Um Aniversário.
5. Fundamentos da Qabalah Grega (necessitando a coleção e análise de alguns
milhares de palavras).

Eu creio que este fenômeno é único na história da literatura. E eu posso ainda referir-me à minha segunda viagem à Algéria, onde a minha vida sexual, se bem que cheia, não havia sido satisfatória.

Deixando Biskra, eu estava tão cheio de idéias que tive que saltar do trem em El-Kantara, onde eu escrevi "O Escorpião". Cinco ou seis poemas foram escritos no caminho para Paris; "A Ordália de Ida Pendragon" durante minha estadia de vinte e quatro horas em Paris, e "Tempestade de Neve" e "O Silêncio Elétrico" imediatamente ao meu retorno à Inglaterra.

Para resumir, eu posso sempre traçar uma conexão entre minha condição sexual e a condição de criação artística; uma conexão que é íntima ao ponto de ser quase uma identidade, e no entanto ao mesmo tempo tão distante que eu não posso predicar uma única proposição importante sobre o assunto.

São estas considerações que me entristecem quando sou censurado pelos ignorantes como desejando produzir gênio por meios mecânicos. Eu posso falhar, mas meu fracasso é mil vezes superior ao máximo sucesso dos ignorantes. Eu basearei portanto os meus comentários não tanto sobre as observações obtidas por mim mesmo, e os experimentos que eu tenho tentado, mas antes sobre os métodos clássicos e geralmente reconhecidos de produzir aquele entusiasmo energizado que é a alavanca que move Deus.


III
Os Gregos dizem que há três métodos de descarregar aquela secreção genial a que me referi. Eles pensavam talvez que seus métodos tendiam ao processo de secreção, mesmo; mas isto eu não creio por completo, ou sem dúvida. Pois a manifestação de força implica a existência de força, e esta força deve ter vindo de algum lugar. É mais fácil para mim dizer 'subconciência' e 'secreção' do que postular um reservatório externo; é mais simples estender a minha conotação de "homem" do que inventar "Deus".

Entretanto, parcimônia à parte, eu verifico em minha experiência que é inútil chicotear um cavalo exausto. Existem épocas em que estou completamente desprovido de uma gota sequer deste elixir. Nada é capaz de restaurá-lo; nem descanso na cama, nem drogas, nem exercício. Por outro lado, algumas vezes quando após um longo período de trabalho severo eu estou caindo de fadiga física, talvez estendido no chão, demasiado cansado para mover mão ou pé, a ocorrência de uma idéia me restaurou à perfeita intensidade de energia, e o desenvolvimento da idéia em questão dissipou completamente a já mencionada fadiga física, se bem que a cerebração envolve um grande trabalho adicional.

Exatamente paralelo (sem coincidir em lugar algum) é o caso da mania. Um louco pode lutar contra seis atletas treinados durante horas, sem mostrar nenhum sinal de fadiga. Então ele subitamente sofrerá um colapso, mas tão cedo a idéia que provoca o acesso ocorra novamente, ele resumirá a luta, tão descansado como se não tivesse passado pela tremenda exerção de pouco antes. Até termos descoberto "ação muscular inconsciente" e seus efeitos, era racional supor que um homem em tal condição estava "possesso de um demônio"; e a diferença entre o louco e o gênio é que o último é organizado; a loucura é caótica. Frequentemente a organização do gênio ocorre em linhas originais, e médicos ignorantes e mal-equilibrados tomam esta organização por desordem. O tempo demonstrou que Whistler e Gauguin "tinham regras" tanto quanto os mestres clássicos que -- vociferaram críticos tacanhos -- estes inovadores geniais estavam "desacatando".


IV
Os Gregos dizem que há três métodos de descarregar a garrafa de Leyden do Gênio. Estes três métodos eles atribuem a três Deuses. Estes três Deuses são Dionísio, Apolo, Afrodite. Em bom português: vinho, música e mulher.

Agora, seria um grande erro imaginar que os gregos estavam recomendando uma visita a um
 bordel. Antes condenássemos, assim, a Missa Solene na Catedral de São Pedro em Roma só porque assistimos a um comício revivalista de baixo protestantismo, estilo sul dos Estados Unidos da América. (Nota de M.: Tornar-se-a aparente do estudo deste ensaio que A.C. estava tentando informar a Igreja de Roma dos segredos perdidos por essa organização. Este ensaio foi publicado em The Equinox, cuja publicação estava sendo atentamente seguida por padres jesuítas. A Igreja de Roma agradeceu a boa intenção de sua maneira usual mordendo a mão que a afagava. Porém, a semente deu frutos e continuará dando frutos entre os padres mais inteligentes e mais aptos.) A desordem é sempre uma paródia de ordem, porque não existe nenhuma desordem arquetípica que ela possa copiar. Um crítico de segunda categoria pode parodiar um poeta; mas um poeta não pode parodiar um tal crítico. O crítico é um feixe de impressões; não existe ego atrás disso. Todas as fotografias são essencialmente semelhantes; as obras de todos os bons pintores são essencialmente diversas.

Alguns escritores supõem que nos antigos ritos de Eleusis o Grão-Sacerdote copulava publicamente com a Grã-Sacerdotisa. Fosse assim, o ato não seria mais "indecente" do que é "blasfemo" para o sacerdote fazer de pão e vinho o corpo e o sangue de Deus.

É verdade, os protestantes dizem que isto é blasfemo; mas o protestante é uma pessoa para a qual todas as coisas sagradas são profanas; cuja mente, sendo toda ela um monturo, não vê no ato sexual senão um crime ou uma pilhéria; cujas expressões faciais variam somente entre a prega de desdém e a risada de deboche. O protestantismo é o excremento do pensamento humano, e por esta razão, em países protestantes, a arte, quando existe, só existe para revoltar-se. Deixemos esta alusão pouco agradável e voltemos à nossa consideração dos métodos dos Gregos.


V
Concordemos portanto que não segue, do fato que vinho, mulher e música são os ingredientes da taverna do cais do porto, que estes ingredientes devam necessariamente produzir um veneno infernal. Existe certa gente de mentalidade tão rudimentar que eles pensam que, quando provaram que o instinto religioso é uma mera florescência do instinto sexual, destruíram a religião.

Nós deveríamos antes ponderar que a taverna do cais do porto dá ao marinheiro seu único relance do céu, tal qual a crítica destrutiva dos falicistas apenas prova que o
sexo é um sacramento. A consciência, diz o materialista de machado na mão, é uma função do cérebro. Ele apenas reformulou a antiga afirmação: "Vossos corpos são os templos do Espírito Santo!"

Ora, o sexo é com justiça santificado neste senso, que ele é o fogo eterno da raça. Thomas Henry Huxley admitiu que "alguns dos animalculae mais baixos são em certo senso imortais", porque eles continuam a se reproduzir eternamente por fissão, e não importa com que freqüência você divide x por 2, existe sempre algo que resta. Mas Huxley parece nunca ter percebido que a humanidade é imortal exatamente no mesmo senso, e continua reproduzindo-se com características semelhantes através das idades, mudada por circunstâncias do ambiente, é verdade, mas sempre idênticas a si. Mas a flor espiritual deste processo é que no momento da descarga um êxtase físico ocorre, um espasmo análogo aquele espasmo mental que a meditação outorga. E mais, no uso sacramental e cerimonial do ato sexual, a consciência divina pode ser alcançada.


VI
O ato sexual sendo então um sacramento, resta-nos considerar em que o fato de ser o ato um sacramento limita o emprego dos órgãos.

Primeiro, é claramente legítimo empregá-lo para seu propósito físico natural. Mas, se é permissível utilizá-lo cerimonialmente para um propósito religioso, verificaremos que neste caso o ato está circundado de muitas restrições.

Pois neste caso os órgãos tornam-se santos. Pouco importa à mera propagação que os homens sejam viciosos; o mais debochado roué poderia engendrar, e quase certamente engendraria, crianças mais saudáveis que um pudico semi-assexuado. Portanto, as assim chamadas restrições "morais" não estão baseadas sobre a razão; e por isto são negligenciadas.

Mas admitamos o seu propósito religioso, e podemos imediatamente declarar que o ato não deve ser profanado. Não deve ser executado com leviandade e tolice. O ato pode ser empregado para o direto objetivo de propagação da raça. O ato pode ser empregado em obediência a verdadeira paixão; pois a paixão, precisamente como o nome sugere, é inspirada antes por uma força de divino poder e beleza do que pela vontade pessoal do indivíduo; frequentemente vai contra esta vontade do indivíduo.

É apenas o casual e o rotineiro - o que Cristo chamava "ocioso" - uso, ou antes abuso, destas forças que constituí a sua profanação. Será além do mais evidente que, se o ato em si deve ser o sacramento em uma cerimônia religiosa, este ato deve ser realizado apenas por amor a Deus. Todas as considerações pessoais devem ser banidas por completo. Da mesma forma que qualquer sacerdote pode executar o milagre da transubstanciação, assim pode qualquer homem, possuindo as necessárias qualificações, executar este outro milagre, cuja natureza deve formar o assunto de uma discussão subsequente.

Objetivos pessoais tendo sido destruídos, a fortiori é necessário ignorar considerações sociais e outras semelhantes.

Beleza e força físicas são necessárias e desejáveis por razões estéticas, a atenção dos adorantes podendo ser distraída se os operadores são feios, deformados ou incompetentes. Não deve ser necessário acrescentar a necessidade de estrito autocontrole e concentração por parte destes operadores. Tal como seria blasfêmia apreciar o gosto grosseiro da base material do vinho do sacramento, da mesma forma o celebrante deve suprimir até a mais diminuta manifestação de prazer animal. Dos testes qualificadores não há necessidade de falar; é suficiente dizer que os adeptos tem sempre sido capazes de assegurar eficiência, e tem sempre sabido como obtê-la.

É desnecessário insistir numa qualidade semelhante na congregação: a excitação sexual deve ser suprimida e transformada em seu equivalente religioso.


VII
Com estes preliminares estabelecidos a fim de nos guardarmos contra já previstas críticas por parte daqueles Protestantes que, Deus os tendo feito um pouco abaixo dos Anjos, fizeram-se a si próprios muito abaixo das bêstas pela sua consistentemente bestial interpretação de todas as coisas humanas e divinas, podemos considerar primeiramente a natureza triuna destes antigos métodos de energização do entusiasmo.

A música tem duas partes: tom e ritmo. A segunda qualidade associa a música à dança; e aquela partee da dança que não é ritmo, é sexo. Agora, aquela parte do sexo que não é uma forma de dança, movimento animal, é intoxicação da alma, o que estabelece uma relação com o vinho. Outras identidades se sugerirão por si mesmas ao estudante.

Pelo uso dos três métodos em um o ente inteiro do homem pode ser estimulado. A música criará uma harmonia geral do cérebro, conduzindo-o em seus próprios caminhos; o vinho assegura um estímulo geral da natureza animal, e a excitação sexual eleva a natureza moral do homem pela sua estreita analogia com o mais elevado êxtase. Resta sempre, porém, que ele mesmo deve executar a transmutação final. A não ser que ele possua a secreção especial que eu postulei, o resultado será corriqueiro .

Tão consonante com a natureza do homem é este sistema que ele é exatamente parodiado e profanado, não apenas na taverna do cais do porto, mas no baile da sociedade. Aqui, para as naturezas mais baixas, o resultado é embriaguês, doença e morte; para as naturezas médias, um embotamento gradual dos sentimentos mais elevados; para as naturezas mais finas, uma exilaração resultando no melhor dos casos na fundação de um amor que dura uma vida inteira.

Se estes "ritos" da sociedade são devidamente executados, não deve resultar exaustão. Após um baile, a pessoa deveria sentir a necessidade de uma longa caminhada no jovem ar matinal. Cansaço ou tédio, dor de cabeça ou sonolência, são avisos da Natureza.


VIII
Agora, o propósito de um tal baile, a atitude moral ao entrar, parece a mim de suprema importância. Se você vai com a idéia de passar o tempo, você está na realidade passando a si próprio. Baudelaire fala da primeira fase do amor, quando o mancebo beija as árvores dos bosques antes que não beijar coisa alguma. Na idade de trinta e seis anos, eu me surpreendi em Pompéia, beijando apaixonadamente aquela grande grave estátua de mulher ereta na avenida das tumbas. Mesmo hoje em dia, quando eu acordo de manhã, eu às vezes beijo os meus próprios braços. É com tal sentimento que a gente deveria ir a um baile, e é com um tal sentimento, intensificado, purificado e exaltado, que deveríamos sair de um baile.

Se isto é assim, quanto mais a gente for com o direto propósito religioso queimando em nosso inteiro ser! Beethoven bramindo à madrugada não é um espetáculo estranho para mim, que grito de alegria e espanto ao compreender (sem o que ninguém pode realmente dizer que vê) uma folha de relva. Eu caio de joelhos em adoração silenciosa da lua; eu velo meus olhos religiosamente diante do esplendor sagrado de um bom quadro de Van Gogh.

Imagine-se então num baile em que a música é o côro celeste, o vinho é o vinho do Graal, ou aquele do Sabbath dos Adeptos, e nosso parceiro de dança o Infinito e Eterno, o Verdadeiro e Altíssimo Deus Vivo!

Ide até mesmo a um gafieira - sim, até isto servirá mesmo ao mínimo entre vós - com vossa alma inteira acesa dentro de vós, com vossa vontade inteira concentrada nestas transubstanciações, e dizei-me que milagre ocorre!

É o ódio contra, o desgosto pela vida, que leva a gente ao baile quando se é idoso; quando se é jovem a gente está em brasas até chegar a hora; mas o amor a Deus, que é o único verdadeiro amor, não diminui com a idade; torna-se mais profundo e mais intenso com cada satisfação. Parece como se nos mais nobres entre os homens esta secreção constantemente aumentasse - o que certamente sugere um reservatório externo - de forma que a idade perde toda a sua amargura. Nós encontramos o "Irmão Lourenço", Nicholas Herman de Lorraine, à idade de oitenta anos em contínuo gozo da união com Deus. Buddha na mesma idade subia e descia os Oito Alto Trances como um acrobata numa escada; histórias não semelhantes são relatadas sobre o Bispo Berkeley. Muitas pessoas não alcançaram união até chegarem à meia-idade, e então raramente a perderam depois.

É verdade que gênio, no sentido ordinário da palavra, quase sempre se manifestou nos jovens. Talvez nós devamos considerar casos como o de Nicholas Herman, casos de gênio adquirido.

Ora, eu sou certamente de opinião de que gênio pode ser adquirido; ou, alternativamente, que é uma possessão quase universal da raça humana. Sua raridade pode ser atribuída à influência opressora de uma sociedade corrupta. É raro encontrarmos um jovem sem altos ideais, pensamentos generosos, um senso de santidade, de sua própria importância; o que, sendo interpretado, é o seu senso de sua própria identidade com Deus. Três anos no mundo, e ele é um caixeiro de banco, ou mesmo um funcionário público. Somente aqueles que compreendem intuitivamente, desde a mais tenra infância, que devem sobressair, e que tem a incrível coragem e persistência de assim fazer a despeito de toda aquela tirania, desumanidade e zombeteiro desprezo dos inferiores, somente eles conseguem chegar à idade viril intocados.

Todo pensamento sério ou espiritual é alvo de pilhéria; poetas são considerados "efeminados" e "covardes", aparentemente porque são os únicos meninos com uma vontade própria e, com a coragem de estarem sozinhos contra toda a escola, mestres e discípulos em liga contra eles da mesma maneira que, uma vez, Herodes e Pilatos estiveram em liga; a honra é substituída por compromissos, a santidade por hipocrisia.

Mesmo onde encontramos realmente boa semente nascendo em solo favorável, com demasiada frequência existe um desperdício das forças. Demasiado fácil encorajamento de um poeta ou pintor é muito pior para ele que qualquer quantidade de oposição. Aqui novamente a Questão Sexual (assim chamada pelos carolas, pelos castrados espirituais, pelos vegetarianos-a-vapor e o resto da canalha que não sabe pensar nem falar quase de outra coisa senão esta, a ocupação constante dos seus pensamentos) intromete a sua horrenda cabeça. Eu creio que todo menino está originalmente cônscio de que o sexo é uma coisa sagrada. Mas ele não sabe o que o sexo é. Com infinita timidez ele pergunta. O professor reage com santo horror; o menino com um risinho debochado, uma careta maliciosa e obscena, talvez pior.

Eu estou inclinado a concordar com o diretor de Eton quando ele diz que paixões
pederásticas entre meninos de escola "não causam dano"; mais, eu acrescentarei que acho que tais paixões são a única faceta redentora da vida sexual em colégios internos de rapazes.

Os Hindus são mais sábios. Na hora, vigiada e esperada, da puberdade, o menino é preparado como que para um sacramento; ele é guiado a um Templo devidamente consagrado, e ali, por uma mulher sábia e santa, hábil na arte, e dedicada exclusivamente a este propósito, ele é iniciado com toda solenidade nos mistérios da vida.

Desta forma o ato é declarado religioso, sagrado, impessoal, completamente alheio ao amorismo sentimental, ao eroticismo, ao animalismo, ao pecado original e todas as outras vilezas que o Protestantismo fez dele.

A Igreja Católica, até certo ponto, creio eu, preservou a tradição Pagã. O Casamento é um sacramento (Naturalmente, existiu um escola de diabólicos anandros que mantiveram que o ato, em si, é "maligno". De tais blasfemadores da Natureza o melhor é que nada mais seja dito.). Mas em sua tentativa de depravar o ato de todas as adições que o profanariam, os Patriarcas da Igreja adicionaram, a despeito de si mesmos, outros acréscimos que o profanaram mais. Eles o ligaram as idéias de propriedade material e de herança. Eles quiseram que o ato servisse tanto a Deus quanto a Mammon.

Corretamente restringindo o sacerdote, que deve empregar toda a sua energia para o milagre da Missa, eles fizeram deste conselho de perfeição uma perfeição em demasia. A tradição mágica foi parcialmente perdida; o sacerdote não podia fazer o que se esperava dele, e a porção reprimida da sua energia azedou-se. Daí, os pensamentos de sacerdotes católicos, da mesma forma que os pensamentos dos modernos protestantes, revolvem eternamente em volta da Questão Sexual. Uma Missa especial e secreta, uma Missa do espírito Santo, uma Missa do mistério da Encarnação, para ser executada a intervalos estabelecidos, poderia ter salvado tanto monges quanto freiras, e dado à Igreja eterno domínio do mundo.


IX
Voltando ao assunto. A raridade da manifestação do gênio é em grande parte devida à destruição de seus rebentos. Mesmo tal como na vida física é uma exceção a planta de cujas mil sementes uma germina e cresce, da mesma maneira as condições presentes da humanidade matam todos a não ser os mais fortes filhos do gênio.

Mas da mesma forma como os coelhos aumentam diariamente na Austrália, onde se sabe que até mesmo um missionário engendrou noventa crianças em dois anos, da mesma maneira nós seremos capazes de criar gênio, se pudermos descobrir as condições que o impedem, e pudermos removê-las.

O óbvio passo prático a tomar é restaurar os ritos de Baco, Afrodite e Apolo a seu lugar devido. Eles não deveriam estar abertos a qualquer um, e a idade viril seria a recompensa de ordália e iniciação.

Os testes físicos deveriam ser severos, e os fracos deveriam ser eliminados, não artificialmente preservados. A mesma observação se aplica a testes intelectuais. Mas tais testes deveriam ser tão amplos em alcance quanto possível. Eu era um absoluto inútil na escola em todo tipo de atletismo e jogos, porque eu desprezava estas atividades. No entanto eu mantive, e ainda mantenho, numerosos recordes mundiais de alpinismo. Similarmente, exames não medem inteligência. Cecil Rhodes recusava dar emprego a qualquer homem com um grau universitário. Que tais graus levam a honrarias e prosperidade na Inglaterra é simplesmente um sinal da decadência da Inglaterra, se bem que mesmo na Inglaterra estes graus são usualmente os degraus da escadaria cujo topo é a preguiça clerical ou a escravidão pedagógica.

Tal é o esboço esquemático da pintura que eu queria traçar. Se o poder de possuir propriedade material dependesse da competência pessoal de um homem, e da percepção de valores reais por parte dele, uma nova aristocracia seria imediatamente criada; e o fato mortífero que a consideração social hoje em dia varia com o poder de comprar champanhe deixaria de ser um fato. Nossa pluto-hetairo-politicocracia cairia em um só dia.

Mas eu estou demasiado cônscio de que uma tal pintura provavelmente não será executada. Nós podemos então somente trabalhar paciente e secretamente. Nós devemos selecionar apropriado e treiná-lo com a maior reverência nestes três métodos principais, ou auxiliar a alma em seu orgasmo genial.


X
Esta atitude de reverência é de uma importância que eu não posso exagerar. Gente normal experimenta alívio normal de qualquer excitação geral ou especial no ato sexual.

O Comandante Marston, R.N.; cujos experimentos sobre o efeito do tom-tom na mulher inglesa casada são clássicos e conclusivos, descreveu admiravelmente como o vago desassossego que ela demonstra ao princípio gradualmente assume a forma de excitação sexual e culmina, se assim for permitido, em masturbação desavergonhada ou solicitações indecentes. Mas este e um corolário natural da proposição que inglesas casadas usualmente desconhecem a satisfação sexual. Seus desejos são constantemente estimulados e nunca gratificados por maridos brutais e ignorantes. Este fato, novamente, explica a espantosa quantidade de casos de safismo na alta sociedade inglesa.

Os Hindus previnem seus discípulos contra os perigos de exercícios respiratórios. Efetivamente, a mínima relaxação dos tecidos físicos ou morais pode fazer com que a energia acumulada pela prática se descarregue numa emissão involuntária. Eu já notei este fenômeno em minha própria experiência.

É portanto da máxima importância realizar que o alívio da tensão deve ser encontrado naquilo que os Hebreus e os Gregos chamavam profecia, e que é melhor quando organizado numa arte. A descarga desordenada é mero desperdício, um deserto de uivos; a descarga ordeira é um "Prometeu Libertado", ou uma "Láge dáiran", de acordo com as aptidões especiais da pessoa entusiasmada. Mas deve ser lembrado que aptidões especiais são muito fáceis de adquirir se a força impelidora do entusiasmo for grande. Se você não pode observar as regras alheias, estabeleça regras próprias. Um grupo de regras, no final das contas, é tão bom quanto qualquer outro.

Henri Rousseua, o douanier, foi apupado a vida inteira. Eu ri tanto quanto o resto; se bem que, quase que a despeito de mim mesmo, eu repetia (como soe frase ser) que "eu sentia algo; um não - sei - quê."

No momento em que ocorreu a alguém a idéia de colocar todas as pinturas dele numa sala por si sós, tornou-se instantaneamente evidente que a naiveté dele era a simplicidade de um mestre.

Que ninguém imagine que eu não percebo, ou que avalio mau, os perigos inerentes no emprego destes métodos. A ocorrência até de uma coisa tão simples como a fadiga poderia fazer de uma Las Meninas uma estúpida crise sexual. Será necessário a maior parte dos ingleses emular o autocontrole dos árabes e hindus, cujo ideal é deflorar a maior quantidade possível de virgens - oitenta é considerado número mais ou menos satisfatório sem completar o ato.

É, realmente, de importância primária para o celebrante em qualquer rito fálico que ele seja capaz de completar o ato sem uma vez sequer permitir a um pensamento sexual ou sensual que lhe invada a mente. A mente deve estar tão absolutamente desprendida do nosso próprio corpo quando ela está no corpo da outra pessoa.


XI
De instrumentos musicais, pouco são apropriados. A voz humana é o melhor, e o único que pode com utilidade ser empregado em coro. Qualquer coisa parecida com uma orquestra implica infinito ensaio, e introduz uma atmosfera de artificialidade. O órgão é um instrumento muito valioso para solos, e é uma orquestra em si, enquanto que seu tom e associações favorecem a idéia religiosa.

O violino é o mais útil de todos, pois todo e cada um dos seus matizes expressa a fome pelo infinito; e no entanto ele é tão fluente e tem um diapasão maior que aquele de qualquer dos seus competidores. Acompanhamento deve ser dispensado, a não ser que haja um harpista disponível.

A acordeão é um instrumento horrível, quando não seja por causa das associações que traz a mente; e o piano se lhe assemelha, se bem que, se invisível e tocado por um Paderewski, serviria.

A trombeta e a campainha são excelentes, para surpreender, nas crises de uma cerimônia.

Quente, vibrante, apaixonado, e uma classe diversa de cerimônia, uma classe mais intensa e mais direta, o tom - tom é incomparável. Combina bem a prática de mantra, e é o melhor acompanhamento para qualquer dança sagrada.


XII
De danças sagradas, a mais prática para uma assembléia é a dança sentada. A gente se senta de pernas cruzadas no chão, e inclina o corpo de um lado para o outro partindo dos quadris, em ritmo com o mantra. Um solo ou dueto de dançarinos como um espetáculo causa distração neste exercício. Eu sugeria uma luz muito pequena e muito brilhante no chão no meio da sala. Uma tal sala serve melhor se forrada com mármore em mosaico; o tapete de uma loja maçônica ordinária não é mau.

Os olhos, se enxergam, vêem apenas os quadrados mecânicos ou rítmicos, conduzindo em perspectiva a simples, quieta luz no centro.

A oscilação do corpo com o mantra (o qual tende a subir e descer por si mesmo de um modo muito esquisito) torna-se mais acentuada; finalmente ocorre um curioso estágio espasmódico, e então a consciência oscila e se vai; talvez irrompe na consciência divina, talvez é meramente retornada a si mesma por alguma variável de impressão externa.

O acima é uma descrição muito elementar de uma forma de cerimônia muito simples e muito séria, baseada inteiramente sobre o ritmo. É facílima de preparar, e seus resultados são usualmente muito encorajadores para o principiante.


XIII
O vinho sendo um zombador, e bebida mais forte sendo enraivecedora, seu uso é mais capaz de produzir distúrbios que a mera música.

Uma dificuldade essencial é a dosagem. A gente necessita exatamente o suficiente; e, como observa Blake, só se pode verificar quando é suficiente tomando demais. Para cada homem a dose varia e normalmente; assim também para o mesmo homem em momentos diversos.

A solução cerimonial deste problema é ter um auxiliar silencioso que leva consigo o vaso de libação, e o apresenta a cada um dos celebrantes em sucessão, a intervalos frequentes. Pequenas doses deveriam ser bebidas, e o vaso recusado ou aceito quando o celebrante julgar aconselhável; porém, o portador do vaso deveria ser um iniciado, e exercer sua própria discrição antes de apresentar o vaso. O mínimo sintoma de que intoxicação está se apossando de um participante deveria ser um sinal para o portador não apresentar o vaso aquele participante. Esta prática pode ser facilmente combinada com a cerimônia previamente descrita.

Se desejado, em vez de vinho o elixir introduzido por mim na Europa pode ser empregado. Mas seus resultados, se usado desta maneira, não foram ainda completamente estudados. É meu propósito imediato reparar esta negligencia.


XIV
A excitação sexual, que deve completar a harmonia do método, oferece um problema mais difícil.

É excepcionalmente desejável que os movimentos corporais necessários nas circunstâncias sejam decorosos no mais elevado sentido da palavra; e muita gente está tão mal condicionada que será incapaz de observar uma semelhante cerimônia a não ser com olhos críticos ou lascivos; uma coisa ou outra seria fatal a todo o trabalho prévio de preparação. Presumivelmente é melhor esperar até todos os presentes estarem grandemente exaltados antes de arriscar uma profanação.

Não é desejável, na minha opinião, que celebrantes comuns executem isto em
público.
O sacrifício deveria ser único.
Se ou não...


XV
Até aqui eu havia escrito quando o distinto poeta cuja conversação sobre os Mistérios me havia incitado a rabiscar estas poucas notas superficiais bateu à minha porta. Eu lhe disse que estava trabalhando nas idéias sugeridas por ele, e que bem, que eu não sabia como continuar. Ele pediu permissão para ver o manuscrito (pois ele lê o inglês fluentemente, se bem que o fala pouco), e isso feito, animou-se e disse: "Se você vier comigo agora, nós terminaremos o seu ensaio". Contente de encontrar qualquer desculpa para não continuar trabalhando, e quanto mais plausível melhor, eu apressei-me a vestir meu casaco e a por o meu chapéu.

Por falar nisto, ele observou no automóvel, "eu creio que você não se importaria de me dar a Palavra de Rose Croix". Surpreendido, eu troquei os segredos de I.N.R.I. com ele. "E agora, mui excelente e perfeito Príncipe", ele disse, "o que segue está sob este gelo", e ele deu-me o mais solene de todos os signos maçônicos. "Você está a ponto", disse ele, "de comparar o seu ideal com o nosso real".

Ele tocou uma campainha. O automóvel parou, e nós soltamos. Ele despediu o chauffeur. "Venha", disse ele, "nós temos quase um quilometro bem batido a percorrer". Nós caminhamos através de espessos bosques até uma casa velha, onde fomos recebidos em silêncio por um cavalheiro que, se bem que em roupas de gala, tinha na mão uma espada muito "praticável". Satisfazendo-o, nós fomos passados adiante através de um corredor a uma antecâmara, onde outro guardião armado nos esperava. Este, após outro exame, ofereceu-me roupagens de côrte, a insígnia de um príncipe soberano de Rose Croix, e uma jarreteira e manto; a jarreteira de seda verde, o manto de veludo verde, e forrado com seda cor de cereja. "É uma missa ordinária", cochichou o guardião. Nesta antecâmara estavam três ou quatro outros, tanto senhoras quanto cavalheiros, afanosamente colocando as roupagens.

Em uma terceira sala nós encontramos uma procissão formada, e juntamo-nos a ela. Havia vinte e seis de nós. Passando um último guardião, nós entramos na capela mesma, em cujo umbral estavam de pé um mancebo e uma mocinha, ambos vestidos em simples robes de seda branca bordada a ouro, vermelho e azul. O primeiro empunhava uma tocha de madeira resinosa; a segunda nos salpicou ao passarmos com água de rosas de uma taça.

A sala em que nós agora estávamos havia sido uma capela; tanto era demonstrado pela sua forma. Mas o altar-mor estava coberto com uma toalha que exibia a Rosa e Cruz, enquanto que sobre esta estavam enfileirados sete candelabros, cada qual de sete ramos.

Os bancos haviam sido conservados; e à mão de cada cavalheiro estava uma vela acesa de cera cor-de-rosa, e diante dele um buque de rosas, No centro da nave jazia uma grande cruz - uma cruz de calvário de dez quadrados", medindo, digamos seis por cinco pés - pintada em vermelho sobre uma prancha branca, dos lados da qual pendiam anéis através dos quais saíam as pontas de postes dourados que passavam por baixo da prancha. Em cada ângulo desta estava ereto um estandarte, mostrando leão, touro, águia e homem; e do topo entre os quatro estendia-se um dossel azul, onde estavam figurados em ouro os doze emblemas do zodíaco.

Cavalheiros e Damas tendo tomado seus lugares, subitamente uma campainha tilintou me arquitrave. Instantaneamente todos se ergueram. As portas abriram-se a um toque de trombetas de fora, e um arauto avançou, seguido pelo Alto Sacerdote e Sacerdotisa.

O Alto Sacerdote era um homem de aproximadamente sessenta anos de idade, se posso julgar pela barba branca; mas ele caminhava com o passo elástico, se bem que seguro, dos trinta. A Grã Sacerdotisa, uma orgulhosa alta, sombria mulher de talvez trinta anos de idade, vinha a seu lado, as mãos de ambos erguidas e tocando-se como no minueto. Os mantos de ambos eram conduzidos pelo casal de jovens que nos havia admitido.

Enquanto tudo isto se passava, um órgão invisível tocava um Intróito.

Isto cessou quando eles tomaram seus postos no altar. Eles voltaram-se em direção ao Oeste, esperando.

Ao fechar das portas, o guarda armado, que estava vestido em um robe escarlate em vez de verde, desembainharam as suas espadas e voltaram-se para fora, mantendo as pontas das espadas diante de si. Esta parte da cerimônia pareceu interminável. Quando acabou, a moça e o mancebo reapareceram; carregando, uma um vaso, o outro, um turíbulo. Cantando alguma litania, aparentemente em grego, se bem que eu não pude pegar as palavras, eles purificaram e consagraram a capela. Agora o Alto Sacerdote e a Grã sacerdotisa começaram uma litania em linha rítmicas de igual comprimento. A cada terceira resposta eles tocavam as mãos de uma maneira peculiar; a cada sétima eles se beijavam. A vigésima primeira foi um abraço completo. A campainha tilintou na arquitrave; e eles se separaram. O Alto Sacerdote então tomou de sobre o altar um frasco curiosamente modelado para imitar um falo. A Grã Sacerdotisa ajoelhou-se e apresentou uma taça de ouro moldada na forma de um barco. Ele ajoelhou-se do outro lado dela, mas não verteu do frasco.

Agora os Cavalheiros e Damas começaram uma longa litania; primeiro uma dama em voz fina, então um cavalheiro em voz masculina, então uma resposta em coro de todos os presentes com o órgão. Este Coro era: EVOE HO, IACCHE! EPELTHON, EPELTHON, EVOE, IAO!

De novo e de novo este coro ergueu-se e caiu. Lá para o fim, fosse um efeito teatral ou não, eu não posso assegurar, a luz sobre o altar tornou-se rósea, então púrpura. O Alto Sacerdote súbita e incisivamente ergueu a mão; silêncio instantâneo. Ele agora verteu o vinho do frasco. A Grã Sacerdotisa deu-o à jovem assistente, a qual levou-o a todos os presentes.

Isto não era um vinho ordinário. Já foi dito de vodka que parece água e tem gosto de fogo. Com este vinho o reverso é o caso. Ele era de um rico ouro de fogo, em que flamas de luz dançavam e tremiam; mas seu gosto era límpido e puro como água fresca da fonte. Tão cedo eu bebi dele, porém, eu comecei a tremer. Era uma sensação muitíssimo surpreendente; eu posso imaginar que um homem se sinta assim quando está esperando pelo carrasco; quando passou o estágio de medo, e só resta excitação.

Eu olhei a minha bancada, e vi que cada qual era afetado da mesma maneira. Durante a libação, a Alta sacerdotisa cantou um hino, novamente em grego. Desta vez eu reconheci as palavras; eram as de uma velha Ode a Afrodite. O mancebo assistente agora desceu à cruz vermelha, ajoelhou-se e beijou-a; então dançou sobre ela de uma tal forma que ele parecia estar traçando as linhas de uma maravilhosa rosa de ouro, pois a percussão fez com que uma chuva de pó brilhante caísse do dossel. Enquanto isso, a litania (palavras diversas, mas o mesmo coro) recomeçou. Desta vez era um dueto entre o Alto Sacerdote e a Grã sacerdotisa. A cada coro Cavalheiro e damas se curvavam profundamente. A moça movia-se continuamente à roda, e o vaso passava.

Isto terminou com a exaustão do mancebo, que caiu desfalecido sobre a cruz. A moça imediatamente tomou o vaso e chegou-o aos lábios dele. Então ele levantou-se e, com o auxílio do Guardião do Santuário, levou-o para fora da capela.
A campainha novamente tilintou na arquitrave.
O arauto tocou uma fanfarra.

O Alto Sacerdote e a Grã Sacerdotisa moveram-se majestosamente um em direção ao outro e abraçaram-se e beijaram-se, no ato desatando os pesados robes dourados que vestiam. Estes robes tombaram, gêmeos lagos de ouro. Eu agora vi-a vestida de seda watered, forrada por completo (como depois tornou-se evidente) com arminho.

A vestimenta do Alto Sacerdote era um bordado elaborado de todas as cores, harmonizadas por uma arte delicadíssima, entretanto robusta. Ele usava também peitoral correspondendo ao dossel: uma "besta" esculpida em ouro a cada canto, enquanto que os doze signos do zodíaco eram simbolizados pelas pedras do peitoral.

A campainha tilintou ainda uma vez, e o arauto de novo fez soar sua trombeta. Os celebrantes moveram-se de mãos dadas ao longo da nave enquanto o órgão trovejava suas harmonias solenes.

Todos os Cavalheiros e Damas ergueram-se e deram o signo secreto da Rose Croix. Foi nesta parte da cerimonia que coisas começaram a acontecer comigo. Eu tornei-me subitamente cônscio de que meu corpo perdera tanto o peso quanto o senso do tato. Minha consciência parecia não mais estar situada em meu corpo. Eu "me confundi", se eu posso usar esta expressão, com uma das estrelas no dossel. Desta maneira eu não vi os celebrantes enquanto eles se aproximavam da cruz. A campainha tilintou de novo; eu retornei a mim mesmo, e então vi que a Grã sacerdotisa, de pé ao pé da cruz, havia atirado seu robe sobre esta, de forma que a cruz não mais era visível. Havia apenas um estrado coberto de arminho. Ela estava agora nua a não ser pelo seu diadema colorido e cravejado de jóias, a pesada coleira de ouro em volta de seu pescoço, e os braceletes e tornozeletes que combinavam com esta. Ela começou a cantar em uma linguagem doce e estranha, tão baixo e tão suavemente que em minha parcial confusão eu não pude ouvir tudo; mas eu peguei algumas palavras, Io Pan! Io Pan! E uma frase em que as palavras Ias Sabao terminavam enfaticamente uma sentença em que eu distingui as palavras Eros, Thelema e Sebazo.

Enquanto assim fazia, ele desatou o peitoral do Alto Sacerdote e deu-o a moça assistente. Seguiu a vez do robe; eu vi que eles estavam nus e sem vergonha. Pela primeira vez houve silêncio absoluto.

Agora, de uma centena de jatos em volta do tablado esguichou uma fumaça perfumada e púrpura. O mundo foi envolto em uma acariciante gaze de névoa, sagrada como as nuvens no cume das montanhas.

Então, a um sinal dado pelo Alto Sacerdote, a campainha tilintou uma vez mais. Os celebrantes estenderam seus braços na forma de três círculos e meio. Ela então deitou-o sobre a cruz, e tomou o seu lugar apontado.

O órgão de novo fez rolar sua solene música.

Eu estava perdido para tudo. Eu vi apenas isto, que os celebrantes não faziam nenhum movimento esperado. Os movimentos eram extremamente curtos; no entanto extremamente fortes.

Isto deve ter continuado durante muito tempo. A mim pareceu-me como se a eternidade mesma não pudesse conter a variedade e profundidade de minhas experiências. Nem língua nem pena poderiam registrá-las; e no entanto eu anseio por tentar o impossível.

1 - Eu era, certamente, indubitavelmente, a estrela no dossel. Esta estrela era um mundo inconcebivelmente enorme de pura flama.

2 - Eu subitamente percebi que a estrela não tinha nenhum tamanho. Não é que a estrela diminuísse de tamanho; é que ela (=eu) tornou-se subitamente cônscia do espaço infinito.

3 - Uma explosão tomou lugar. Em conseqüência eu era um ponto de luz, infinitamente pequeno, no entanto infinitamente brilhante; e este ponto não tinha posição.

4 - Consequentemente, este ponto era ubíquo, e havia um sentimento de infinito assombro e desorientação, cegado depois de muito tempo por um jorro de ruptura infinita (eu uso a palavra "cegado" como se forçado a assim fazer; eu teria preferido usar as palavras "apagado", ou "esmagado", ou "iluminado").

5 - Esta infinita repleção - eu não a descrevi como tal, mas assim era - foi subitamente mudada em uma sensação de infinito vazio, que se tornou consciente como uma ânsia.

6 - Estes dois sentimentos começaram a alternar-se, sempre subitamente, e sem se confundirem um com o outro, muito rapidamente.

7 - Esta alternação deve ter ocorrido cinqüenta vezes - eu teria antes dito uma centena.

8 - Os dois sentimentos subitamente se tornaram um só. Novamente a palavra explosão é a única que dá qualquer idéia disto.

9 - Agora pareceu-me que me tornara consciente de tudo simultaneamente, que era tudo, ao mesmo tempo um e muitos. Eu digo simultaneamente, isto é: eu não era sucessivamente todas as coisas, mas instantaneamente.

10 - Este ente, se posso chamá-lo de ente, pareceu cair dentro de um infinito abismo
de Nada.

11 - Enquanto esta "queda" se processava, a campainha subitamente tilintou três vezes. Eu instantaneamente me tornei meu ser normal, no entanto com uma percepção constante, a qual nunca mais me deixou até agora, de que a verdade neste assunto não é este "eu" normal, mas "Aquilo" que está ainda caindo no Nada. Asseguraram-me aqueles que sabem, que eu serei capaz de retomar o fio se presenciar outra cerimônia.

O tilintar da campainha esvaiu-se por fim. A moça assistente correu a cobrir os celebrantes com as dobras do arminho. O arauto tocou uma fanfarra, e os Cavalheiros e Damas deixaram as bancadas. Avançando ao tablado, nós tomamos os postes dourados para carregar, e seguimos o arauto em procissão para fora da capela, levando a liteira a uma pequena capela lateral saindo da antecâmara do meio; e ali a deixamos, o guarda fechando as portas.

Em silêncio nos desvestimos, e deixamos a casa. A uma milha mais ou menos através do bosque nós encontramos o automóvel do meu amigo esperando. Eu perguntei a ele, se aquilo era uma missa ordinária, não me poderia ser permitido assistir a uma Missa Solene?

"Talvez", respondeu ele com um curioso sorriso, "se tudo que dizem de si é verdade".

Entretanto ele me deu permissão de descrever a cerimonia e seus resultados com tanta fidelidade quanto eu fosse capaz, recomendando-me apenas que não desse nenhuma indicação da cidade perto da qual ela ocorrera.

Eu estou disposto a indicar a iniciados do grau Rose Croix da maçonaria sob a devida patente das autoridades legítimas (pois existem Maçons espúrios trabalhando sob uma patente forjada) o endereço de uma pessoa disposta a considerar sua capacidade de se afiliarem a um capítulo praticando ritos deste tipo.

XVI
Eu considero desnecessário e supérfluo continuar meu ensaio sobre os Mistérios e minha análise do Entusiasmo Energizado.

ALEISTER CROWLEY"

quinta-feira, 19 de março de 2009

Welcome To The Machine

O argumento mais usado contra Deus é o de que Ele, se existe, é um sádico, e não um Pai amantíssimo, pois deixa que aconteçam as piores fatalidades aos seus filhos. Mas o que é que esperamos dos nossos próprios pais, senão que nos deixem livres para sermos o que somos, que não se intrometam em nossas decisões e não interfiram em nossas vidas? Não esperamos também que, mesmo discordando de tudo e se lamentando pelas nossas escolhas, atos e caminhos que por vezes até os envergonham e lhes criam problemas, eles nos amem incondicionalmente? A prova maior deste amor incondicional não é justamente não meter o bedelho em nossas vidas, mas ser capazes de nos dar amor, ainda que por vezes não mereçamos?

Robôs que emulam emoções humanas estão sendo desenvolvidos e já existem experimentos que visam à criação de humanóides providos de Inteligência Artificial, com a função de tomar o lugar de pets, empregados domésticos ou mesmo para ser amigos de seus donos. Já existem previsões até de casamentos com robôs e sociólogos dizem que estes podem ser mais companheiros que humanos. Já se antevê a troca de todo contingente militar humano por robôs. Depois de dado o start, a Inteligência Artificial é capaz de evoluir por si mesma. Sim! Realmente fomos feitos à Sua imagem e semelhança e, tal como Ele, também criaremos vida inteligente e emocionalmente responsiva para satisfazer nossos planos.

...E por acaso não é isso que os pais fazem quando colocam filhos no mundo? Não há como perguntar à alguém se esta pessoa quer nascer. Pais simplesmente tomam a decisão e condenam seus filhos à morte (uma vez que eles não podem ter garantia da vida que os filhos vão levar e nem mesmo se vão sobreviver, mas têm a certeza de que um dia irão morrer), por conta de uma vontade, ou quem sabe necessidade, deles, não dos rebentos. Mas ainda assim, quando estamos felizes - e a felicidade é um bálsamo que faz qualquer um esquecer suas mazelas -, agradecemos à eles pela oportunidade que nos deram de experimentar a vida e toda essa miríade de sensações da qual é feita.

Antes que o projeto esteja perfeito para uso, muitos protótipos robóticos terão de ser lamentavelmente desligados, pela consequência de problemas de hardware ou software mal desenvolvidos ou que apresentaram erros e incompatibilidades durante seu teste de funcionamento. Mas se o plano final é a perfeição, o sacrifício de alguns indivíduos é totalmente... Irrelevante.

Aaaaaaaaamééééééém!
KKKKKKKKKKKKKKKKKKK

Mas diga aí, Mestre Bigode... E se ao fim da ponte que é o Homem, estiver uma máquina?
O Homem precisa ser suplantado, tu mesmo o disseste. Talvez essa evolução precise ser... Implantada! Literalmente implantada.

Meio homem, meio robô. Raciocínio perfeito como o de um computador. Conhecimento e saúde para todos. Transmissão virtual de pensamentos e sensações. Somos co-criadores da realidade, e se fomos feitos à Sua imagem e semelhança, também somos todos... Deuses!

Então... Namastê*.

*Minha divindade saúda a sua divindade.


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Cientistas criam cérebro robótico capaz de evoluir

Programar robôs da forma tradicional, como se faz um programa de computador, é uma tarefa repetitiva e exaustiva. Cada tarefa, cada passo e cada situação diferentes devem ser cuidadosamente previstos e transformados em comandos para que o robô consiga lidar com questões triviais do dia-a-dia.

Mas há alternativas, duas delas segmentadas de forma muito parecida com o que a ciência atualmente faz com o próprios seres humanos.

Aprendizados psicológico e biológico

A primeira delas é uma abordagem psicológica, por meio da qual se procura ensinar um robô, não tarefas específicas, mas como ele pode aprender por si só. O exemplo mais recente desta abordagem pode ser vista na reportagem "Os robôs estão vindo. Será que estamos preparados?".

A segunda abordagem é a biológica, em que se procura fazer com que o robô evolua com o tempo, da mesma forma que os seres vivos evoluíram de organismos unicelulares até os primatas mais complexos de hoje. Este é o enfoque adotado pela equipe do professor Christopher MacLeod, da Universidade Robert Gordon, na Inglaterra.

Cérebro robótico capaz de evoluir

O que ele e sua equipe está desenvolvendo é um “cérebro de robô” - um programa de computador elaborado com base em conceitos de redes neurais e inteligência artificial - capaz de se adaptar a alterações físicas no corpo do próprio robô - como o acréscimo de um novo sensor ou de um nova garra manipuladora, de forma muito parecida com o que acontece quando acrescentamos um periférico ao nosso computador.

“Se nós queremos fazer robôs humanóides realmente complexos, com cada vez mais sensores e comportamentos mais complexos, é essencial que eles sejam capazes de crescer em complexidade ao longo do tempo - exatamente como as criaturas biológicas fizeram,” explica MacLeod.

Os cientistas acreditam que o cérebro dos animais cresceu em complexidade com a adição de novos grupos de neurônios acima dos já existentes, fazendo a complexidade do cérebro crescer e tornando-os capazes de lidar com as novas situações e com as alterações físicas que eles sofreram ao longo do tempo.

Robô que evolui

O robô capaz de evoluir, que está sendo construído pelos pesquisadores, é controlado por uma rede neural, um programa de computador que replica a forma como o cérebro animal aprende. Isto permite que ele seja “treinado” para produzir as ações desejadas, sem que cada passo dessas ações precise ser previsto. O resultado é um robô que se torna capaz de lidar até mesmo com situações imprevistas.

A limitação é que esse processo de aprendizado é demorado - os animais levaram milhões de anos para percorrer essa trilha. Os cientistas então usam um algoritmo evolucionário, efetuando variações nos controles do robô e mensurando os melhores resultados, de forma a determinar quando o robô aprendeu a fazer determinada tarefa.

É o caso, por exemplo, de um robô humanóide, que precisa aprender a ficar de pé. O programa recebe as leituras dos sensores de equilíbrio e aciona os diversos motores, inicialmente de forma aleatória. A cada movimento que não dá certo, fazendo o robô cair, o algoritmo aprende e cria uma nova variação de movimentos para ser testada.

Genoma robótico

Como na natureza, essas variações são aleatórias, criadas a partir de diversos “genomas” para representar diversos padrões de comportamento e formas de agir. Os genomas que dão mais certo, adaptando o robô para lidar com a situação, vão sendo juntados para criar novos genomas mais “evoluídos”, até se atingir o comportamento desejado.

O cérebro evolutivo para robôs começa funcionando com seis “neurônios”. Ele foi capaz de fazer com que um robô bastante simples aprendesse a forma mais eficiente de percorrer uma determinada distância em 1.000 segundos.

Algoritmo evolucionário incremental

Os cientistas perceberam que os algoritmos evolucionários tradicionais alcançam rapidamente um limite e o robô para de aprender. Eles então desenvolveram um algoritmo evolucionário incremental, que fixa o aprendizado alcançado e parte para melhorias automaticamente.

O teste principal, contudo, ainda estava por vir. Os pesquisadores colocaram novas “pernas” no robô, o que fez com que ele se tornasse incapaz de cumprir sua tarefa de movimentação como fazia antes.

O algoritmo evolucionário incremental criou então novos “neurônios”, que aprenderam a lidar com as novas pernas e refez o aprendizado de andar. A seguir, ele aprendeu novamente como cumprir a sua tarefa de percorrer a distância no prazo determinado.

Próteses inteligentes

O cérebro robótico também aprendeu como lidar com a visão. Quando o robô recebeu uma câmera, a rede neural criou novos neurônios que permitiram que ele aprendesse a seguir ou evitar a luz captada pela câmera.

As possibilidades de aplicação dos novos algoritmos evolucionários incrementais são inumeráveis, abarcando toda a área da robótica.

Os pesquisadores planejam utilizá-lo também no controle de novas próteses inteligentes, como pernas e braços robóticos.

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Update - Putz, como fui esquecer logo a trilha sonora?


Weird Science
Oingo Boingo


From my heart and from my hand
Why don't people understand
My intentions... Weird!!

(Weird science)
Plastic tubes and pots and pans
Bits and pieces and
Magic from the hand
We're makin'

(Weird science)
Things I've never seen before
Behind bolted doors
Talent and imagination

(Weird science)
Not what teacher said to do
Makin' dreams come true
Living tissue, warm flesh

(Weird science)
Plastic tubes and pots and pans
Bits and pieces (and)
Bits and pieces (and)

CHORUS

It's my creation--Is it real?
It's my creation...Ohhh my creation
It's my creation
(Weird Science)
Weird...

(Weird science)
Magic and technology
Voodoo dolls and chants
Electricity We're makin'

(Weird science)
Fantasy and microchips
Shooting from the hip
Something different
We're makin'

(Weird science)
Pictures from a magazine
Diagrams and charts
Mending broken hearts (and makin')

(Weird science)
Something like a recipe
Bits and pieces (and)
Bits and pieces (and)

It's my creation--Is it real?
It's my creation--I do not know
No hesitation--No heart of gold
Just flesh and blood--I do not know
I do not know!!

From my heart and from my hand
Why don't people understand
My intentions . . . .

(Weird science)
Magic and technology
Voodoo dolls and chants

(Weird science)
Things I've never seen before
Behind bolted doors

(Weird science)
Not what teacher said to do
Bits and pieces (and)
Bits and pieces (and)

It's my creation--Is it real?
It's my creation--I do not know
No hesitation--No heart of gold
Just flesh and blood--I do not know
It's my creation, It's my creation
My creation,Ohh my creation
Ohhhh my creation, It's my creation

From my heart and from my hand
Why don't people understand
My intentions . . . .

Ohh Weird
Ohhh Weird Science
Ohh Weird
Ohhh Weird Science
Weird Science
Ohhh Ow Ow Ow
Bits and pieces
Bits and pieces
Weird Science
(Weird Science)
(Bits and pieces)
Weird Ow ow ow
Weird Science........

It's my creation--Is it real?
It's my creation--I do not know
Ow my creation--Is it real?
Just flesh and blood
Just flesh and blood
Just flesh and blood!!!

Weird Science
Weird Science

Weird Science
Weird Science

Weird Science
Weird Science

(And) Bits and pieces
Bits and pieces........

Science...


Deus...



...não é o que parece.



quarta-feira, 18 de março de 2009

Hofmann

Esqueceu que está vivo?

Não se desespere!

Fala com o Vovô que ele te lembra!




Salve Grande Vovô!

Arco-Íris


Viado frustrado
Esta é a minha condição
Esse é um estranho estado
Que nada tem de opção

Um corpo de mulher possuo
E nele não encontro lugar
Com cabeça de gay continuo
Seguindo meu caminhar

Ser macho eu desejo
Não para mulher comer
Pois um falo é o que elejo
Para na cama me satisfazer

De uma xana até gosto
De vez em quando, para brincar
Mas no meio do lance, eu aposto
Uma rola não pode faltar

“Tens tudo em mãos, estás louca
Que mais poderias querer?
Nasceste já mulher, não é sorte pouca
És o que todo viado gostaria de ser”

Neste pensar não gasto uma ficha
É um raciocínio ignorante
Coisa de quem nunca conheceu bicha
E pensando errado segue adiante

Travesti é o insatisfeito
Ao contrário do viado
Que feliz está por não ter peito
Nem o meio das pernas furado

Um grande pau eu gostaria de ter
Isso é coisa do diabo
Pois com ele não iria meter
E seguiria dando o rabo.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ah, o que falta é educação, né?

Um dia eu acreditei em educação.


Trabalhei em uma farmácia na qual a equipe de balconistas e caixas era de origem muito pobre. A maioria morava em favelas ou então em bairros muito distantes, na Baixada Fluminense, e era impressionante notar que aquelas pessoas, que ganhavam apenas um salário mínimo, em sua maioria tinham filhos.

Procurei conversar com elas e questioná-las sobre isso. De início, elas se defendiam, dizendo que seus filhos eram a coisa mais maravilhosa que tinham e que deles não se arrependiam. Mas fui me aprofundando na conversa, cada dia um pouquinho mais, pois elas viviam reclamando que não tinham dinheiro para nada, que gostariam de fazer uma faculdade e não podiam, e havia toda uma série de outras restrições, que iam desde o fútil ao extremamente necessário, pois de vez em quando até dinheiro para a compra de remédios faltava, tanto para elas mesmas quanto para suas crianças.

Algumas foram me confessando que se pudessem voltar atrás, não os teriam parido. Diziam-me que amavam os filhos, com um tom culpado na voz, mas admitiam ter feito besteira com as próprias vidas. Eu nem dizia à elas o que pensava com relação a vida das crianças que elas puseram no mundo, para não pesar ainda mais o clima. Apenas uma delas, pobre de marré-de-si, cujo marido era alcoólatra, insistia que não tinha feito besteira nenhuma e ainda queria ter outro bebê.

Mas eu tinha esperança nas outras meninas. Muito jovens, talvez não tivessem pensado bem antes de resolver engravidar, talvez não tivessem pesado bem as consequências...

Até que estes dias, soube que a menina que mais concordava comigo, que já tem um filho inclusive, que mora em uma favela, que só tem o segundo grau e cujo marido também tem um emprego de subsistência... está grávida de novo. E super feliz.

Desisto.

O Monstro Verde


Estive conversando esses dias a respeito da questão do ciúme. Não me achava ciumenta. Meus conflitos amorosos tem mais a ver com a questão de me sentir segura, de sentir que gostam de mim de verdade, e não se isso vai ser dividido com outras pessoas. Tendo a certeza de que o meu lugarzinho existe, pouco importa se terei de compartilhar o espaço. Se a certeza do sentimento me falta, começo a entrar em loops de auto flagelação, uma vez que por me considerar muito esquisita, acabo achando que a culpa é minha se não gostam de mim.

Mas sabendo que o ciúme é próprio da condição humana, comecei a tentar entender de onde vinha o meu, pois ele deveria estar saindo por outro lugar, que não o de praxe.

Fiquei matutando e me liguei que eu sou ciumenta sim. E dona de um ciúme especialmente mesquinho.

Eu tenho ciúme de comida.

Não! Não é essa que você está pensando! É a comida no sentido literal mesmo, pô!

Odeio dividir meu prato com alguém. Já cheguei a me esconder no banheiro para comer sozinha. O cheiro de merda e mijo do lugar me pareceu mais agradável que ter de dividir o que eu tinha comprado para comer. Por conta da regra social, se me pedem uma porção do meu alimento eu acabo por não negar, mas sempre espero que a pessoa tenha indigestão. Costumo colocar no prato a quantidade exata, para não sobrar e nem faltar, então, qualquer coisa que saia dele, e que tome rumo diferente da minha boca, vai ser um desfalque. Se um mendigo me pede um pouco da minha comida fico com vontade de matá-lo, e acabo por lhe pagar um prato inteiro, ao invés de dividir o meu.

Muito embora isso seja uma mesquinharia só, tive uma crise de riso quando pensei nisso. Minha auto-indulgência faz com que eu me perdoe: Ciúme de comida talvez seja um sinal de capacidade de sobrevivência, porque em condições extremas, é só com isso que nos importamos.

Casa Sete


Um dia o espelho teve uma crise de identidade.
Começou a achar um absurdo esse lance de não ser nada.
Queria ter uma imagem fixa estampada nele, secretamente invejava as estátuas.
Desejava ser como elas, imutáveis e sólidas.
Se ausentou do mundo.
Paredes brancas. Trancado entre quatro paredes, só, pesquisou a si mesmo para descobrir o que havia por trás do que espelhava.
Descobriu que tinha altura e largura. Descobriu que tinha uma moldura.
Mas depois de um tempo, tinha se perdido de si novamente.
Tanta falta do que refletir fez com que ele se sentisse mais nada ainda.
Pensou em se quebrar todo.
Saiu às ruas.
Ficou triste, pois jamais teria a capacidade de conhecer a si mesmo.
Como tudo que é demais enjoa, cansou de se lamentar.
Dane-se, sairia pelo mundo refletindo tudo sem se preocupar.
Se não era capaz de reconhecer a si mesmo, ao menos conseguiria conhecer o mundo inteiro.
E aí ele entendeu.
O espelho era o mundo inteiro.

sábado, 14 de março de 2009

Cassandra


Personagem não muito lembrado, Cassandra, a princesa de Tróia, poderia ser considerada como a protetora dos visionários.

Sua saga como profetisa começou quando ainda era um bebê. Para comemorar o nascimento do casal de herdeiros do trono, uma grande festa foi organizada no templo de Apolo. Príamo e Hécuba, rei e rainha troianos, beberam tanto durante a celebração que foram embora para o palácio, esquecendo os gêmeos. Por fim, quando a mãe deu pela falta dos filhos e voltou para buscá-los, eles estavam dormindo num dos aposentos do templo, e ao aproximar-se deles notou que as serpentes de Apolo estavam lambendo os ouvidos dos dois irmãos. Esse era o sinal do dom da profecia.

Hécuba, também uma visionária, simplesmente afastou as serpentes dos filhos, e os levou de volta ao palácio. Segundo a lenda, ela nunca fez qualquer comentário sobre o ocorrido com os pequenos, pois tinha ciúmes de seu dom, e não gostou de saber que ele seria passado adiante, reafirmando a alegoria do criador que não quer ser superado pela criatura.

Como previsto, os irmãos logo começaram a dar mostras de seus dons, embora eles fossem diferentes no tocante ao modus operandi: Heleno seguia a linha apolínea, usava eventos externos para que pudesse fazer suas profecias, que eram retas e ordenadas, enquanto Cassandra, acometida por transes báquicos, sofria com visões caóticas.

Cassandra, que se tornou uma bela mulher, era fervorosamente dedicada ao serviço na casa de Apolo, e o Deus não tardou em se apaixonar por ela. A despeito da consagrada beleza do Deus do Sol, suas trapalhadas amorosas são vastamente comentadas na mitologia, uma vez que lhe faltava tato durante a conquista. Para ganhar as graças de Cassandra, Apolo lhe fez a seguinte proposta: Ensinaria a arte da profecia para a jovem se esta em troca lhe desse sua virgindade.
Algumas fontes sugerem que foi o Deus quem deu à Cassandra o dom, e omitem o episódio das serpentes.

Diante da proposta indecorosa de Apolo, a profetisa irritou-se, uma vez que se sentiu tratada como um objeto, o que para ela foi um insulto. Fingiu então aceitar a sugestão. Apolo prontamente cumpriu sua parte no acordo, e quando pediu seu “pagamento”, este lhe foi negado, pois Cassandra quis dar-lhe uma lição – Que o Deus provasse na pele como era sentir-se usado. Seu coração não tinha dono, e ela poderia ter oferecido seus “favores” ao Deus de graça, mas uma vez que ele tentou lhe comprar, imediatamente ela perdeu o entusiasmo por ele.

Uma vez concedida, a dádiva não poderia ser retirada. Apolo sabia disso e ficou furioso por ter sido enganado por uma simples mortal. Lançou contra ela então uma maldição: Cuspindo-lhe nos lábios, disse à rapariga que ninguém acreditaria em suas profecias, e que ela seria dada como louca toda vez que tentasse transmiti-las.

Dito e feito. Os troianos não a escutavam e dela se riam quando a mesma tentava falar a eles sobre suas visões, uma vez que elas ocorriam em meio ao caos do transe báquico. Príamo mandou prender a própria filha em uma cela, e dessa forma assegurou ao mesmo tempo a loucura de Cassandra para os troianos e a manutenção de uma profetisa particular, pois de quando em quando a visitava para saber o que ela estava prevendo.

Cassandra profetizou a guerra e o conseqüente tombamento de Tróia, suplicou ao pai que não aceitasse o cavalo, mas não encontrava maneira de ser levada a sério.

Durante o sítio de Tróia pelos gregos, Cassandra, membro da família real e portanto alvo cobiçado, foi buscar refúgio em um dos templos de Atena, Deusa da Justiça. Mas Ajax, guerreiro grego, lá a encontrou e estuprou aos pés da estátua da deusa. Atena, irada pela afronta, pede ajuda de Posídon, Deus dos mares - que alegoricamente representa o inconsciente – para vingar o insulto. Aceitando o pedido de Atena, Posídon cria uma terrível tempestade, quando do retorno de parte da frota grega na qual Ajax navegava, provocando o naufrágio da nau e a morte de todos que nela se encontravam. Algumas fontes apontam para o fato de que apenas Ajax sobreviveu, e que o náufrago, após bradar sua invencibilidade perante os deuses ao encontrar uma pequena ilha e nela se abrigar, teve o corpo transpassado e fincado numa pedra por um enorme tridente, que Posídon fez surgir dos mares.

Cassandra foi entregue a Agamêmnon como troféu de guerra, e partiu com ele rumo à Grécia. Na qualidade de escrava e concubina, e portanto sem ter autonomia sobre os próprios passos, Cassandra previu sua própria morte, que viria pelas mãos da mulher de Agamêmnon, Clitemnestra.


Clitemnestra tinha tomado conhecimento de que Agamêmnon lhe enganara e havia assassinado a filha do casal em honra a Ártemis, para que ganhasse a Guerra de Tróia. Tomou então como amante o primo de seu marido, Egisto, e com ele tramou a morte de Agamêmnon.

Cassandra tentou avisar Agamêmnon, mas como de praxe, não foi ouvida.

Ao receber o marido em seu retorno da guerra, Clitemnestra e Egisto assassinaram-no a golpes de machado. Clitemnestra matou Cassandra por ciúmes, mesmo sabendo que a jovem era um espólio de guerra e que portanto só acompanhava Agamêmnon por obrigação, e não por vontade.

Antes de morrer, Cassandra fez uma última previsão: A casa de Atreu, pela desonra cometida contra o Feminino, cairia em desgraça, através das mãos dos próprios parentes.

Infalível, sua profecia se cumpriu e sangue foi pedido como pagamento pelas faltas contra o Feminino, lançando a família de Atreu em uma guerra interna que culminou com o quase desaparecimento de sua linhagem sobre a Terra.

Cassandra só foi vingada após sua morte, através do reconhecimento por parte dos gregos e troianos da infalibilidade de suas profecias.


“Havia uma vez um rei da Lídia chamado Tântalo, filho de Zeus. Devido à origem divina e à ilimitada riqueza, Tântalo foi acometido de hubris, e acreditou-se mais inteligente que os deuses. Em sua loucura, decidiu zombar dos deuses, convidando-os para um banquete em sua cidade de Sipilos. Atreveu-se a servir à mesa do banquete, diante dos olímpicos, o melhor que tinha a oferecer: a carne de seu próprio filho Pélops, que ele tinha cortado e cozinhado num caldeirão. Pretendia, assim, testar a onisciência dos imortais. Mas os deuses, com exceção de Deméter, sabiam do pecado, e abstiveram-se de comer. Réia, a Mãe Terra, esposa de Crono, reuniu novamente os pedaços e fez a criança levantar-se do caldeirão. Hermes chamou-o de volta à vida, com a permissão de Cloto, uma das Moiras, que ainda não tinha determinado a hora da morte do menino.

O garoto ressuscitou mais bonito do que nunca. Mas tinha um ombro de mármore, porque a deusa Deméter, sem saber, tinha comido esse pedaço. Por essa razão, os descendentes da casa de Pélops distinguiam-se por uma marca de nascença, um ombro anormalmente branco ou uma estrela nesse local.

Como punição pelo pecado contra os deuses, Tântalo foi enclausurado por toda a eternidade no Tártaro, o mais profundo abismo do inferno. Ali ele ficava numa lagoa, com água até o queixo; morria de sede mas não podia beber, pois, quando se inclinava, a água desaparecia. Frutos deliciosos pendiam das árvores sobre sua cabeça, mas quando ele, faminto, tentava alcançá-los, o vento os levava. E a maldição das Erínias caiu sobre seus descendentes, pois o mal ainda não tinha sido pago.

Pélops reinou como um grande rei, favorecido pelos deuses, sem ser atingido pela maldição. Gerou três filhos. Os dois mais velhos chamavam Atreu e Tiestes, e estes filhos herdaram o mal de seu avô Tântalo. Assassinaram o irmão mais novo, Crisipo, o filho favorito de Pélops. Dessa forma, eles e seus descendentes receberam a maldição do pai.

Atreu casou com uma mulher chamada Érope, mas ela o enganou com seu irmão Tiestes. Antes que Atreu pudesse vingar-se, entretanto, acontecimentos externos entraram em jogo. O povo da cidade de Micenas convocou os Irmãos, pois um oráculo tinha ordenado que um dos filhos de Pélops se tornasse rei da cidade. Os irmãos começaram a brigar pelo trono de Micenas; Atreu expulsou Tiestes e tornou-se rei. Mas sua sede de vingança contra o irmão ainda não estava satisfeita, pois a lembrança de que Tiestes tinha partilhado o leito de Érope ainda o irritava. Atreu chamou o irmão de volta a Micenas, dizendo que desejava uma reconciliação. Em segredo, porém, planejava uma terrível vingança. Assassinou os filhos de Tiestes e convidou o irmão para comer, sem perceber, as vísceras assadas e a carne cozida. Quando Tiestes se deu conta do que tinha comido, caiu para trás, vomitou a refeição, quebrou a mesa com os pés e lançou uma maldição sobre a casa de Atreu.

Agora havia três maldições em suspenso sobre a linhagem de Atreu: a dos deuses contra os filhos de Tântalo, a de Pélops contra a prole de seu filho, e a de Tiestes contra a linhagem do irmão. Atreu teve dois filhos com Érope, chamados Agamenon e Menelau. Tiestes, depois do assassinato de seus filhos, ficou só com uma filha. Mas recebeu um recado do oráculo de Apolo, mandando-o constituir um vingador da morte de seus filhos. Dessa forma, ele violentou a filha e criou o filho dessa união, Egisto, alimentando-o no exílio com sonhos de vingança contra a linhagem de Atreu.

Menelau sucedeu a Atreu como rei de Micenas, e seu irmão Agamenon tornou-se rei de Argos. Casaram-se com duas irmãs, Helena e Clitemnestra, filhas do rei Tíndaro de Esparta. Helena traiu Menelau com um príncipe troiano, dando início à guerra de Tróia; Menelau e Agamenon tornaram-se líderes das tropas gregas que saquearam a cidade do inimigo.
Quando Agamenon viajou para a conferência de reis aliados para chefiar as forças gregas, deixou com sua esposa Clitemnestra duas filhas e um filho chamado Orestes. A mais velha e mais bonita das filhas chamava-se Ifigênia; a mais nova, Electra.

Enquanto preparava o embarque da frota grega em Aulis para Tróia, Agamenon ofendeu a deusa Ártemis, jactando-se orgulhosamente no bosque sagrado dela. A deusa enraivecida, por causa disso, provocou mau tempo e os navios gregos não puderam zarpar. Um vidente informou Agamenon que Ártemis só se aplacaria com o sacrifício de sua filha Ifigênia no altar da deusa. Assim, Agamenon enganou a esposa dizendo-lhe que sua filha ia casar-se em Aulis, e assassinou a moça para obter as graças da deusa.

Quando descobriu que sua amada filha tinha sido assassinada por Agamenon, Clitemnestra jurou vingança. Tomou como amante aquele mesmo Egisto, filho de Tiestes com a própria filha. Primeiro mandou seu filho Orestes para o exílio, para que não pudesse defender o pai. Em seguida, quando Agamenon voltou triunfante da guerra de Tróia, ela e Egisto assassinaram-no no banho, e ela proclamou Egisto seu consorte e co-regente de Argos.

Orestes tinha sido banido para Phokis. Lá foi procurado pelo deus Apolo, que lhe ordenou que voltasse a Argos para vingar a morte do pai, ameaçando-o com terríveis punições se tentasse esquivar-se à tarefa. Assim, Orestes voltou, disfarçado, conspirando secretamente com sua irmã Electra. Primeiro mataram Egisto, o amante de sua mãe, e depois Orestes apunhalou mortalmente a mãe.

Embora Orestes estivesse obedecendo ordens do deus Apolo, ele tinha violado a lei das Erínias, defensoras do direito e vingadoras do assassinato de parentes. Assim, as Erínias perseguiram Orestes por toda a Grécia, levando-o a urna horrível loucura. Um dia ele pediu asilo no altar da deusa Atena em Atenas. Atena, penalizada mas também reconhecendo a justeza da aflição das Erínias, levou o caso à suprema corte em Atenas. Apolo e as Erínias expuseram suas causas aos juízes humanos. A votação foi igual para os dois lados; assim, Atena deu seu voto de desempate a favor de Orestes, e em troca ofereceu às Erínias um altar e um culto de honra em seus domínios.

Depois disso, as Erínias passaram a chamar-se Eumênides, "as damas gentis", e Orestes, livre, voltou para Argos e casou-se com Hermione, filha de Menelau e Helena. Assim foi paga a maldição sobre a linhagem de Tântalo.”
Extraído de: A Astrologia do Destino - Liz Greene

quinta-feira, 12 de março de 2009

Submarino


Não gosto de mergulhar em águas turvas
E os pés não mais enxergar
Tranquilo é reconhecer as próprias curvas
Sabendo-se imerso, mas não perdido no mar.

Submegir guarda algo de dissolver
Mas para bem estar liquefeito
E não alhear de si o próprio direito
O mergulhador não pode deixar de se ver.

Precipitar-se em caldo escuro
Não é coragem, antes burrice
É colocar-se em apuro
Para satisfazer uma bisbilhotice.

Minha morada está na clara água
Na transparência que não engana
Meus pés livro assim da mágoa
De pisar em pedra leviana.

Armadilha não há na água límpida
E então tenho prazer em me deixar
Em torno olho agradecida
Por enfim ser Una com o mar.

Casamento


Atenção!

Zorba, O Grego e Buda vão se casar.

O noivado aconteceu no início do mês, em meio a uma grande festa, digna destas duas potências.

Embora a data do casamento ainda não tenha sido marcada, os noivos anunciam que é para breve.

Buda tem ensinado Zorba a contemplar e o grego ensina seu noivo a dançar, todos os dias.

O casal se diz muito apaixonado e segundo declarações de amigos íntimos "eles são bem opostos, mas se complementam perfeitamente, ficam lindos juntos".
Gente...

Há alguns dias atrás ofereci as análises de Plutão por posição, ou seja, em relação à casa e signo, gratuitamente. Nem imaginava que receberia tantos emails em resposta, sinceramente não tinha idéia de como esse blog é acessado... Acho que fiquei um pouco assustada até... Mas tem o seguinte...

EU TENHO VIDA FORA DA NET!

rsrsrsrs, desculpem, mas realmente só posso fazer aquilo que propus: Explanação por casa e signo que o planeta se encontra. Analisar aspectos com outros planetas, trânsitos ou até mesmo sua relação em mapas de sinastria, dá um trabalho monumental, eu levo a coisa a sério, não vou entregar qualquer coisa só para dizer que fiz, então... sinto muito.

Espero que vocês não fiquem chateados. A proposta que fiz ainda está de pé. Só não posso mesmo é me estender além dela, ok?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Dionísio



Àquele que responde pelo mito do Sol em Peixes, minha reverência...

***

Um Deus de faces caleidoscópicas: da terra ao êxtase, mostrando, principalmente, uma face de perversão. Uma perversão, porém, benéfica, que apresenta a luta pela edificação humana através do caminho contrário. Daí refletirmos sobre a carnavalização dionisíaca ou o mundo ao revés. Talvez seu mito seja a síntese de toda história de uma evolução.


A relação que Dionísio estabelece com o universo masculino e feminino é impressionante. Por um lado, a expressiva metáfora do phalós - enormes phalós – como símbolo de virilidade e poder. Nesse barco vão os sátiros, Príapo e o Deus Pã, Sileno e seu tonel de vinho. Por outro lado, a contribuição dionisíaca para a emancipação da mulher, embora por vias insanas, nunca racionais – é o feminino inverso nos rituais báquicos. Dionísio enlouquece as mulheres, levando-as a tomar atitudes que chegam à barbárie, sempre sob seu comando. É como se aos homens coubesse a bebedeira e a covardia; e às mulheres, a loucura, a valentia e a ação. Uma forma de comunicação inversa dentro dos padrões comuns.


Dionísio simboliza a ruptura das inibições, das repressões, das contenções, daí tratar-se do antídoto da lei, ou de um tipo peculiar de legislação: a lei escatológica (possível neste universo). Dionísio representa um dos personagens nietzscheanos da vida, oposto à sábia e equilibrada regência apolínea. Entre os dois filhos de Zeus, Apolo e Dionísio, o primeiro representa a figura do pai, metáfora das leis inexoráveis, e o segundo, a teimosia, a deriva, sempre à revelia das ordens paternas.


Dionísio tem, entre tantas faces plurais, seu lado bailarino, “arlequiniano”, saltitante, nem sempre com a leveza dos céus, mas, quase sempre, com a pressão dos infernos. Ou seja, Dionísio dirige a dança dos mortos no centro das pradarias subterrâneas. Dirige também, como descreveu Aristófanes, as danças dos iniciados, daí este comediógrafo clássico tratá-lo por Jakchos, ou um Dionísio infernal.


Este Deus, regente de nosso percurso, vinculado ao teatro e ao ator, é uma divindade que quebra todos os paradigmas das que oferecem a paz das contemplações eternas, em nome das divindades contrárias: As que proclamam a intranqüilidade das perversões.


Nos bacanais dionisíacos, pelo caminho da rebelião, Dionísio mentor funde, na grande matriz universal, o que está isolado; unifica, reintegra o que está fragmentado e ressarce de energia o que está vazio de substância.


Dionísio é o Deus das formas polivalentes, alimenta ilusões, é desbravador de mistérios e autor de milagres. Um Deus estranho em sua grandeza! Traz aos homens presentes da natureza, sobretudo os da vinha. Deus frenético, incitador de sons caóticos, os sons enlouquecedores das multidões eufóricas, que mais enlouquecidas ficam com sua dança e sua música se não o honram como devem. Simbolizando as forças obscuras que surgem do inconsciente, Dionísio é o deus que desencadeia a embriaguez, o delírio e a alucinação.


Divindade cuja significação foi abusivamente simplificada, quando se considera o símbolo do entusiasmo ou dos desejos amorosos. A complexidade infinita do Deus Dionísio, o jovem divino, ou o nascido duas vezes, se traduz pela pluralidade de sentidos que lhe foram dados, entre os quais: Delirante, barulhento, frenético, termos pertinentes aos clamores da orgia. Ele descende de Zeus e de Sêmele, deusa mãe de origem frígia ou mortal, filha de Cadmo e Harmonia. Desejando receber seu amante divino Zeus, em todo seu esplendor, Sêmele foi atingida por um raio. Retirado por Zeus do corpo maternal consumido pelo fogo, Dionísio, ainda por nascer, concluiu sua maturação na coxa de seu pai. Podemos reconhecer aí um mito naturalista elementar: A Terra-Mãe fecundada pelo brilho do Deus do céu (Zeus) dá nascimento a um jovem Deus, do qual sua essência se confunde com a vida saída das entranhas do solo. Esta concepção do duplo nascimento permite, de um lado, salvaguardar o raio que simboliza em sua origem os abraços do céu e da terra e, por outro lado, realçar a situação excepcional do novo deus na descendência de Zeus. Este duplo nascimento, que quer dizer também dupla gestação, remete ao esquema clássico da iniciação: Nascimento, morte, renascimento. A coxa de Júpiter acrescenta portanto, simbolicamente, aos poderes iniciáticos de Dionísio a força excepcional que sempre metaforicamente reside nesta parte do corpo do pai dos deuses. A esposa de Dionísio chamava-se Ariadne, e era originalmente uma Deusa egéia da vegetação e principalmente das árvores. Numerosos motivos dionisíacos representam a aliança do casal divino: A cena simboliza com freqüência a união do Deus e do iniciado em seus mistérios. Esta alegoria estava em todo lugar e disseminada a ponto de perder sua significação: Deus da vegetação, da vinha, do vinho, das frutas, da mudança de estações, senhor da árvore é ele que espalha a alegria em profusão.



Dionísio é também o príncipe e o mestre da fecundidade animal e humana. Portanto, ele é denominado phalenos e a procissão do phalós ocupa um lugar importante na maioria das festas. As espécies prolíficas do bode, do touro, aparecem frequentemente em sua lenda e em seu culto. Bode e touro eram suas vítimas escolhidas para os sacrifícios e nas oferendas que terminavam em comunhão sangrenta. Podemos dizer, considerando as conseqüências sociais e mesmo as formais do seu culto, que ele era o Deus da permissão, da supressão das proibições e dos tabus, o Deus dos desregramentos e da exuberância.



Por haver retirado dos infernos sua mãe Sêmele, fulminada por Zeus, e tê-la introduzido no convívio dos imortais, foi também considerado como um libertador dos infernos, Deus “ctonico” iniciador e condutor de almas. O seu papel nas cerimônias de Elêusis mostra esta passagem nas profundezas da Terra como uma fase de germinação e uma prova de fertilidade. Toda produção terrestre tem sua última fonte nas profundezas infernais. Sua descida aos infernos, seja para procurar sua mãe, seja para ficar periodicamente, simbolizaria a alternância das estações do inverno e do verão, da morte e da ressurreição. Nós reencontramos aqui a trama estrutural dos deuses mortos e ressuscitados, comum nas religiões de mistérios que floresceram no início de nossa era em todo mundo greco-romano. Num sentido profundamente religioso, o culto dionisíaco, apesar de suas perversões e mesmo através delas, é testemunho do violento esforço da humanidade para romper a barreira que a separa do divino e para liberar sua alma dos seus limites terrestres.


Por mais paradoxal que possa parecer, Dionísio, a se considerar o conjunto de seu mito, simboliza o esforço de espiritualização da criatura vivente, desde a planta até o êxtase: Deus da árvore, do bode, do fervor e da união mística.

Afirma-se haver, no espaço primordial da origem, dois mundos: O divino e o humano; duas raças: a dos deuses e a dos homens. Dionísio tende a introduzir os homens no mundo dos deuses e transformá-los numa raça divina. O homem aceitaria alienar-se na expectativa de se transfigurar. Todo devoto de Dionísio aspira sair de si pelo êxtase, e, levado pelo entusiasmo, pôr-se em união íntima com o Deus que o possui por instantes. O movimento dionisíaco foi uma fonte primordial do espiritualismo grego, pela noção de alma que ele conferiu à civilização. Graças ao dionisismo, a idéia nasce de uma alma aparentada ao divino e num certo sentido mais real que o corpo. Tendo conduzido sua mãe da Terra dos Infernos ao Olimpo, não é negado pensar que ele queria abrir a todos os nascidos na terra o acesso à imortalidade.

Os aparecimentos e desaparecimentos sucessivos de Dionísio representam a metáfora da semente: Morre para dar novos frutos. Não é a toa que ele também é o Deus da vegetação, como dissemos. O círculo da morte e da vida em Dionísio é bem o seu chegar e partir, sua semente na sombra, debaixo da terra, e sua flor ao sol, acima da terra. O deus do teatro, como afirma Walter Otto, é capaz de múltiplas hierofanias. Elas são nada mais nada menos do que a expressão alegórica do seu nomadismo. Desaparecimentos periódicos, ocultações e retornos, hierofanias consecutivas, aparecimentos, ausências e surgimentos inesperados traduzem a síntese da existência, o ciclo do viver e do devir, o mito do eterno retornar: Morte, vida, morte, vida, sucessivamente.


Mircea Elíade, já mais espiritualista, argumenta, sem citar os locais onde se realizavam os mistérios dionisíacos e suas festas mais populares realizadas em função do calendário agrícola, que:


[...] os desaparecimentos, as hierofanias de Dioniso, suas catábases ao Hades (semelhantes à morte, seguida de ressurreição) e sobretudo o culto de Dioniso-menino com ritos, que celebravam seu “despertar”, seriam indícios de um desejo e de uma esperança de renovação espiritual.


Dionísio, diante de tanto movimento, dinamicidade e energia, inserido numa peregrinação infinita, numa eterna andança sem previsão de chegada e sem previsão de partida, é, por isso, um Deus da contradição, da indeterminação, da diversidade, da contingência, da inconstância e da pluralidade.

Dionísio é poderoso, louco, desamparado, lúcido e pleno porque aceita passar visceralmente, e não epidermicamente apenas, por tudo: É cruel, sofre, chora, grita, canta, rasga-se e faz rasgar, chega a vários extremos de emoção e padecimento. São sempre abissais suas dores e amores, paixões e ódios.


Os estados de transe, quando extremados e por muito tempo, potencializavam-se em loucura tanto em Dionísio como em todo o seu grupo. Convém lembrar Dionísio também como o deus da manía (um estado dividido entre a doença e a infâmia). Se é que se pode chamar a loucura de pura ou falar que o louco conserva uma certa pureza, não é bem esse o caso de Dionísio. Sua loucura era muitas vezes bem impura. Compreendia canibalismos, extermínios de animais e crianças, uma possessão de mãos sujas de sangue. No entanto, esse lado de impureza na dionisíaca tinha um lado positivo e menos selvagem: Provocar a catarse ou o alívio, a leveza, o desabafo, a purificação e, com isso, novamente a recuperação da razão. O vinho ativava ainda mais a manía. Evidentemente, o reverso da loucura dionisíaca, sua lucidez, também era muito grande.

Da mesma forma que a manía dionisíaca tinha seu lado puro e o seu lado impuro, o vinho também tinha um lado diferente daquele de alucinar, o lado do pharmakón: Um bálsamo, um remédio principalmente para a renovação dos anciãos. Era indicado como receita médica. Juntando-se os dois pólos, manía servindo à catarse, e vinho enquanto terapêutica, transformamos o ritual dionisíaco em menos satânico e mais sagrado; atribuímos a ele um poder iniciático.

Há outras propriedades nesse vinho de Dionísio, como a de protagonizá-lo como o Deus da febre, da excitação, da pulsação xamânica em sua máscara da noite, e ousado, transgressor e irreverente em sua máscara do dia. Essa dualidade na epifania dionisíaca, síntese de sua divindade compreendida como divina e profana, por um momento se quadriparte e dá origem a quatro registros de Dionísio e não mais a dois:


LÚSIOS: Potência purificadora, deus da libertação vindo de Tebas e trazido por um fiel de sua epifania, o apropriadamente chamado Fanes.

BAKKHEÍOS: Potência de Baco, das cerimônias báquicas, deus do delírio, do vinho ensandecedor.

MEILÍKHIOS: Potência do suave, o apaziguador, o harmonizador, o ameno.

KADMEÎOS: Potência das cerimônias que libertam e que purificam. Síntese da iniciação.


O Dioniso do vinho, símbolo do entusiasmo e dos desejos amorosos, é o de Tebas que enfrenta Penteu, protagonista das Bacantes de Eurípedes. Este é terrível, vingativo, malévolo, fazendo valer seu clã divino a qualquer preço, como o da chacina, da tragédia e do sangue. Já pela Ática caminhava o outro lado desse Dionísio: O Dionísio discreto, benévolo, generoso e paciente, mas que não encontrava nenhum desafio a sua potência divina, sendo, indiscutivelmente e sem problemas, reverenciado como divindade.

Dioniso tira as mulheres de seu sagrado oikós micênico (lar doméstico, espaço feminino), e as conduz, endemoniadas, para dentro das florestas, constituindo um absurdo profano, repleto de rituais macabros, só conquistados num outro plano de consciência. São outras mulheres, absolutamente opostas às do lar, transformadas, metamorfoseadas.


O vinho é polivalente e leva a polivalências, mas sintetiza-se numa bivalência dionisíaca: Medonho ao extremo e admiravelmente doce. Esta fusão dupla se poliparte em milhões de faces de Dioniso, faces essas que são toda a Humanidade. Através do emblema do vinho, Dioniso é, por essa razão, o deus das misturas, das dosagens, capaz não só de transformar o vinho puro em vinho temperado, como o sangue efervescente das paixões desmedidas nas pulsações bem dosadas de viver sereno.


“O vinho liberta do medo e da piedade. A verdade no vinho é uma verdade livre e sem medo. Na embriaguez há um aumento súbito do sangue, as almas mudam com os pensamentos que elas contêm e os homens, esquecidos dos males presentes, aceitam a esperança de bens futuros.” (François Rabelais)

De: Dionísio e a comunicação na hélade – o mito, o rito e a ribalta. Marlene Fortuna.


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Set The Controls For The Heart Of The Sun
Pink Floyd


Little by little the night turns around
Counting the leaves which tremble at dawn
Lotuses lean on each other in union
Over the hills where a swallow is resting
Set the controls for the heart of the sun

Over the mountain watching the watcher
Breaking the darkness waking the grapevine
Knowledge of love is knowledge of shadow
Love is the shadow that ripens the wine
Set the controls for the heart of the sun

Witness the man who arrives at the wall
Making the shape of his question to heaven
Whether the sun will fall in the evening
Will he remember the lesson of giving?
Set the controls for the heart of the sun
Set the controls for the heart of the sun.