quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Como Vivekananda perdeu sua chave

O único antídoto para o abuso do poder psíquico é o amor. Do contrário, todo poder corrompe. Pode ser riqueza, pode ser prestígio, pode ser política, ou pode ser poder psíquico, não faz diferença. Sempre que você se sentir poderoso, se não tiver amor como um antídoto, seus poderes irão se tornar uma calamidade para os outros, uma maldição; porque o poder nos cega.

O amor abre os olhos, amor limpa a visão... sua percepção fica nítida e clara.

No Ashram de Ramakrishna em Calcutá, havia muitos discípulos e Vivekananda era o mais intelectual. Havia um homem bem simples que também era um discípulo. Seu nome era Kalu, um homem pobre. Ele era tão leal, religioso, emotivo que tinha no seu quarto centenas de estátuas de deuses diferentes. De manhã cedo ele tomava banho no Ganges e depois ia adorar esses deuses. É claro que todos tinham que ser venerados com a mesma intensidade; senão um deles poderia sentir-se ofendido. Então Kalu gastava todo o seu dia com isso, e os outros riam dele: “Que você está fazendo? Apenas um deus é suficiente!”

Vivekananda era o mais proeminente para debochar de Kalu, dizendo: “Você é um estúpido, são apenas estatuetas de pedra! E você está desperdiçando sua vida.”

Um dia Ramakrishna deu a Vivekananda um certo método de conscientização para praticar: “Vá para seu quarto, feche a porta e pratique-o.” Quando Vivekananda atingiu um certo estágio, sentiu-se tão cheio de poder que teve uma idéia: “Se eu disser para Kalu, nesse momento, apenas dentro de mim mesmo, ‘Pegue todos os seus deuses e jogue-os no rio Ganges', ele irá obedecer.”

E ele fez isso, ele disse, em seu próprio quarto, apenas para si mesmo: “Kalu, junte todos os seus deuses e jogue-os no Ganges.” Kalu reuniu todos os seus deuses dentro de uma sacola grande e estava arrastando a sacola pela escadaria quando Ramakrishna chegou até ele e disse, “Que você está fazendo?”

Kalu disse, “De repente ouvi uma voz que deve ter vindo do próprio Deus, pois não havia mais ninguém no quarto, e a voz dizia: ‘Kalu, pegue todos os seus deuses e jogue-os no Ganges.’ Era uma voz tão poderosa que não pude duvidar dela.”

Ramakrishna disse, “Venha. Traga seus deuses de volta e lhe mostrarei de onde veio a voz.” Ele bateu na porta de Vivekananda. Vivekananda saiu e Ramakrishna estava muito zangado. Ele disse, "Vivekananda, essa é a última coisa que eu esperava de você. Eu tinha lhe dito para ficar mais perceptivo, e não que arruinasse a vida de um pobre homem. Ele tem um coração tão puro, tão amoroso, um homem tão bonito... como você pôde fazer isso? Doravante, você jamais terá esses poderes de novo.”

Conta-se que Vivekananda morreu sem atingir a iluminação. Ainda que ele tenha se tornado o sucessor de Ramakrishna porque era um grande orador, tinha um certo carisma e influenciava as pessoas, ele mesmo morreu pobre, sem nenhum conhecimento. E isso só aconteceu porque ele, tendo obtido algum poder, decidiu usá-lo para perturbar um homem, não usou seu poder para ajudar, mas sim para prejudicar alguém.

sábado, 25 de dezembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Hair

Minha avó cultivou meu cabelo como uma planta até meus dez anos de idade. Ela simplesmente não me deixava cortar. Aos dez anos, se eu penteasse a cabeleira para a frente da cabeça, ficava parecendo com o Primo Itt, uma vez que o comprimento das madeixas ultrapassava o do meu tronco. Eu detestava aquilo. Certo dia fugi de casa, disse que ia na padaria comprar sorvete e corri pro cabeleireiro. Aos dez anos eu era fã do Duran Duran e tinha quase todos os discos deles. E eu adorava o cabelo do John Taylor. 





Aliás, o primeiro sonho "erótico" do qual me recordo foi um no qual eu via o John Taylor e o Simon LeBon correndo pelo meu telhado. Por quê isso me fez acordar excitada é um mistério... Bem, escondi na janela um dos discos deles, "Notorious", e o apanhei pela parte de fora da casa, assim pude levar um exemplo do tipo de corte que eu queria: Igual ao do John Taylor.



O corte de cabelo ficou ridículo, quando cheguei em casa minha avó me olhou com cara de amargura eterna e, quando me perguntou o que eu tinha feito com o cabelo cortado (que a essas alturas estava sendo tratado com mesma reverência dada a um ente querido recém falecido) e eu respondi que havia jogado no lixo, ouvi suspiros, lamúrias e maldições... 
...E tudo isso me veio à mente porque resolvi assistir vídeos antigos do Duran Duran. Tipicamente anos 80, são o cúmulo da tosqueira, mas eu... Continuo gostando! 


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Prefiro


Ele é simpático. Sorri.
Preservem a Natureza. Não joguem nada nele.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Manifesto À Preguiça

Este é o meu pecado favorito!
Antigamente ele não constava da lista dos sete, passou a figurar nela para substituir "melancolia", cuja definição foi considerada vaga demais.
No dicionário, preguiça é sinônimo de falta de disposição para o trabalho, malandrice, demora ou lentidão em agir etc.

Calúnia!

O preguiçoso nada mais é que alguém que leva o hedonismo às últimas consequências. O preguiçoso é alguém que não suporta fazer absolutamente nada que não lhe dê prazer. O problema é que, talvez, ele sinta prazer em fazer poucas coisas...

Mas, vejam bem, o preguiçoso possui uma alma de grande valor! É sua extrema seletividade que o impede de se atirar a uma ação que ele não considere de suma importância (e o que é tão importante, uma vez que tudo é vão?!).
Sua incapacidade para fazer qualquer coisa que o contrarie denota um espírito incorruptível, afinal, ir contra o princípio do prazer não é, de certa maneira, um tipo de prostituição?
E o que dizer então da capacidade contemplativa dos preguiçosos? Oh! apenas nós conseguimos extrair o prazer máximo de coisas simples, tais como a observação de um belo pôr do sol ou de uma flor. Os ativos geralmente não enxergam a beleza destes eventos, porque estão sempre querendo interferir no que ocorre ao seu redor, consequentemente não sabem ficar quietos dentro de seus próprios quadrados e continuamente tentam invadir o quadrado alheio. 

Ah... Como eu adoro ser autoindulgente...

Ajuda atrapalha?

"Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África!", afirma economista do Quênia
Especialista explica que a ajuda internacional alimenta a corrupção e impede que a economia se desenvolva, o que destrói a produção agrícola e causa desemprego, mais miséria e mais dependência

Thilo Thielke
Em Hamburgo

O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, diz que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África, sobre governantes corruptos e a tendência a exagerar o problema da Aids.

DER SPIEGEL - Senhor Shikwati, a cúpula do G8 em Gleneagles deverá aumentar a ajuda ao desenvolvimento da África...

James Shikwati - Pelo amor de Deus, parem com isso!

DS - Parar? Os países industrializados do Ocidente querem eliminar a fome e a pobreza.

Shikwati - Essas intenções estão prejudicando nosso continente nos últimos 40 anos. Se os países industrializados realmente querem ajudar os africanos, deveriam finalmente cancelar essa terrível ajuda. Os países que receberam mais ajuda ao desenvolvimento também são os que estão em pior situação. Apesar dos bilhões que foram despejados na África, o continente continua pobre.

DS - O senhor tem uma explicação para esse paradoxo?

Shikwati - Burocracias enormes são financiadas (com o dinheiro da ajuda), a corrupção e a complacência são promovidas, os africanos aprendem a ser mendigos, e não independentes. Além disso, a ajuda ao desenvolvimento enfraquece os mercados locais em toda parte e mina o espírito empreendedor de que tanto precisamos. Por mais absurdo que possa parecer, a ajuda ao desenvolvimento é uma das causas dos problemas da África. Se o Ocidente cancelasse esses pagamentos, os africanos comuns nem sequer perceberiam. Somente os funcionários públicos seriam duramente atingidos. E é por isso que eles afirmam que o mundo pararia de girar sem essa ajuda ao desenvolvimento.

DS - Mesmo em um país como o Quênia pessoas morrem de fome todos os anos. Alguém precisa ajudá-las.

Shikwati - Mas são os próprios quenianos quem deveriam ajudar essas pessoas. Quando há uma seca em uma região do Quênia, nossos políticos corruptos imediatamente pedem mais ajuda. O pedido chega ao Programa Mundial de Alimentação da ONU --que é uma agência maciça de "apparatchiks" que estão na situação absurda de, por um lado, dedicar-se à luta contra a fome, e por outro enfrentar o desemprego onde a fome é eliminada. É muito natural que eles aceitem de bom grado o pedido de mais ajuda. E não é raro que peçam um pouco mais de dinheiro do que o governo africano solicitou originalmente. Então eles enviam esse pedido a seu quartel-general, e em pouco tempo milhares de toneladas de milho são embarcadas para a África...

DS - Milho que vem predominantemente de agricultores europeus e americanos altamente subsidiados...

Shikwati - ... e em algum momento esse milho acaba no porto de Mombasa. Uma parte do milho em geral vai diretamente para as mãos de políticos inescrupulosos, que então o distribuem em sua própria tribo para ajudar sua próxima campanha eleitoral. Outra parte da carga termina no mercado negro, onde o milho é vendido a preços extremamente baixos. Os agricultores locais também podem guardar seus arados; ninguém consegue concorrer com o programa de alimentação da ONU. E como os agricultores cedem diante dessa pressão o Quênia não terá reservas a que recorrer se houver uma fome no próximo ano. É um ciclo simples mas fatal.

DS - Se o Programa Mundial de Alimentação não fizesse nada, as pessoas morreriam de fome.

Shikwati - Eu não acredito nisso. Nesse caso, os quenianos, para variar, seriam obrigados a iniciar relações comerciais com Uganda ou Tanzânia, e comprar alimento deles. Esse tipo de comércio é vital para a África. Ele nos obrigaria a melhorar nossa infra-estrutura, enquanto tornaria mais permeáveis as fronteiras nacionais --traçadas pelos europeus, aliás. Também nos obrigaria a estabelecer leis favorecendo a economia de mercado.

DS - A África seria realmente capaz de solucionar esses problemas por conta própria?

Shikwati - É claro. A fome não deveria ser um problema na maioria dos países ao sul do Saara. Além disso, existem vastos recursos naturais: petróleo, ouro, diamantes. A África é sempre retratada como um continente de sofrimento, mas a maior parte dos números é enormemente exagerada. Nos países industrializados existe a sensação de que a África naufragaria sem a ajuda ao desenvolvimento. Mas, acredite-me, a África já existia antes de vocês europeus aparecerem. E não fizemos tudo isso com pobreza.

DS - Mas naquela época não existia a Aids.

Shikwati - Se acreditássemos em todos os relatórios horripilantes, todos os quenianos deveriam estar mortos hoje. Mas agora os testes estão sendo realizados em toda parte, e acontece que os números foram enormemente exagerados. Não são 3 milhões de quenianos que estão infectados. De repente eram apenas cerca de um milhão. A malária é um problema equivalente, mas as pessoas raramente falam disso.

DS - E por quê?

Shikwati - A Aids é um grande negócio, talvez o maior negócio da África. Não há nada capaz de gerar tanto dinheiro de ajuda quanto números chocantes sobre a Aids. A Aids é uma doença política aqui, e deveríamos ser muito céticos.

DS - Os americanos e europeus têm fundos congelados já prometidos para o Quênia. O país é corrupto demais, segundo eles.

Shikwati - Temo, porém, que esse dinheiro ainda será transferido em breve. Afinal, ele tem de ir para algum lugar. Infelizmente, a necessidade devastadora dos europeus de fazer o bem não pode mais ser contida pela razão. Não faz qualquer sentido que logo depois da eleição do novo governo queniano --uma mudança de liderança que pôs fim à ditadura de Daniel Arap Mois--, de repente as torneiras se abriram e o dinheiro verteu para o país.

DS - Mas essa ajuda geralmente se destina a objetivos específicos.

Shikwati - Isso não muda nada. Milhões de dólares destinados ao combate à Aids ainda estão guardados em contas bancárias no Quênia e não foram gastos. Nossos políticos ficaram repletos de dinheiro, e tentam desviar o máximo possível. O falecido tirano da República Centro Africana, Jean Bedel Bokassa, resumiu cinicamente tudo isso dizendo: "O governo francês paga por tudo em nosso país. Nós pedimos dinheiro aos franceses, o recebemos e então o gastamos".

DS - No Ocidente há muitos cidadãos compassivos que querem ajudar a África. Todo ano eles doam dinheiro e mandam roupas usadas em sacolas...

Shikwati - ... e então inundam nossos mercados com essas coisas. Nós podemos comprar barato essas roupas doadas nos chamados mercados Mitumba. Há alemães que gastam alguns dólares para comprar agasalhos usados do Bayern Munich ou do Werder Bremen. Em outras palavras, roupas que algum garoto alemão mandou para a África por uma boa causa. Depois de comprar esses agasalhos, eles os leiloam na eBay e os mandam de volta à Alemanha -- pelo triplo do preço. Isso é loucura!

DS - ... e esperamos que seja uma exceção.

Shikwati - Por que recebemos essas montanhas de roupas? Ninguém passa frio aqui. Em vez disso, nossos costureiros perdem seu ganha-pão. Eles estão na mesma situação que nossos agricultores. Ninguém no mundo de baixos salários da África pode ser eficiente o bastante para acompanhar o ritmo de produtos doados. Em 1997 havia 137 mil trabalhadores empregados na indústria têxtil da Nigéria. Em 2003 o número tinha caído para 57 mil. Os resultados são iguais em todas as outras regiões onde o excesso de ajuda e os frágeis mercados africanos entram em colisão.

DS - Depois da Segunda Guerra Mundial a Alemanha só conseguiu se reerguer porque os americanos despejaram dinheiro no país através do Plano Marshall. Isso não se qualificaria como uma ajuda ao desenvolvimento bem-sucedida?

Shikwati - No caso da Alemanha, somente a infra-estrutura destruída tinha de ser reparada. Apesar da crise econômica da República de Weimar, a Alemanha era um país altamente industrializado antes da guerra. Os prejuízos criados pelo tsunami na Tailândia também podem ser consertados com um pouco de dinheiro e alguma ajuda à reconstrução. A África, porém, precisa dar os primeiros passos na modernidade por conta própria. Deve haver uma mudança de mentalidade. Temos de parar de nos considerar mendigos. Hoje em dia os africanos só se vêem como vítimas. Por outro lado, ninguém pode realmente imaginar um africano como um homem de negócios. Para mudar a situação atual, seria útil se as organizações de ajuda saíssem.

DS - Se fizessem isso, muitos empregos seriam perdidos imediatamente.

Shikwati - Empregos que foram criados artificialmente, para começar, e que distorcem a realidade. Os empregos nas organizações estrangeiras de ajuda são muito apreciados, é claro, e elas podem ser muito seletivas na escolha das melhores pessoas. Quando uma organização de ajuda precisa de um motorista, dezenas de pessoas se candidatam. E como é inaceitável que o motorista só fale sua língua tribal, o candidato também deve falar inglês fluentemente --e, de preferência, ter boas maneiras. Então você acaba com um bioquímico africano dirigindo o carro de um funcionário da ajuda, distribuindo comida européia e forçando os agricultores locais a deixar seu trabalho. É simplesmente loucura!

DS - O governo alemão se orgulha exatamente de monitorar os receptores de suas verbas.

Shikwati - E qual é o resultado? Um desastre. O governo alemão jogou dinheiro diretamente para o presidente de Ruanda, Paul Kagame, um homem que tem na consciência a morte de um milhão de pessoas --que seu exército matou no país vizinho, o Congo.

DS - O que os alemães deveriam fazer?

Shikwati - Se eles realmente querem combater a pobreza, deveriam parar totalmente a ajuda ao desenvolvimento e dar à África a oportunidade de garantir sua sobrevivência. Atualmente a África é como uma criança que chora imediatamente para que a babá venha quando há algo errado. A África deveria se erguer sobre os próprios pés. 
 
Em: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/07/322763.shtml 

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Conterrâneos

Peixes inspiram

Peixes são bizarros

Peixes são o Sonho

Peixes são inacreditáveis

Peixes são...
...escorregadios.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Térmite




Alguém sente culpa por matar uma formiga?
Hoje, durante meu trânsito normal, devo ter aniquilado centenas delas. Sem querer, simplesmente por estar caminhando. Não estou me sentindo uma assassina por isso. Não que eu deixe de gostar das formigas, acho alguns insetos mais interessantes que muitos mamíferos. Entretanto, creio que apenas os exageradamente sensíveis vão chorar pela vida perdida das formigas, uma vez que elas não possuem sequer nocicepção suficiente para sofrer.

Que eu saiba, apenas os jainistas se importam com elas.

Já que 99,99% da população não se importa em matar formigas, que estão vivas e existem, embora não sofram, por que tanta preocupação com um embrião?
Um embrião não sente dor. Um embrião não é, pode ser. Um embrião é tão consciente quanto uma célula minha, que fora do meu corpo não é nada, pois não existe como entidade autônoma.

Nunca abortei, mas se um dia precisar vou fazê-lo. Sem culpa alguma. E quem me conhece sabe que passo longe do ateísmo. Mas se o meu Deus não me condena por matar uma formiga, que é, por que me condenaria por tomar a decisão de não deixar vir a ser algo que só possui o potencial de existir?

Embora eu condene moralmente a atitude do Serra, não deixo de admirar uma boa estratégia. E embora eu absolva a Dilma por esta questão específica, pois tenho afinidade ideológica com ela neste quesito, a condeno por cagar no pau e ter voltado atrás. Mas mais que isso, jogo álcool e fogo no povo, que acha que Deus se importa mais com um amontoado de células que com um ente que existe. Essa discussão é muito maior que um momento político.

Não coloco a culpa na religião. Faço uma analogia com a música. Eu gosto de Pink Floyd, mas detesto determinadas músicas deles. Detestar algumas composições não me faz detestar o todo. E assim é tudo. Não dá pra vestir integralmente nenhuma camisa, a menos que não se tenha senso crítico algum. Logo, o problema não está na religião, mas sim nas pessoas. Se as religiões não existissem, qualquer outra panacéia tomaria seu lugar, fosse uma ideologia política, o nacionalismo ou qualquer outra besteira que agregue mais que cinco pessoas em torno da ideia de outrem. Culpar a religião é a mesma coisa que culpar um automóvel pelo atropelamento de alguém. O automóvel em si é inofensivo.

E eu não voto de novo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

'Nosso lar' bate recorde ao atingir a marca de dois milhões de espectadores



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

In Vitro

Era uma vez...




... que ganhou o... 




...por ter feito...




...contribuindo indiretamente para...






Fim

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Hoje tem palhaçada? Tem sim senhor!

Não fui votar. De novo. Meu título a essas alturas já deve ter sido cancelado. Não me importo. Alguns podem julgar minha atitude como ignorância política, falta de interesse ou mesmo algo do tipo "deixa a vida me levar", mas eu sei exatamente por quê me abstive: já sabia que o Tiririca ganharia.

Assim como não creio que o problema da poluição se deva ao excesso de consumo individual, mas sim à quantidade de gente que consome, penso que o cerne da questão relativa aos políticos brasileiros mora na qualidade do eleitorado que constitui a maioria da população brasileira ----> Pra bom entendedor, meia palavra basta. Veja bem, elegeram um palhaço. Se o voto funciona como uma espécie de espelho, estamos com sérios problemas... Logo, me abster de participar disso é a coisa mais coerente que eu podia fazer, ao evitar participar desta vergonha. O índice de não-comparecimento às urnas chegou a quase 20% nestas eleições e, penso que, talvez, se um dia chegar aos 50%, fique claro o absurdo que é a obrigatoriedade do voto e essa regra caia de vez.

Conversando sobre hipóteses e desfechos,  levantaram a seguinte questão: se isso deixasse de ser uma obrigação, o voto de cabresto seria facilitado. Não creio nisso. É preciso lembrar que estamos no Brasil. OI?! Alow! Brasil! Aqui todo mundo é corrupto, não só os políticos. Eles são apenas brasileiros, como todos nós. Imagino então que as tentativas de compra de votos até existiriam, mas como o que impera aqui é a lei de Gerson, haveria gente vendendo o voto duas, três vezes... Aqui acende-se uma vela pra Deus e outra pro diabo. Você, que está lendo isso e espumando de raiva por não se enquadrar na descrição acima, tenha um pouco mais de discernimento e não use de patriotismo fajuto. No fundo você sabe que aqui é assim mesmo e que a corrupção é um dos pilares de nossa rica cultura. É só acompanhar os estados em que a Dilma teve maioria: os mais pobres do país, todo mundo de olho no "bolsa família". Ora, isso não é corrupção? Não é querer levar vantagem? O voto de cabresto já existe, só que é sutil. Já dizia Goethe: "ninguém é mais escravo que aquele que se acredita falsamente livre".

Não votei e pretendo não fazê-lo até que exista liberdade de fato. Enquanto o voto aqui for obrigatório, eu vou continuar me negando a perder meu tempo e a participar deste circo, cheio de palhaços, do qual o Brasil é feito.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Almoço


Hoje foi bom te ver
Confesso, nem sempre é
Diferenças no jeito de ser
Falar e pensar até

Sempre muito agitada
Se expressa a gesticular
Faz-me as vezes irritada
E com vontade de gritar

Mas são boas as conversas
Isso devo admitir
Quando se encontram as duas imersas
Em temas que fazem rir

Os rumos da vida te fizeram distante
Passando pela minha como brisa
Conflito de emoções da filha-amante
Da mãe, Marisa.


Patchwork

Do amorfo arcaico
Vem tudo que se conhece
Unido como em mosaico
É estado que a ordem desobedece

Aos poucos cremos fugir da origem
Acreditando ter identidade
Os do mundo isso nos exigem
Ainda que seja de tal artificialidade

Contudo, sou tudo isso 
E coisa alguma também
Não tenho qualquer compromisso
Porque de Nada, ninguém vai além

Pois não há como fugir da fonte
Que se revelará o Fim
Está sempre no horizonte
O caleidoscópio que te tornarás enfim

Por que teimar em manter
Algo que não existe
Coisa que não se pode conter
E que ao tempo não resiste

Não sei quem sou eu
Mas sei que nada sou
Aqui nada é meu
Nem a carne, que o pó me emprestou

Mas este é um vazio-cheio
Diferente do niilista
É um nada com recheio
De mistura quimerista
                                             
Espaço pleno de capacidade
Nascente da criação
Real morada da liberdade
Das regras, abolição

Do caos revolto ter consciência
E nele se manter sem golfar
É da vida a maior ciência
Aprendizado diário pra quem vive no mar.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tabacaria

Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Filme de Terror

Eu detestava uniforme na época do colégio. Me parece cena de filme de terror ver todo mundo igual. Prefiro assistir a Linda Blair girando a cabeça 180º na célebre cena de “O Exorcista” que observar a entrada e saída de crianças em colégios. Eu sempre tentava fazer algo diferente, amarrava um pano nas calças, dava um nozinho na ponta da camisa, usava alguma maquiagem bizarra, tudo pra não ter que ficar dentro do uniforme. Não que eu quisesse destoar e chamar mais atenção que os outros, na realidade eu gostaria que todos fizessem algo diferente. Eu só não queria ver aquele mar de gente igual.

Não por acaso, a moda me irrita mais ainda. Se o uso do uniforme atende uma necessidade prática, a moda não tem porquê. É arbitrária, e, muitas vezes, ridícula (os anos oitenta e o movimento new wave não me deixam mentir), servindo pra piorar visuais ao invés de melhorá-los. Um grupinho convenciona qual o tipo de comportamento, de penteado, de acessório, de bolsa, de estilo aceitável e todo mundo vai atrás, sem perguntar nada. O tal grupinho em questão é digno de uma salva de palmas, quem merece receber um pedala-Robinho são os que copiam.

Ao longo de toda a minha vida, eu sempre defendi as minorias. Como eu fui uma criança muito perseguida, obviamente eu me identificava com a causa dos oprimidos. Como eu sempre detestei a uniformização, isso contribuía pra que esse sentimento de defesa destes grupos fosse ainda mais exacerbado. E tudo já passou pela minha ordem do dia: Mulheres, negros, gays, obesos... Todo e qualquer grupo socialmente discriminado já foi alvo da minha atenção e proteção. Até que comecei a perceber que cada um destes grupos não queria acabar com a discriminação que sofria, mas sim... Uniformizar o restante de acordo com seus próprios parâmetros de “normalidade”, assumindo, desta maneira, o poder perante o resto. As feministas não raro apresentam comportamento misândrico, insistindo que as mulheres são melhores que os homens. Os negros acham que têm mais direitos que os brancos, sendo que os últimos devem “pagar” por toda humilhação sofrida historicamente pelos primeiros, mesmo que os indivíduos brancos nada tenham a ver com o que seus antepassados fizeram. Os gordinhos querem porque querem convencer o restante de que a magreza é uma espécie de ditadura, e que ser gordo é super legal. E agora chegou a vez dos gays.

Meus melhores amigos são gays, sempre convivi com eles e confesso que adoro seu tipo de humor. Mas a heterofobia que tenho presenciado está começando a me deixar um pouco enjoada do grupo.

Há que se ter em mente que gosto é diferente de preconceito. Eu posso ter um tipo de gosto ultra específico e só gostar de transar com afro-indo-descendentes, sem tecer absolutamente nenhum juízo discriminatório com relação a outros indivíduos. Feito esse à parte, prossigo.

Um amigo que faz teatro me contou esses dias uma história: Estava no curso quando começou a rolar uma brincadeira na qual quem perdia tinha que pagar uma prenda. Quando os participantes tem mais que 12 anos de idade, geralmente esse tipo de coisa degringola para algo de caráter sexual, e, obviamente os participantes escolheram como pagamento beijos, amassos etc. Até aí, nada que fuja do lugar comum. Mas o grupo era composto de homo e heterossexuais. E ele me contou que quando os heteros se recusavam a pagar as “dívidas” da brincadeira com colegas gays, eram rechaçados pelo grupo, de maioria gay.

Se ontem o conceito de normalidade era ditado pela heterossexualidade, hoje quem não quer ser bi ou gay é taxado de preconceituoso, nazista e anormal. Não é levado em conta o fator gosto pessoal, todo mundo é obrigado a ser moderninho, descolado, liberal e não basta ser simpatizante, tem que participar!

Perceber essas coisas me faz perder completamente a compaixão por qualquer grupo que se diz oprimido, porque é sempre a mesma coisa: Um conjunto de pessoas querendo tomar o poder frente à outro e assim instituir a sua Lei. Na realidade ninguém quer compartilhar e aceitar diferenças, o diferente quer uniformizar os demais de acordo consigo mesmo. No fim das contas todo mundo adora uniforme. Eu é que sou otária de achar que não.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Jesus Michael Cristo

Aconteceu depois que a civilização caiu. Alguns sobraram e esses contavam histórias aos seus filhos e seus netos, histórias sobre o que éramos e do que gostávamos. E os netos dos sobreviventes contaram as histórias de seus avós aos seus filhos e estes aos filhos dos seus filhos. Até que, após estar distante umas cinco gerações da fonte original, começou a acontecer.

Ele foi um Deus vivo. Menino pobre e discriminado ergueu-se e conquistou o mundo, se tornando a pessoa mais conhecida da Terra. Fez milagres. De preto ficou branco, flutuava no ar com o prodígio do Moonwalker, dizia “Vinde a mim as criancinhas” e as acolhia em seu rancho Neverland, fez os mortos se levantarem em Thriller e sendo originalmente negro teve filhos caucasianos que nasceram dele mesmo e não tinham mãe. Como ele era uma presença que se destacava na multidão, alguns diziam que não era humano, que poderia ter vindo dos céus, achavam que era algum tipo de ET. Foi traído e crucificado pelo seu próprio povo. Ressuscitou e passou a aparecer em vários lugares, fazendo mais sucesso do que nunca. Depois de sua morte seu algoz, aquele que o acusou de abusar de criancinhas, se suicidou. Os que antes dele zombavam passaram a idolatrá-lo e se converteram ao Michaelismo. Jesus Michael Cristo. A principal figura de devoção da era pós-queda.

Nos cultos de Jesus Michael Cristo havia muita dança, as pessoas se pintavam de branco e davam gritinhos que segundo os anciãos eram imitações dos dele. A missa era celebrada ao som de “We Are The World” e os sacerdotes do culto arrancavam seus narizes em sinal de fidelidade ao Rei. Todos os anos, na data comemorativa de seu aniversário, as pessoas o lembravam dormindo com criancinhas, esticando os cabelos e desenhando em si mesmas sobrancelhas no formato de acento circunflexo.

E foi dessa forma que Cristo ressurgiu. Na pele de um artista bizarro cuja história contada à moda do telefone sem fio foi se alterando de tal maneira que acabou por santificá-lo.
Mas é sempre assim que acontece.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ode Ao Pentelho Branco

Diz-se que para tudo há tempo e lugar
Hora de rir e hora de chorar
Passam-se dias e com eles vem a experiência,
Que traz aos atos maior eficiência.

Bobo você já não se sente
Aí se constitui a vantagem
De ter no rosto o vinco que não mente
E que do tempo marca na carne a passagem

Há quem por isto amargure e se lamente
Para quem o calendário é um tormento
Lembram de épocas passadas aborrecidamente
Amaldiçoando o relógio como mau elemento

Pensam que eram mais felizes outrora
E o que com força clama seu desejo
É voltar a viver aquela bela aurora
Que passou-se num breve lampejo

Quanto a mim não lamento o Tempo
Este que é o Senhor da Sabedoria
Besteira é gastar como passatempo
As horas a pensar em como tudo seria

Grata estou por adquirir paciência
Esta que é a virtude do mais santo
Saber morrer é também ciência
E dou um viva ao meu primeiro pentelho branco.