terça-feira, 10 de julho de 2012

Irreversível

Um dos meus pontos de concordância com Nietzsche se refere a Sócrates: Também o considero um borra-botas.
Muito da obra de Sócrates girou em torno da problemática da ignorância, que o mesmo chegou a considerar "o único mal". Ele sempre se colocava em discussões na posição de ignorante - o que além de me soar como falsa modéstia ainda parece um tipo de esquiva, pois dizendo-se previamente ignorante ele evitava se comprometer mais profundamente com as ideias que defendia, sempre podendo se desculpar culpando a ignorância por qualquer equívoco - reconhecendo neste movimento toda a fonte de sua "sabedoria".
Bom...  Antes o problema do Homem fosse a ignorância! Isso seria fácil de resolver. Só somos ignorantes até o momento em que adquirimos conhecimento. A ignorância tem cura.
O mesmo não se pode dizer da estupidez.
A estupidez, meus amigos, é irreversível.  

Tomemos como exemplo os evangélicos.
O Bispo Macedo apareceu no Jornal Nacional falando "ou dá ou desce". Nenhum evangélico ignora isso. Mas, ao mesmo tempo, nenhum deles quer saber.

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Sempre fui e sempre serei a favor da religião, mesmo não tendo nenhuma, porque sei perfeitamente que ela é necessária como mecanismo de controle: prefiro um estúpido temendo a Deus que um estúpido me assaltando. E, na realidade, considero aqueles que enxergam a religião como um grande mal igualmente estúpidos - não foi a religião que criou seus fiéis, as pessoas se afinizam com o que é parecido com elas. Existem milhares de religiões diferentes, e se aquelas que mais se sobressaem são as extremistas, só posso concluir que a disposição de espírito da maioria das pessoas é exatamente essa. Não é a religião que cria preconceitos, os preconceituosos já existiam, eles apenas se sentem em casa quando se filiam a qualquer coisa que pregue o que se passa dentro deles. 
Em outras palavras, não foi a religião que criou os homens, mas sim o contrário - e isso é tão óbvio que seria desnecessário dizer... mas, sabe como é... irreversível.

Agora virou moda, por conta da atuação da bancada evangélica, culpar a religião como fonte de preconceitos contra homossexuais. Ora, mas quem faz isso faltou às aulas de História! A religião foi proibida na União Soviética na época do comunismo, mas mesmo assim homossexuais identificados eram enviados à gulags siberianos para morrer de frio e fome. E ainda hoje, em Cuba, onde igualmente não existe culto religioso, homossexuais apanham da polícia nas ruas.
Não há problema com os sistemas, há um problema nas pessoas.
Mesmo que vivêssemos em um mundo isento de crenças em além-mundos, teríamos uma enorme parcela da população elegendo candidatos ultra-conservadores, igualmente preconceituosos e tão mesquinhos quanto os que vemos na bancada evangélica.

Ao divulgar a existência do "apartheid gay" mesmo fora do âmbito religioso, seria de esperar que, com a queda da prévia ignorância sobre tal assunto, os que perseguem a religião por este motivo deixassem de fazê-lo. Mas não.  Porque o problema não é ignorância.
O problema é irreversível.



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