quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Almoço


Hoje foi bom te ver
Confesso, nem sempre é
Diferenças no jeito de ser
Falar e pensar até

Sempre muito agitada
Se expressa a gesticular
Faz-me as vezes irritada
E com vontade de gritar

Mas são boas as conversas
Isso devo admitir
Quando se encontram as duas imersas
Em temas que fazem rir

Os rumos da vida te fizeram distante
Passando pela minha como brisa
Conflito de emoções da filha-amante
Da mãe, Marisa.


Patchwork

Do amorfo arcaico
Vem tudo que se conhece
Unido como em mosaico
É estado que a ordem desobedece

Aos poucos cremos fugir da origem
Acreditando ter identidade
Os do mundo isso nos exigem
Ainda que seja de tal artificialidade

Contudo, sou tudo isso 
E coisa alguma também
Não tenho qualquer compromisso
Porque de Nada, ninguém vai além

Pois não há como fugir da fonte
Que se revelará o Fim
Está sempre no horizonte
O caleidoscópio que te tornarás enfim

Por que teimar em manter
Algo que não existe
Coisa que não se pode conter
E que ao tempo não resiste

Não sei quem sou eu
Mas sei que nada sou
Aqui nada é meu
Nem a carne, que o pó me emprestou

Mas este é um vazio-cheio
Diferente do niilista
É um nada com recheio
De mistura quimerista
                                             
Espaço pleno de capacidade
Nascente da criação
Real morada da liberdade
Das regras, abolição

Do caos revolto ter consciência
E nele se manter sem golfar
É da vida a maior ciência
Aprendizado diário pra quem vive no mar.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Tabacaria

Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.


Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?


Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.


(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.


(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)


Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente


Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.


Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.


Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,


Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.


Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.


Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.


(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Filme de Terror

Eu detestava uniforme na época do colégio. Me parece cena de filme de terror ver todo mundo igual. Prefiro assistir a Linda Blair girando a cabeça 180º na célebre cena de “O Exorcista” que observar a entrada e saída de crianças em colégios. Eu sempre tentava fazer algo diferente, amarrava um pano nas calças, dava um nozinho na ponta da camisa, usava alguma maquiagem bizarra, tudo pra não ter que ficar dentro do uniforme. Não que eu quisesse destoar e chamar mais atenção que os outros, na realidade eu gostaria que todos fizessem algo diferente. Eu só não queria ver aquele mar de gente igual.

Não por acaso, a moda me irrita mais ainda. Se o uso do uniforme atende uma necessidade prática, a moda não tem porquê. É arbitrária, e, muitas vezes, ridícula (os anos oitenta e o movimento new wave não me deixam mentir), servindo pra piorar visuais ao invés de melhorá-los. Um grupinho convenciona qual o tipo de comportamento, de penteado, de acessório, de bolsa, de estilo aceitável e todo mundo vai atrás, sem perguntar nada. O tal grupinho em questão é digno de uma salva de palmas, quem merece receber um pedala-Robinho são os que copiam.

Ao longo de toda a minha vida, eu sempre defendi as minorias. Como eu fui uma criança muito perseguida, obviamente eu me identificava com a causa dos oprimidos. Como eu sempre detestei a uniformização, isso contribuía pra que esse sentimento de defesa destes grupos fosse ainda mais exacerbado. E tudo já passou pela minha ordem do dia: Mulheres, negros, gays, obesos... Todo e qualquer grupo socialmente discriminado já foi alvo da minha atenção e proteção. Até que comecei a perceber que cada um destes grupos não queria acabar com a discriminação que sofria, mas sim... Uniformizar o restante de acordo com seus próprios parâmetros de “normalidade”, assumindo, desta maneira, o poder perante o resto. As feministas não raro apresentam comportamento misândrico, insistindo que as mulheres são melhores que os homens. Os negros acham que têm mais direitos que os brancos, sendo que os últimos devem “pagar” por toda humilhação sofrida historicamente pelos primeiros, mesmo que os indivíduos brancos nada tenham a ver com o que seus antepassados fizeram. Os gordinhos querem porque querem convencer o restante de que a magreza é uma espécie de ditadura, e que ser gordo é super legal. E agora chegou a vez dos gays.

Meus melhores amigos são gays, sempre convivi com eles e confesso que adoro seu tipo de humor. Mas a heterofobia que tenho presenciado está começando a me deixar um pouco enjoada do grupo.

Há que se ter em mente que gosto é diferente de preconceito. Eu posso ter um tipo de gosto ultra específico e só gostar de transar com afro-indo-descendentes, sem tecer absolutamente nenhum juízo discriminatório com relação a outros indivíduos. Feito esse à parte, prossigo.

Um amigo que faz teatro me contou esses dias uma história: Estava no curso quando começou a rolar uma brincadeira na qual quem perdia tinha que pagar uma prenda. Quando os participantes tem mais que 12 anos de idade, geralmente esse tipo de coisa degringola para algo de caráter sexual, e, obviamente os participantes escolheram como pagamento beijos, amassos etc. Até aí, nada que fuja do lugar comum. Mas o grupo era composto de homo e heterossexuais. E ele me contou que quando os heteros se recusavam a pagar as “dívidas” da brincadeira com colegas gays, eram rechaçados pelo grupo, de maioria gay.

Se ontem o conceito de normalidade era ditado pela heterossexualidade, hoje quem não quer ser bi ou gay é taxado de preconceituoso, nazista e anormal. Não é levado em conta o fator gosto pessoal, todo mundo é obrigado a ser moderninho, descolado, liberal e não basta ser simpatizante, tem que participar!

Perceber essas coisas me faz perder completamente a compaixão por qualquer grupo que se diz oprimido, porque é sempre a mesma coisa: Um conjunto de pessoas querendo tomar o poder frente à outro e assim instituir a sua Lei. Na realidade ninguém quer compartilhar e aceitar diferenças, o diferente quer uniformizar os demais de acordo consigo mesmo. No fim das contas todo mundo adora uniforme. Eu é que sou otária de achar que não.