sábado, 28 de janeiro de 2012

Très Bien

Très bien, Bigode.



O Problema de Sócrates

Em todos os tempos os grandes sábios sempre fizeram o mesmo juízo sobre a vida: ela não vale
nada... Sempre e por toda parte se escutou o mesmo tom saindo de suas bocas. Um tom cheio
de dúvidas, cheio de melancolia, cheio de cansaço da vida, um tom plenamente contrafeito
frente a ela. O próprio Sócrates disse ao morrer: "viver significa estar há muito doente  - eu devo
um galo a Asclépio curador". O próprio Sócrates estava enfastiado da vida. O que isso
demonstra?  Para onde isso  aponta? Outrora teria-se dito (ó! Disse-se e forte o suficiente; e
avante nossos Pessimistas!): "Em todo caso é preciso que haja algo verdadeiro aqui! O
consensus sapientium prova a verdade." Ainda falaremos hoje desta forma? Nós  temos o direito
a um tal discurso? "Em todo caso é preciso que algo esteja doente aqui" - eis a nossa resposta.
Em primeiro lugar temos de observar mais de perto esses mais sábios de todos os tempos!
Todos eles talvez não estivessem tão firmes sobre as pernas? Talvez estivessem atrasados?
Cambaleantes? Decadentes? Talvez a sabedoria apresente -se sobre a terra como um corvo, ao
qual um pequeno odor de carniça entusiasma?...

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Esta irreverência de asseverar que os grandes sábios são  tipos decadentes abriu-se para mim
mesmo exatamente em uma circunstância na qual mais intensamente o preconceito erudito e
não-erudito se lhe contrapunha. Reconheci Sócrates e Platão como sintomas de declínio, como
instrumentos da decomposição grega, como falsos gregos, como antigregos ("Nascimento da
Tragédia" 1872). Aquele consensus sapientium - isto fui compreendendo cada vez melhor  - não
prova sequer minimamente que eles tinham razão quanto ao que concordavam. O consenso
demonstra muito mais que eles mesmos, esses mais sábios, possuíam entre si algum acordo
fisiológico  para se colocar frente à vida da mesma maneira negativa  - para precisar  se colocar
frente a ela desta forma. Juízos, juízos de valor sobre a vida,.a favor ou contra, nunca podem
ser em última instância verdadeiros: eles só possuem o valor como sintoma, eles só podem vir a
ser considerados enquanto sintomas. Em si, tais juízos são imbecilidades. É preciso estender
então completamente os dedos e tentar alcançar a apreensão dessa  finesse  admirável,  que
consiste no fato de o valor da vida não poder ser avaliado. Não por um vivente, pois ele é parte,
mesmo objeto de litígio, e não um juiz; não por um morto, por uma outra razão. - Da parte de
um filósofo, ver um problema no valor da vida  permanece por conseguinte uma objeção contra
ele, um ponto de interrogação quanto à sua sabedoria, uma falta de sabedoria. Como? E todos
esses grandes sábios?  - Eles não seriam senão decadentes, eles não teriam sido sequer uma vez
sábios? Mas eu retorno ao problema de Sócrates.

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Segundo sua origem, Sócrates pertence à camada mais baixa do povo. Sócrates era plebe.
Sabe-se, ainda se pode até mesmo ver, quão feio ele era. Mas a feiúra, em si uma objeção, é
entre os gregos quase uma refutação. Sócrates era afinal de  contas um grego? Muito
freqüentemente, a feiúra é a expressão de um desenvolvimento cruzado,  emperrado  pelo
cruzamento. Em outros casos, ela aparece como desenvolvimento  decadente. Os antropólogos
dentre os criminalistas dizem-nos que o criminoso típico é  feio: monstrum in fronte, monstrum in
animo.  Mas o criminoso é um  décadent.  Sócrates era um típico criminoso? Ao menos não o
contradiz aquele famoso juízo-fisionômico que soava tão escandaloso aos amigos de Sócrates.
Um estrangeiro, que entendia de rostos, disse certa vez na cara de Sócrates, ao passar por
Atenas, que ele  era  um monstro e escondia todos os vícios e desejos ruins em si. E Sócrates
respondeu simplesmente: "Vós me conheceis, meu Senhor!"

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Em Sócrates, a desertificação e a anarquia estabelecidas no interior dos instintos não são os
únicos indícios de  décadence:  a superfetação do lógico e aquela maldade de raquítico,  que o
distinguem, também apontam para ela. Não nos esqueçamos mesmo daquelas alucinações
auditivas que, sob o nome de o "Daimon de Sócrates", receberam uma interpretação religiosa.
Tudo nele é exagerado, bufão, caricatural. Tudo é ao mesmo tempo oculto, cheio de segundas
intenções, subterrâneo. – Procuro compreender de que idiossincrasia provém essa equiparação socrática entre Razão  = Virtude = Felicidade: essa equiparação que é, de todas as existentes, a
mais bizarra, e que possui contra si, em particular, todos os instintos dos helenos mais antigos.

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Com Sócrates, o paladar grego transforma-se em favor da dialética: o que acontece aí
propriamente? Acima de tudo é um gosto  nobre  que cai por terra. A plebe ascende com a
dialética. Antes de Sócrates, recusavam-se as maneiras dialéticas na boa sociedade: elas valiam
como más maneiras, elas eram comprometedoras. Se advertia a juventude contra elas. Também
se desconfiava de todo aquele que apresentava suas razões de um tal modo. As coisas honestas,
tal como as pessoas honestas, não servem
suas razões assim com as mãos. É indecoroso mostrar os cinco dedos. O que precisa ser
inicialmente provado tem pouco valor. Onde quer que a autoridade ainda pertença aos bons
costumes, onde quer que não se "fundamente", mas sim ordene, o dialético aparece como uma
espécie de palhaço: ri-se dele, mas não se o leva a sério.  - Sócrates foi o palhaço que se  fez
levar a sério: o que aconteceu aí propriamente? 

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Só se escolhe a dialética, quando não se tem mais nenhuma outra saída. Sabe-se que se suscita
desconfiança com ela, que ela é pouco convincente. Nada é mais facilmente dissipável do que
um efeito dialético: a experiência de toda e qualquer reunião na qual se conversa, o prova. Ela
só serve como  saída drástica  nas mãos daqueles que não possuem nenhuma outra arma. É
preciso que se tenha de estabelecer à força o seu direito: antes disto não se faz uso algum dela. Por isso, os judeus eram dialéticos. Como? Sócrates também o era? 

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— A ironia de Sócrates é uma expressão de revolta? De ressentimento da plebe? Ele goza
enquanto oprimido de sua própria ferocidade nas estocadas do silogismo? Ele  vinga-se  dos
nobres que fascina? — À medida que se é um dialético, tem-se um instrumento impiedoso nas
mãos. Com ele podemos cunhar tiranos e ridicularizar aqueles que vencemos. O dialético lega ao
seu adversário a necessidade de demonstrar que não é um idiota: ele o dei xa furioso, mas ao
mesmo tempo desamparado. O dialético despotencializa o intelecto de seu adversário. Como? A
dialética é apenas uma forma de vingança em Sócrates?

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Eu dei a entender o que fez com que Sócrates pudesse se tornar repulsivo: permanece tanto
mais a ser esclarecido  o fato  de ele ter podido produzir fascínio. Por um lado, Sócrates foi o
pioneiro na descoberta de um novo tipo de Agon: para o círculo nobre de Atenas, ele foi o seu
primeiro mestre de armas. Ele fascinou, à medida que tocou no impulso agonístico dos helenos e
que trouxe uma variante para o cerne do embate entre os homens jovens e os rapazinhos.
Sócrates também foi um grande erótico.

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Mas Sócrates desvendou ainda mais. Ele olhou  por detrás  de seus atenienses nobres; ele
compreendeu que  seu  caso, a idiossincrasia de seu caso, já não era nenhuma exceção. O
mesmo tipo de degenerescência já se preparava em silêncio por toda parte. A velha Atenas
caminhava para o fim. E Sócrates entendeu que todo o mundo tinha necessidade  dele: de sua
mediação, de sua cura, de seu artifício pessoal de autoconservação... Por toda parte os instintos
estavam em anarquia; por toda parte estava -se cinco passos além do excesso; o "monstrum in
animo"  era o perigo universal. "Os impulsos querem fazer-se tiranos; precisa -se descobrir um
antitirano, que seja mais forte"... Quando aquele fisionomista revelou a Sócrates quem ele era,
uma caverna para todos os piores desejos, o grande irônico ainda deixou escapar uma palavra,
que deu a chave para compreendê-lo. "Isto é verdade, disse ele, mas me tornei senhor sobre
todos estes desejos."  Como  Sócrates se assenhorou de si  mesmo?  No fundo o seu caso foi
apenas o caso extremo; apenas o caso mais distintivo disto que outrora começou a se tornar a
indigência universal: o fato de ninguém mais se assenhorar de si, de os instintos se
arremeterem uns contra os outros. Ele fascinou como este caso extremo - sua feiúra apavorante
o comunicava a todos os olhares: ele fascinou, como segue de per si, ainda mais intensamente
enquanto resposta, enquanto solução, enquanto aparência de  cura para este caso.  


10
Se se tem necessidade de fazer da razão um tirano, como Sócrates o fez, então o risco de que
outra coisa faça -se tirano não deve ser pequeno. A racionalidade aparece outrora enquanto
Salvadora; nem Sócrates, nem seus "doentes" estavam livres para serem racionais. Ser racional
foi o seu  último  remédio. O fanatismo, com o qual toda a reflexão grega se lança para a
racionalidade, trai uma situação desesperadora. Estava -se em risco, só se  tinha uma escolha: ou
perecer, ou ser  absurdamente racional... O moralismo dos filósofos gregos desde Platão está
condicionado patologicamente; do mesmo modo que sua avaliação da dialética. A equação
Razão = Virtude = Felicidade diz meramente o seguinte: é preciso imitar Sócrates e estabelecer
permanentemente uma luz diurna contra os apetites obscuros — a luz diurna da razão. É preciso
ser prudente, claro, luminoso a qualquer preço: toda e qualquer concessão aos instintos, ao
inconsciente conduz para baixo...

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Dei a entender o que fez com que Sócrates exercesse fascínio: ele parecia ser um médico, um
salvador. Faz-se ainda necessário indicar o erro que repousava em sua crença na “racionalidade
a qualquer preço”?  — Imaginar a possibilidade de escapar da  décadence  através do
estabelecimento de uma guerra contra ela é já um modo de iludir a si mesmo criado pelos
filósofos e moralistas. O escape está além de suas forças: o que eles escolhem como meio, como
salvação, não é senão uma nova expressão da décadence. Eles transformam sua expressão, mas
não a eliminam propriamente. Sócrates foi um mal-entendido.  Toda moral fundada no
melhoramento, também a moral cristã, foi um mal-entendido....A luz diurna mais cintilante, a
racionalidade a qualquer preço, a vida luminosa, fria, precavida, consciente, sem instinto, em
contraposição aos instintos não se mostrou efetivamente senão como uma doença, uma outra
doença.  — Ela não concretizou de forma nenhuma um retorno à "virtude", à "saúde", à
felicidade... Os instintos precisam ser combatidos esta é a fórmula da décadence.  Enquanto a
vida está em ascensão, a felicidade é igual aos instintos.

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Ele mesmo compreendeu isso, este que foi o mais prudente de todos os auto-ludibriadores? Ele
soube dizer isto por fim a si mesmo em meio à sabedoria de sua coragem diante da morte?...
Sócrates queria morrer. Não foi Atenas, mas ele  quem deu para si o cálice com o veneno. Ele
impeliu Atenas para o cálice com o veneno... "Sócrates não é nenhum médico, falou ele
silenciosamente para si mesmo: apenas a morte é aqui a médica... O próprio Sócrates só estava
há muito doente...". 

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"Nietzsche, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Pequeno Grande Mundo













Pequeno grande mundo.
É assim que meu olho o vê.
21/01/2012